[Tradução] 1° cap. de Our Blood – Andrea Dworkin

Feminismo, Arte e Minha Mãe Sylvia.

Eu estou muito feliz por estar aqui hoje, porque isto não é irrisório para mim, mesmo havendo muitos outros lugares onde eu poderia estar. Isto não é o que minha mãe planejou para mim.

Eu quero lhes dizer algo sobre minha mãe. Seu nome é Sylvia, o nome de seu pai é Spiegel, o nome de seu marido é Dworkin. Minha mãe tem 59 anos e há alguns meses ela teve um sério ataque cardíaco. Ela já se recuperou e já está de volta no seu emprego. Ela é secretária numa escola. Ela tem sido uma paciente cardíaca a maior parte da sua vida e por toda a minha. Quando criança, ela teve uma febre reumática, mas ela diz que seu real problema começou quando ela engravidou do meu irmão Mark e teve pneumonia. Depois disso, sua vida foi uma miséria de doenças. Após anos de doenças debilitantes – falhas cardíacas, reações tóxicas às drogas que a mantinham vida – ela se submeteu a uma cirurgia no coração, então teve um coagulo no cérebro, um acidente vascular cerebral, que a impediu de falar por muito tempo. Ela se recuperou da cirurgia no coração e do seu acidente vascular, embora ela ainda fale bem mais devagar do que ela imagina. Então, há aproximadamente oito anos atrás, ela teve um ataque cardíaco. Ela se recuperou. Então, há alguns meses atrás, ela teve outro ataque cardíaco. E se recuperou.

Minha mãe nasceu em Jersey City, New Jersey. É a segunda mais velha de sete irmãos, dois garotos e cinco garotas. Seus pais, Sadie e Edward, que eram primos, vieram de algum lugar da Hungria. Seu pai morreu antes de eu nascer e sua mãe tem agora oitenta anos. Não há como saber com certeza se o coração da minha mãe teria sido intensamente machucado se ela tivesse nascido em uma família rica. Eu suspeito que não, mas eu não sei. Também não há como saber com certeza se ela teria recebido um tratamento médico diferente se ela não fosse uma garota. Entretanto, tudo aconteceu como aconteceu e então, ela esteve doente boa parte de sua vida. Como ela era uma garota, ninguém nunca a encorajou a ler livros (embora ela me diga que amava ler e que não se lembra de quando ou porque ela parou); ninguém a encorajou a ir para a faculdade ou pediu-lhe para considerar os problemas do mundo onde ela vive. Ela teve que começar a trabalhar assim que terminou a escola porque sua família era pobre. Ela trabalhava em tempo integral como secretária e aos sábados e em algumas noites ela trabalhava como “vendedora” numa loja de departamento. Então ela se casou com meu pai.

Meu pai era professor e também trabalhava as noites nos correios porque ele tinha contas médicas para pagar. Ele precisava manter minha mãe viva e também tinha duas crianças para sustentar. Eu reafirmo o que Joseph Chaikin diz em The Presence of The Actor: “A realidade médico-econômica neste país é um emblema do Sistema, que literalmente escolhe quem deve sobreviver. Eu renuncio a meu governo devido a seu sistema econômico desigual”. Outros, eu devo pontuar a vocês, tiveram e têm menos que nós. Outros, que não são minha mãe, mas que estiveram em sua situação, morreram. Eu também renuncio este governo que mata os pobres, e eles não são somente vítimas de doenças cardíacas, ou dos rins, ou de câncer – eles são vítimas de um sistema onde uma consulta médica custa $25 e uma cirurgia custa $5000.

Quando eu tinha doze anos, minha mãe voltou da sua cirurgia cardíaca e do seu acidente vascular cerebral que a impediu de falar. Lá estava ela, uma mãe, em pé e dando ordens. Nós duas tivemos tempos bem difíceis uma com a outra. Eu não sabia quem ela era ou o que ela queria de mim. Ela não sabia quem eu era, mas ela definitivamente tinha ideias sobre quem eu deveria ser. Eu acredito que ela tinha uma atitude boba, quase estúpida, com o mundo. Aos doze anos eu sabia que queria ser uma escritora ou uma advogada. Eu realmente fui criada sem uma mãe, então, certas ideias não me atingiram. Eu não queria ser uma esposa e eu não queria ser mãe.

Meu pai foi quem realmente me criou, embora eu não o visse muito. Ele valorizava os livros e os diálogos intelectuais. Ele era filho de imigrantes russos e eles queriam que ele fosse médico, este era o sonho deles. Ele era um filho devotado e então, apesar dele querer estudar história, ele fez um curso pré-médico na faculdade. Mas ele era muito melindroso para passar por tudo isso.  O sangue o deixava enjoado. Então, depois desse curso, ele se encontrou ensinando ciências, que ele detestava, por quase vinte anos, em vez de ensinar história, que ele amava. Durante os anos de trabalho que ele detestava, ele jurou que seus filhos seriam educados o máximo possível, não importando o que custaria a ele, não importando qual tipo de comprometimento, trabalho ou dinheiro necessário, seus filhos iriam se tornar o que eles quisessem. Meu pai fez de seus filhos a sua arte e se devotou a nutri-los para que eles se tornassem o que pudessem. Eu não sei por que ele não fez uma distinção entre sua filha e seu filho, mas ele não fez. Eu não sei por que desde o começo ele me deu livros para ler, conversou comigo sobre todas as suas ideias e regou todas as minhas ambições para que elas sobrevivessem, fossem nutridas e crescessem – mas ele fez.

Assim, em nossa casa, minha mãe estava fora de questão de ser uma influência. Meu pai, cujo maior amor era pela história, cujo comprometimento era com a educação e com o dialogo intelectual, ensinou a mim e meu irmão que o nosso próprio engajamento deveria ser com o mundo. Ele tinha todo um conjunto de ideias e princípios que nos ensinou, em palavras, por exemplo. Ele acreditava, por exemplo, em igualdade racial e integração quando essas crenças eram vistas como absolutas aberrações por todos os seus vizinhos, família e colegas. Quando eu, aos quinze anos, declarei em uma reunião de família que se eu quisesse casar, eu me casaria com quem eu quisesse independentemente de cor, a resposta do meu pai, antes que aquela família enfurecida pudesse falar, foi que ele não esperaria menos. Ele era um libertário civil. Ele acreditava em sindicatos e lutou para sindicalizar os professores – uma noção impopular naqueles dias desde que os professores queriam se ver como profissionais. Ele nos ensinou os princípios da Declaração de Direitos, que agora não é vista com os melhores olhos pela a maioria dos Americanos – um comprometimento absoluto com a liberdade de expressão em todas as suas formas, igualdade perante a lei e igualdade racial.

Eu adorava meu pai, mas eu não tinha nenhuma simpatia pela minha mãe. Eu sabia que fisicamente, ela era corajosa – meu pai me falou isso diversas vezes – mas eu não a via como um Hércules. Nenhuma mulher jamais havia sido, até onde eu sabia. Sua mente era desinteressante, ela parecia pequena e provincial. Eu lembro que uma vez no meio de uma terrível discussão, ela me disse de uma forma bem dura: “você pensa que eu sou estúpida.” Eu neguei na hora, mas hoje eu sei que ela estava certa. E de fato, o que mais alguém poderia pensar de uma pessoa cuja única preocupação fosse que eu limpasse meu quarto, usasse certo tipo de roupas ou penteasse meu cabelo de outra forma. Eu certamente tinha boas razões para achar que ela fosse estúpida, horrível, insignificante e até desprezível: Edward Albee, Philip Wylie e aquele grande artista Sigmund Freud me disseram. Parecia para mim que as mães eram as pessoas mais dispensáveis – ninguém tinha uma boa opinião sobre elas, certamente não os grandes escritores do passado e certamente também não os emocionantes escritores do presente. E mesmo assim, esta mulher, minha mãe, presente ou ausente, era o centro da minha vida de tantas formas inexplicáveis, poderosas e não palpáveis, eu a via apenas como uma ignorante irritante, alguém sem graça, paixão ou sabedoria. Quando eu me casei em 1969 eu me senti livre – livre da minha mãe, de seus preconceitos e suas exigências ignorantes.

Eu estou contanto a vocês isto porque esta história tem, possivelmente pela primeira vez na história, uma resolução bem mais feliz do que se podia esperar.

Vocês se lembram em Por Quem os Sinos Dobram de Hemingway quando Maria é questionada se sua vida amorosa com Robert fez a terra se mover? A terra se moveu para mim também algumas vezes na minha vida. A primeira vez aconteceu quando eu tinha dez anos. Eu estava indo para a escola hebraica, mas ela estava fechada em um dia de luto pelos seis milhões de mortos pelos nazistas. Então eu fui ver minha prima que morava por perto e me deparei com ela tremendo, chorando, gritando e vomitando. Ela me disse que era Abril e neste mês a sua irmã mais nova tinha sido assassinada na frente dela, outra irmã mais nova teve uma morte horrível, as suas cabeças tinham sido raspadas… – digamos apenas que ela contou o que aconteceu a ela em um campo de concentração. Ela disse que todo mês de Abril ela se lembrava com pesadelos e terror do que aconteceu neste mês muitos anos atrás e que em todo Abril ela tremia, chorava, gritava e vomitava. A terra se moveu para mim, então.

A segunda vez que a terra se moveu para mim foi quando eu tinha dezoito anos e passei quatro dias na Casa de Detenção para Mulheres de Nova York. Eu havia sido presa num ato contra o genocídio na Indochina. Eu passei quatro dias e quatro noites na sujeira e no terror daquela cela. Enquanto eu estava lá, dois médicos fizeram um brutal exame interno em mim, eu fiquei com hemorragia por quinze dias depois disso. A terra havia se movido para mim de novo.

A terceira vez que a terra se moveu para mim foi quando eu me tornei feminista. Não foi em um dia em particular ou através de uma experiência. Teve haver com aquela tarde quando tinha dez anos e minha prima pôs a tristeza da sua vida em minhas mãos; teve haver com aquela cela feminina, e com três anos de um casamento que começou com uma amizade e terminou em desespero. Aconteceu um tempo depois de deixar meu marido, quando eu estava vivendo na miséria e com uma grande aflição emocional. Aconteceu vagarosamente, de pouco em pouco. Uma semana depois de eu largar meu marido, eu comecei meu livro, que agora se chama Woman Hating. Eu queria descobrir o que havia acontecido comigo no meu casamento e nas mil e uma situações cotidianas onde parecia que eu estava sendo tratada como sub-humana. Eu sentia que eu era profundamente masoquista, mas aquele masoquismo não era pessoal – toda mulher que eu conhecia vivia em um masoquismo profundo. Eu queria descobrir o porque. Eu sabia que meu pai não havia me ensinado aquele masoquismo e que minha mãe não foi minha professora imediata. Então eu comecei no que parecia ser o único lugar aparente – com a Story of O, um livro que me tocou profundamente. Desde este começo eu procurei na pornografia, nos contos de fadas, nos mil anos de enfaixamento dos pés de mulheres na China e no assassinato de nove milhões de bruxas. Eu aprendi algo sobre a natureza do mundo que foi escondida de mim antes – eu vi um desprezo pelas mulheres que permeava em cada instituição da sociedade, cada órgão cultural, cada expressão do ser humano. E eu percebi que eu era uma mulher, uma pessoa que conheceu esse desprezo sistemático em cada esquina, em cada sala de estar, em cada interação humana. Pelo fato de eu ter me tornado uma mulher que sabia que era mulher, isto é, pelo fato de eu ter me tornado uma feminista, eu comecei a falar com mulheres pela primeira vez na minha vida e uma delas foi a minha mãe. Eu fui até a sua vida através do longo túnel escuro da minha própria vida. Eu comecei a ver quem ela era quando eu comecei a ver o mundo que a formou. Eu fui a ela não mais me apiedando da pobreza do seu intelecto, mas surpresa pela qualidade da sua inteligência. Eu fui a ela não mais convencida da sua estupidez e trivialidade, mas surpresa pela qualidade da sua força. Eu fui a ela não mais me sentindo a dona da verdade ou superior, mas como uma irmã, como outra mulher, cuja vida teria repetido a dela – e quando eu digo “repetido a dela” eu quero dizer que teria sido pré-determinada como foi a dela -, não fosse a graça de ter um pai feminista e pela nova luta em comum das minhas irmãs feministas. Eu fui a ela não mais envergonhada do que lhe faltava, mas profundamente orgulhosa do que ela conquistou – de fato, eu percebi que minha mãe era uma mulher orgulhosa, forte e honesta. Na época eu tinha 26 anos, eu já havia visto o suficiente do mundo e de seus problemas para saber que orgulho, força e integridade eram virtudes para serem honradas. E por começar a vê-la de uma nova forma, ela pôde me conhecer, e agora, quaisquer que sejam as nossas dificuldades, e elas não são muitas, ela é minha mãe e eu sou sua filha. E nós somos irmãs.

 

Vocês me pediram para falar sobre arte feminista, se ela existe, e se sim, o que ela é. O que os escritores têm feito até hoje é uma arte masculinista – a arte que serve ao homem em um mundo criado por homens. Essa arte tem degradado mulheres. Ela tem, quase sem exceções, nos caracterizado como seres aleijados de sensibilidades, empobrecidos, pessoas superficiais com preocupações triviais. Quase sem exceção, ela tem sido saturada com uma misoginia tão profunda, uma misoginia que na verdade é uma visão de mundo que até hoje a maioria de nós acredita que é como o mundo é, que é como as mulheres são.

Eu me pergunto: o que eu aprendi com todos estes livros que eu li enquanto crescia? Será se eu aprendi alguma coisa real ou verdadeira sobre mulheres? Será se eu aprendi algo real ou verdadeiro sobre séculos de história das mulheres e sobre como elas viveram? Será se estes livros iluminaram a minha vida, ou a própria vida, de qualquer forma útil, profunda, generosa, rica ou real? Eu acredito que não. Eu acredito que esta arte, estes livros, me roubaram da minha vida assim como o mundo ao qual eles servem roubou a vida da minha mãe dela.

Theodore Roethke, um grande poeta, conforme nos disseram. Um poeta da condição masculina, eu digo, escreveu:

Duas das acusações mais frequentes levantadas contra a poesia de mulheres são a falta de variedade – no assunto, em tom emocional – e a falta de senso de humor. E alguém poderia, em instâncias individuais entre escritores de real talento, acrescentar outras deficiências estéticas e morais: o prolongamento, o adornamento de temas triviais, a preocupação com as meras superficialidades da vida – aquela competência especial do talento feminino na prosa – escondidas das verdadeiras agonias do espírito, a recusa de encarar o que a existência é; as posturas líricas ou religiosas; a corrida entre o boudoir e o altar, marcando um pequeno pé contra Deus; ou a queda em uma moralidade que implica que o autor tenha reinventado a integridade; a excessiva preocupação com o Destino, o tempo; a lamentação da sorte de uma mulher… E assim por diante.

O que caracteriza a arte masculinista e os homens que a fazem é a misoginia – e em face desta misoginia, alguém reinventou melhor a integridade.

Eles, os masculinistas, nos disseram que eles escrevem sobre a condição humana, sobre os grandes temas – amor, morte, heroísmo, sofrimento e a própria história. Eles nos disseram que os nossos temas – amor, morte, heroísmo, sofrimento e a própria história – são triviais porque assim nós somos pela nossa própria natureza.

Eu renuncio a arte masculinista. Não é uma arte que ilumina a condição humana – para a vergonha final e eterna dos homens, ela ilumina apenas ao mundo masculinista – e olhando a nossa volta percebemos que não há nada para se orgulhar deste mundo. A arte masculinista, a arte de séculos de homens, não é universal ou a explicação final do que é ser no mundo. No final, ela é apenas a descrição de um mundo onde mulheres são subjugadas, submissas, escravizadas, impedidas de se tornarem seres completos, distinguidas apenas pela carnalidade, humilhadas. Eu digo: minha vida não é trivial; minha sensibilidade não é trivial; minha força não é trivial, assim como não foi a da minha mãe ou a da mãe dela. Eu renuncio aqueles que odeiam mulheres, que desprezam, ridicularizam e humilham mulheres, e quando eu faço isso, eu renuncio boa parte de toda arte feita, a arte masculinista. 

Enquanto feministas, nós habitamos o mundo de uma nova forma. Nós vemos o mundo de uma nova forma. Nós ameaçamos deixá-lo de cabeça para baixo e de dentro para fora. Nós queremos mudá-lo tão profundamente que algum dia os textos dos escritores masculinistas vão ser curiosidades antropológicas. Nossos descendentes perguntarão sobre o que Mailer estava falando e eles verão seu trabalho em algum arquivo escuro. E eles irão se questionar – desnorteados, tristes – sobre a glorificação masculinista da guerra, as mistificações masculinistas sobre matar, mutilação, violência e dor; as máscaras torturadas do heroísmo fálico; a inútil arrogância da supremacia fálica; as representações empobrecidas de mães e filhas, assim como da própria vida. Eles perguntarão: essas pessoas realmente acreditavam nestes deuses?

A arte feminista não é um pequeno riacho que saiu do grande rio da arte real. Não é alguma rachadura em uma pedra impecável. Bem espetacularmente, eu acredito, ela é a arte que não é baseada na subjugação da metade da espécie. É a arte que vai abranger os grandes temas humanos – amor, morte, heroísmo, sofrimento e a própria história – e torná-los completamente humanos. Apesar de que talvez nossas imaginações estejam já tão multiladas que sejamos incapazes até da ambição, nós podemos também introduzir um novo tema, um tão grande e rico quanto os outros – deveríamos chamá-lo de “alegria”?

Nós não podemos imaginar um mundo onde mulheres não são representadas como triviais e desprezíveis, onde mulheres não são humilhadas, abusadas, exploradas, estupradas, diminuídas antes mesmo de nós nascermos – e então, nós não podemos saber qual tipo de arte será feita nesse novo mundo. Nosso trabalho, que honra completamente aqueles séculos de irmãs que vieram antes de nós, é parir esse novo mundo. Ele será deixado para nossas crianças e para as crianças delas viverem nele.