Ligação

Heterossexualidade compulsória e existência lésbica – Adrienne Rich

Resumo:

Em clássico artigo feminista, a autora propõe a idéia da heterossexualidade como uma instituição política que retira o poder das mulheres. Ela desafia o apagamento da existência lésbica no pensamento feminista bem como no entendimento geral das relações de gênero na sociedade. O artigo trata da identificação entre mulheres em termos de uma agência politicamente motivada. Critica a ideologia que supervaloriza a heterocentricidade, mesmo entre feministas. De acordo com sua crítica, Rich coloca-se a favor de um continuum lésbico, que abarcaria um grande escopo de variedades de experiências de identificação entre mulheres. A existência lésbica deveria ser reconhecida historicamente e empodera as vidas de todas as mulheres.

Link do escrito 

Material Feminista 

As borboletas ou desmascarando as políticas do amor – Parte I (tradução)

Texto Original*

Homens mentem sobre tudo. Ou, em outras palavras, eles fazem as coisas mais cruéis e nojentas para nós, e chamam isso de outra coisa, chamam de amor.

Quando eu era bem jovem eu sempre me perguntava o que significava “se apaixonar”. Isso era posto em todo lugar como a melhor experiência para uma mulher, aquilo que você precisa experimentar para estar completa. Isso era retratado como um estado super especial que atinge você como um relâmpago e transcende você e muda o seu comportamento. É bem assustador quando você pensa nisso. Eu nunca me “apaixonei” por ninguém quando eu era jovem, e eu me perguntava sempre se eu era normal ou não. Eu dizia para as pessoas lamentando, “eu nunca me apaixonei”, e eles me diziam “ah, você vai ver, vai vim um dia quando você não estiver esperando”. Eu me sentia da mesma forma quando as pessoas me explicavam o que era deus e fé e aparentemente eu deveria me transcender por este grande sentimento durante os rituais ou algo do tipo, exceto que eu nunca senti nada e era completamente artificial e entorpecente no melhor dos casos, tendo que fingir, e me sentindo culpada por fingir, assim como nos relacionamentos.

Eu me lembro de um garoto se aproximando de mim quando eu tinha nove anos e ele queria sair comigo. Nós deveríamos andar de mãos dadas e isso era totalmente estranho e falso (qual era a diferença entre “estar com ele” e “não estar com ele”? a vulgaridade e artificialidade disso era humilhante), eu não sentia nada, exceto um desconforto por andar de mãos dadas só para mostrar para o mundo que eu pertencia a ele, o que eu não gostava porque eu pensava que era errado uma pessoa pertencer a outra, mas eu também me sentia culpada por não sentir aquele amor especial que eu deveria sentir, eu pensava que isso significava que eu não tinha coração.

De qualquer forma, depois de alguns estupros/ PIV**/ relacionamentos abusivos, enquanto eu ainda era adolescente, eu me “apaixonei”, ou assim eu pensei. Tudo que eu sabia era que aquilo era muito intenso, então eu presumi que aquilo tinha que SER amor! FINALMENTE!!

Agora, o que exatamente eu senti? Minhas respostas a primeiro ser “seduzida” (perseguida) e beijada (fisicamente invadida e mantida presa) por um homem – e ele querendo me ver de novo – incluíam:

  • Branco na mente
  • Coração disparado
  • Suor
  • Pensamentos obsessivos e invasivos sobre ele que me impendiam de me concentrar e experimentar outras coisas por total
  • Desperdiçar horas ou um bom tempo preparando o que eu devia dizer a ele antes que o visse
  • Nervoso
  • Insônia
  • Aquelas chamadas “borboletas” no estômago que são tensões estomacais
  • Rubor
  • Me checar no espelho e controlar a aparência do meu corpo mais obsessivamente do que eu normalmente fazia, e estar com mais medo que o usual de ser feia, não ser inteligente o bastante ou algo do tipo
  • Desesperadamente esperar por contato da parte dele. Um email, uma mensagem, uma ligação… checar meu telefone e email obsessivamente e meu coração ficar despedaçado quando não tinha nada
  • Um doloroso sentimento de perda, separação, vazio (isto é, se sentir vazia, sem existência sem a presença dele) e ser rasgada por dentro do peito. Uma sensação que se intensificaria na ausência dele ou se ele fosse sadicamente frio ou distante, ou depois do PIV ou invasão física
  • Um constante estado de ardente melancolia, variando a intensidade. Este é um estado no qual você é imobilizada entre um sentimento de que não há nada lá fora e um horror da sua própria solidão/ vazio (ou o que é feito você acreditar que é a solidão da alma) então eu vaguei melancolicamente para fora do meu corpo,  implorando silenciosamente para me pendurar nele (ou em outro alguém)
  • Achar coisas bonitas no homem onde não havia nada
Yeah. Nada disso aqui é amor. É apenas medo de ser abandonada, terror e ponto final. Ou o que chamamos de trauma-bonding***. Ainda em todo lugar, estas respostas muito normais à danos, negligência e prisões feitas por homens são descritas como amor, mesmo quando a mulher (diga-se em um romance “romântico”) morre por causa desse suposto amor. E isso não é uma projeção, em todo caso, abusos e ameaças de homens são reais, por causa do PIV, porque homens são nossos opressores e captores e nós tememos eles, por causa da invasão física compulsória que homens chamam de sexo, a negligência real, mentiras e manipulação etc.

Não preciso dizer que minha primeira experiência foi extremamente dolorosa. O cara tinha por volta de 13 anos a mais que eu, e eu ainda era menor de idade, e o meu “amor” seria mais forte que tudo, ele era muito fugaz, iria entrar em contato comigo somente quando ele precisava me foder (estuprar). Eu estava muito grata por ele prestar alguma atenção em mim para ter consciência desse comportamento abusivo, ou entender o que isso significava. Eu estava confusa porque ele só queria me ver esporadicamente, em vez de começar um relacionamento, o qual é a forma que esse amor supostamente deve ser expressado. Se ele gostava o bastante de mim para me “desejar”, porque ele não queria um relacionamento? Não saber se ele me “amava” ou não me deixava constantemente ansiosa. A distância emocional, a negligência e o constante esperar por ele fez a dor aguçar.

Passado um ano, eu finalmente percebi que ele me usou e não teve nenhum respeito por mim. Eu decidi desistir de esperar que ele se apaixonasse por mim (entrasse no prometido relacionamento). No instante que eu fiz isso, eu senti um maravilhoso sentimento de liberdade. Eu senti que todo o peso do mundo de repente desaparecesse. Eu não estava amarrada, ligada mais a ele. Eu era independente. Eu não precisava viver mais segundo ele, esperando e ansiando por ele. As ilusões de repente desapareceram e eu vi ele como um cara inútil. Eu disse a mim mesma: eu nunca mais vou ser tão ingênua com um cara. Eu tive má sorte, eu pensei, eu devia apenas ter escolhido um homem melhor, e ser mais cuidadosa.

O problema era que depois de passado cinco ou seis anos, esse modelo continuou se repetindo e repetindo e repetindo. Todo homem que eu trauma-bonded também estava somente interessado em me usar para PIV (estupro) ou não tinha nenhum interesse em mim. Eu pensei que tinha algo de errado comigo, talvez eu não fosse bonita o suficiente, magra o suficiente, peituda o suficiente, estivesse saindo o suficiente, madura, sedutora, seja o que for. Eu não entendia o que era que eu não tinha. Eu não entendia porque eu acumulava tantas falhas. Porque eles nunca ficavam? Porque eu era tão azarada no “amor”? Alternativamente, eu não iria ter trauma-bond, então eu ficaria completamente consciente que eu não queria PIV e invasão física (quando eu não tinha muita consciência disso com outros por causa do trauma-bonding) e isso seria mais humilhante. Eu estava ainda muito grata pela atenção para mandá-los embora, então isso seria doloroso, nojento, e eu me odiei pelo que eu percebi que era traição própria.

Quando eu estava “atraída”, eles não queriam, e quando eu não queria, eles queriam. Isso não fazia sentido.

Eu vi que existia um modelo e tentei coisas para evitar sentir tanta dor. Eu decidi parar de ter PIV com homens que eu não conhecia direito ou que não tivesse começado um relacionamento oficial. O objetivo era evitar ter PIV com homens que se sentiam atraídos por mim até que eu soubesse que eles não iriam me usar/abusar só por PIV e que queriam um sério, comprometido e igual relacionamento, baseado em descoberta mútua, amizade etc. Ao menos, se eu me “apaixonasse” por eles, eles não teriam me fodido, eu pensei. Bem, advinha, tudo que aconteceu foi que eu continuei tendo trauma-bond com homens, exceto que depois deles se sentirem “atraídos” por mim (me convidar para drinks, ou qualquer coisa), eles perderiam o interesse por mim porque eles não conseguiriam o que queriam e eles achariam outra mulher que fosse mais dócil cedo ou tarde. Isso era doloroso também. E não impediu de alguns homens me estuprarem de qualquer forma.

Porque isso tudo era confuso e doloroso, eu pensaria bastante sobre isso, e perguntava muito para outros, para ver como eram as outras experiências. As coisas que eu comecei a descobrir, pouco a pouco, foram:

1. Que a intensidade do trauma-bond poderia murchar após um tempo conhecendo o homem como amigo ou conhecido.

2. Que o “amor” em questão não tinha nada a ver com o caráter individual dos homens ou o fato de eu apreciá-los pelo o que eles eram, mas tinha tudo a ver com o que eles representavam para mim – usualmente uma figura autoritária, sendo muito mais velho que eu ou tendo um status mais alto. Isso na verdade me prevenia de vê-los como eles realmente eram (estupradores mentirosos sacos de merda). O mais distantes ou frios que eles eram, se eles decidiram me invadir fisicamente ou não, mais doloroso seria o “amor” (trauma-bonding)

3. Também, eu reconheci a mim mesma que esse sentimento “amor” era muito intenso para suportar e nunca me conduziu a lugar algum, exceto desolação. Isso não era natural e era uma prova de que esse relacionamento era doentio. Eu assumi que deveria ter um problema no modo que eu amava, que se isso era realmente amor não poderia ser tão doloroso e alienante. Então eu comecei a buscar porque isso acontecia comigo e buscar quebrar esse modelo de alguma forma. Eu comecei a prestar atenção em como isso funcionava e o que isso fez comigo.

4. Eu decidi parar de procurar estar em um “relacionamento amoroso” com um homem até que eu tivesse me ordenado, e também procurar homens no qual eu poderia ser igual em idade e status até para prevenir a trauma-bond. Eu disse a mim mesma: “você não vai sair com um homem até que você saiba que você pode “amar” sem sentir dor.” Se fosse para eu sentir o amor, isso teria que ser um sentimento de calma e serenidade, de totalidade e felicidade, e não deveria existir temor, medo da perda, ansiedade ou qualquer coisa do tipo que cerca o homem. Pelo contrário, isso significaria que isso não era amor, mas um trauma-bonding ou S/M*** e eu deveria me manter longe do cara, ou esperar até que isso murchasse e eu pudesse ter uma decisão informada. Sedução em si era errado, artificial e alienante, porque isso estava me ameaçando a ser algo para ser pertencido, então se fosse para ter uma relação física com um homem, teria que ser depois de um tempo de amizade e proximidade e que viesse naturalmente.

5. Logo após, eu percebi que constantemente e secretamente esperar que uma relação amorosa acontecesse onde quer que eu fosse era doloroso em si mesmo, eu acabaria sempre com um sentimento de solidão, insatisfação, como se algo especial não estivesse acontecendo – em um estado de expectativa para acontecer algo externo comigo em vez de egocentrismo.  Isso me construiu como inerentemente sozinha e vazia, como sendo metade de uma pessoa com a necessidade de ser preenchida por um homem (ou outra pessoa). Como inerentemente carente e incompleta. Como se eu não suportasse ficar comigo mesma, eu teria que desaparecer em um homem/ casal para existir – isso é extremamente ódio à mulher e aniquilador de si mesma. Esperar para depender dele e esperar por ele para receber amor, claro que isso nunca viria. Eu finalmente percebi a inversão proferida e a mentira de toda essa merda. Eu percebi que eu precisava desistir de todo desejo de estar em um relacionamento para então não me sentir constantemente alienada. Eu me lembro muito bem de fazer essa decisão e sentir um tamanho sentimento de liberdade e felicidade em estar comigo mesma depois de tudo. Parecia ser uma reconciliação.

Em seguida, as coisas se desdobraram bem rápido. Foi quando o feminismo seriamente se reclamou em mim, quando eu percebi que PIV, invasão física sexual de mulheres e controle dos nossos órgãos sexuais eram como os homens nos oprimiam e nos prejudicavam. Que PIV era inerentemente danoso, humilhante e que nós não eramos para ser penetradas. E foi onde eu percebi a estrutura geral da violência masculina e patriarcal. Meu mundo inteiro caiu.

Bem, adivinhe, todos esses repentinos homens não estavam interessados em mim de jeito nenhum. Porque eu sempre me afastei de qualquer tipo de “sedução” antes que eu conhecesse bem o cara, eles simplesmente se afastavam de mim logo, antes que de fato eu os conhecesse. Ha Ha. Isso abriu meus olhos. Me fez perceber que homens não estavam interessados em relacionamentos em igualdade com mulheres. Nenhum deles. Não existia “caras legais” ou exceções. Eles não estavam interessados em mim nem como amigos porque eles não conseguiam de mim o que eles queriam. Tudo que eles queriam era me usar como um buraco para PIV e como a propriedade deles, porque essa era minha função enquanto mulher na terra dos homens, e se eu não preenchesse essa função, eu estava fora do interesse deles.

E depois de estabelecer algumas regras finais de interação com homens, para me proteger da nojenta misoginia deles (completa abertura ao feminismo, sem o menor indício de misoginia, capaz de conversar sobre isso sem a menor defensiva ou me fazer sentir estranha de qualquer forma), homens sumiram da minha vida. Nenhum homem coube nos critérios, ainda que minhas regras não fossem radicais e fossem individualistas.

Eu percebi que qualquer que fosse o esforço individual que eu pusesse em uma relação com homens mesmo sem o PIV ou sem a “sedução”, sempre seria desigual com eles, porque eles são nossos opressores e captores, porque eles acabam com a nossa energia e conosco tentando mudá-los. Nunca haveria uma proteção completa do trauma-bonding com eles, ou medo da violência deles ou de ser impedida a ir ao final dos meus pensamentos. Não importa o que eles fazem individualmente para serem legais ou não, é o que eles são e representam enquanto classe masculina. Até hoje, se um homem é gentil comigo ou apenas sorri eu ainda sinto essa “atração” e gratidão que eu sentia antes e tento me livrar dela, que simplesmente significa que homens continuam sendo nossos captores e não há forma de escaparmos da síndrome de estocolmo enquanto eles nos seguram como prisioneiras. O qual é precisamente o porque que eu sei que tenho que me afastar deles máximo que eu puder.

Então sim, o fim do desmascaramento das mentiras dos homens sobre amor e relacionamentos foi o começo do separatismo dos homens, e o começo do feminismo radical.

*A tradução pode ter ficado um pouco tosca, então se você quiser enviar sugestões, eu aceito HAHA
**PIV: Penis in Vagina (Pênis na Vagina)
*** Trauma Bonding: “ligação traumática” é o uso indevido de medo, excitação, sentimentos sexuais e fisiologia sexual para enredar outra pessoa.
**** S/M: Sadomasoquismo

(Tradução Niña Mala)