As Ferramentas do Mestre Nunca Vão Desmantelar a Casa-Grande – Audre Lorde

Eu concordei em participar numa conferência do Instituto de Humanidades da Universidade de New York há um ano, por ter entendido que eu comentaria trabalhos que abordassem o papel da diferença nas vidas das mulheres americanas: diferenças de raça, sexualidade, classe e idade. A ausência dessas considerações enfraquece qualquer discussão feminista sobre o pessoal e o político.

É uma arrogância da academia, em particular, assumir qualquer discussão sobre teoria feminista sem examinar nossas várias diferenças, e sem uma perspectiva significativa das mulheres pobres, Negras e Terceiro-Mundistas, e Lésbicas. Ainda assim, coloco-me aqui como uma Negra Lésbica Feminista que foi convidada, nessa conferência, a falar no único painel em que a perspectiva das Negras Feministas e Lésbicas está representada. O que isso diz sobre a visão dessa conferência é triste, num país onde racismo, sexismo e homofobia são inseparáveis. Ler a programação é assumir que mulheres Lésbicas e Negras não têm nada a dizer sobre existencialismo, o erótico, a cultura e silêncio das mulheres, desenvolvimento de teoria feminista, ou heterossexualidade e poder. E o que significa, em termos pessoais e políticos, que mesmo as duas mulheres Negras que aqui se apresentaram foram, literalmente, encontradas em cima da hora? O que significa quando as ferramentas de um patriarcado racista são usadas para examinar os frutos desse mesmo patriarcado? Significa que somente os perímetros mais estreitos de mudança são possíveis e permitidos.

A ausência de qualquer consideração sobre a consciência lésbica ou a consciência das mulheres Terceiro-Mundistas deixa uma falha séria nessa conferência e nos artigos apresentados aqui. Por exemplo, num artigo sobre relações materiais entre mulheres, tomei conhecimento de um modelo de criação excludente que desconsidera totalmente meu conhecimento de Negra Lésbica. Nesse artigo, não houve análise da mutualidade entre mulheres, nem de sistemas de apoio compartilhado, nem da interdependência como existe entre lésbicas e mulheres-identificadas-com-mulheres. No entanto, é somente no modelo patriarcal de criação que as mulheres “que tentam se emancipar pagam um risco talvez alto demais pelos resultados”, como afirma o artigo.

Para as mulheres, a necessidade e desejo de nutrir uma à outra não é patológica, mas sim redentora; e é dentro desse conhecimento que nosso poder real é redescoberto. Essa é a conexão real tão temida por um mundo patriarcal. Somente dentro de uma estrutura patriarcal é que a maternidade pode ser o único poder social acessível às mulheres.

A interdependência entre mulheres é o caminho para uma liberdade que permita ao Eu que seja, não para que seja usado, mas para que seja criativo. Essa é a diferença entre o ser passivo e o ativo sendo.

Lutar meramente pela tolerância com relação à diferença entre mulheres é o reformismo mais grosseiro. É uma negação total da função criativa que a diferença tem em nossas vidas. A diferença não deve ser meramente tolerada, mas vista como a base de polaridades necessárias entre as quais nossa criatividade pode faiscar como uma dialética. Somente aí é que a necessidade pela interdependência torna-se não-ameaçadora. Somente nessa interdependência de forças diferentes, reconhecidas e equiparadas, pode ser gerado o poder de buscar novas formas de estar sendo no mundo, bem como a coragem e a sustância para agir quando não há permissões.

Da indeterpendência das diferenças mútuas (não-dominantes) verte aquela segurança que nos possibilita descender no caos do conhecimento e retornar com visões verdadeiras de nosso futuro, juntas ao poder concomitante de efetivar tais mudanças que podem tornar aquele futuro um sendo. Diferença é aquela conexão crua e poderosa na qual nosso poder pessoal é forjado.

Como mulheres, fomos ensinadas ou a ignorar nossas diferenças, ou vê-las como as causas da separação e suspeição, ao invés de forças para mudança. Sem comunidade não há libertação, só o mais vulnerável e temporário armistício entre uma pessoa e sua opressão. Mas comunidade não deve significar uma supressão de nossas diferenças, nem a pretensão patética de que essas diferenças não existem.

Aquelas de nós que estão fora do círculo do que essa sociedade define como mulheres aceitáveis, aquelas de nós que foram forjadas nos caldeirões da diferença – aquelas de nós que somos pobres, que somos lésbicas, que somos Negras, que somos velhas – sabemos que sobrevivência não é uma habilidade acadêmica. É aprender a estar sozinha, impopular e às vezes insultada, e a fazer causa comum com aquelas outras identificadas como externas às estruturas, para definir e buscar um mundo no qual todas nós possamos florescer. É aprender a tomar nossas diferenças e torná-las forças. Pois as ferramentas do senhor nunca vão desmantelar a casa-grande. Elas podem nos permitir a temporariamente vencê-lo no seu próprio jogo, mas elas nunca nos permitirão trazer à tona mudança genuína. E esse fato só é uma ameaça àquelas mulheres que ainda definem a casa-grande como sua única fonte de suporte.

Mulheres pobres e mulheres de Cor sabem que há uma diferença entre as manifestações diárias de escravização marital e prostituição porque nossas filhas é que estão na pista. Se a teoria feminista americana branca precisa deixar de lidar com as diferenças entre nós, e as consequentes diferenças em nossas opressões, então como lidar com o fato de que as mulheres que limpam suas casas e cuidam de suas crianças enquanto vocês comparecem a conferências sobre teoria feminista são, majoritariamente, mulheres pobres e mulheres de Cor? Qual é a teoria por trás do feminismo racista?

Num mundo de possibilidade para todas nós, nossas visões pessoais ajudam a fincar as bases de trabalho da ação política. O fracasso das feministas acadêmicas em reconhecer a diferença como uma força crucial é o fracasso em transcender a primeira lição patriarcal. Em nosso mundo, dividir e conquistar tem que se tornar definir e empoderar.

Por que outras mulheres de Cor não foram encontradas para participar nessa conferência? Por que dois telefonemas para mim foram considerados uma consultoria? Eu sou a única fonte possível de nomes de feministas Negras? E mesmo que o artigo do painel  sobre Negritude termine com uma conexão importante e poderosa de amor entre mulheres, o que temos a dizer sobre cooperação interracial entre feministas que não se amam?

Em círculos feministas acadêmicos, a resposta a essas questões é muitas vezes “Nós não sabíamos a quem perguntar”. Mas essa é a mesma evasão de responsabilidade, a mesma esquiva que mantém o trabalho artístico de mulheres Negras fora das mostras de mulheres, que mantém o trabalho de mulheres Negras fora da maioria das publicações feministas, exceto pelas ocasionais “Edição Especial Mulheres Terceiro-Mundistas”, e que mantém os textos de mulheres Negras fora de nossas listas bibliográficas. Mas, como Adrienne Rich afirmou em uma palestra recentemente, as feministas brancas empenharam-se enormemente em educar-se sobre elas mesmas nos últimos dez anos, então como não se educaram também sobre mulheres Negras e as diferenças entre nós – brancas e Negras – quando isso é a chave para nossa sobrevivência enquanto movimento?

As mulheres de hoje ainda estão sendo chamadas a atravessar a fenda da ignorância masculina e educar os homens sobre nossas existências e nossas necessidades. Essa é uma ferramenta velha e arcaica usada por todos os opressores para manter as oprimidas ocupadas com as preocupações do senhor. Agora temos ouvido que é tarefa das mulheres de Cor educar mulheres brancas – frente à tremenda resistência – sobre nossa existência, nossas diferenças, e nossos respectivos papéis em nossa sobrevivência conjunta. Isso é um desvio de energias e uma trágica repetição do pensamento racista patriarcal.

Simone de Beauvoir disse: “É do conhecer as condições genuínas de nossas vidas que devemos tirar nossa força para viver e nossas razões para agir”.

O racismo e a homofobia são as condições reais para todas as nossas vidas nesse espaço e tempo. Eu conclamo cada uma de nós aqui a mergulhar naquele lugar profundo de conhecimento dentro de si mesma, e alcançar o terror e a abominação a qualquer diferença que ali reside. Ver que face veste.

Então o pessoal e o político podem começar a iluminar todas as nossas diferenças.

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Ligação

Heterossexualidade compulsória e existência lésbica – Adrienne Rich

Resumo:

Em clássico artigo feminista, a autora propõe a idéia da heterossexualidade como uma instituição política que retira o poder das mulheres. Ela desafia o apagamento da existência lésbica no pensamento feminista bem como no entendimento geral das relações de gênero na sociedade. O artigo trata da identificação entre mulheres em termos de uma agência politicamente motivada. Critica a ideologia que supervaloriza a heterocentricidade, mesmo entre feministas. De acordo com sua crítica, Rich coloca-se a favor de um continuum lésbico, que abarcaria um grande escopo de variedades de experiências de identificação entre mulheres. A existência lésbica deveria ser reconhecida historicamente e empodera as vidas de todas as mulheres.

Link do escrito 

Material Feminista 

Citação

“Sermos mulheres juntas não era o suficiente. Éramos diferentes. Sermos garotas homo juntas não era suficiente. Éramos diferentes. Sermos negras juntas não era suficiente. Éramos diferentes. Sermos mulheres negras juntas não era suficiente. Éramos diferentes. Sermos sapatas negras juntas não era suficiente. Éramos diferentes.

Levou um tempo para percebermos que nosso lugar era não a segurança de uma diferença em particular, mas a própria casa da diferença.”

Audre Lorde