Eu quero uma trégua de 24 horas sem estupro – Andrea Dworkin (Tradução)

Texto Original

Eu tenho pensado bastante sobre como uma feminista, como eu, pode se dirigir a um público composto majoritariamente de homens politizados que dizem ser contra o machismo. E pensei muito sobre se deveria haver uma diferença qualitativa no discurso que dirijo a vocês. E me dei conta que era incapaz de simular que existe uma diferença qualitativa. Eu tenho observado os movimentos masculinos por muitos anos. Eu sou próxima de muitas pessoas que participam desses movimentos. Não posso vim aqui como uma amiga, embora eu quisesse muito. O que eu gostaria de fazer era gritar: e nesse grito, eu teria os gritos das estupradas, e o soluço das espancadas, e ainda pior, no centro desse grito, eu teria o ensurdecedor som do silêncio das mulheres, esse silêncio com o qual nascemos porque somos mulheres, e com o qual muitas de nós morrem.

E se houvesse um apelo ou uma pergunta ou uma expressão humana nesse grito, seria este: porque vocês são tão lentos? Porque vocês são tão lentos para entender as coisas mais simples; não as complicadas coisas ideológicas. Vocês entendem essas. As coisas simples. Os clichês. Simplesmente que mulheres são humanas exatamente na mesma medida e maneira que vocês.

E também: nós não temos tempo. Nós, mulheres. Nós não temos para sempre. Algumas de nós não têm uma semana ou um dia para vocês discutirem o que seja que vá permitir que vocês saiam às ruas e façam algo. Nós estamos muito próximas da morte. Todas as mulheres estão. E nós estamos muito próximas do estupro e estamos muito próximas do espancamento. E nós estamos dentro de um sistema de humilhação onde não há escapatória para nós. Nós usamos estatísticas não para quantificar as feridas, mas para convencer ao mundo que as feridas existem. Estas estatísticas não são abstrações. É fácil dizer “ah, as estatísticas, uns as escrevem para um lado e outros para o outro”. É verdade. Mas eu escuto sobre estupros um por um por um por um por um, que também é como eles acontecem. Estas estatísticas não são abstratas para mim. A cada três minutos uma mulher é estuprada. A cada dezoito segundos uma mulher é espancada. Não há nada de abstrato nisso. Está acontecendo agora enquanto eu falo.

E está acontecendo por um simples motivo. Não há nada de complexo e difícil sobre o motivo. Homens estão fazendo isso, por causa do tipo de poder que homens têm sobre mulheres. Esse poder é real, concreto, exercido de um corpo para outro corpo, exercido por alguém que sente que tem o direito de exercer isso, exercido em público e em privado. É a soma e substância da opressão das mulheres.

Isso não é feito há cinco mil milhas ou três mil milhas de distância. Isso é feito aqui e está sendo feito agora e é feito pelas pessoas nesta sala, assim como por outros contemporâneos: nossos amigos, nossos vizinhos, pessoas que conhecemos. Mulheres não precisam ir à escola para aprender sobre poder. Nós precisamos apenas ser mulheres, andando pela rua ou tentando terminar o trabalho doméstico após termos dado nosso único corpo em casamento e ter perdido os direitos sobre ele.

O poder exercido por homens dia após dia é um poder institucionalizado. É protegido por lei. É protegido pela religião e pela prática religiosa. É protegido pelas universidades, que são fortalezas da supremacia masculina. É protegido pela força policial. É protegido por aqueles que Shelley chamou de “os irreconhecidos legisladores do mundo”: os poetas, os artistas. Contra esse poder, nós temos silêncio.

É algo extraordinário tentar entender e confrontar o porquê que homens acreditam – e eles acreditam – que eles tenham o direito de estuprar. Homens podem não confirmar isso quando perguntados. Todos que acreditam que tem o direito de estuprar levantem suas mãos. Não muitos irão levantar. É na vida que homens acreditam que eles têm o direito de forçar sexo, o qual eles não chamam de estupro. E é algo extraordinário tentar entender que homens realmente acreditam que eles têm o direito de bater e machucar. E é algo igualmente extraordinário tentar entender que homens realmente acreditam que eles podem comprar o corpo de uma mulher para o sexo: e que isso é um direito. E é muito impressionante tentar entender que homens acreditam que uma indústria de sete bilhões de dólares por ano que os fornece bocetas é algo que eles tenham direito.

Este é o modo pelo qual o poder masculino se manifesta na vida real. Isto é o que a teoria sobre a supremacia masculina significa. Significa que vocês podem estuprar. Significa que vocês podem bater. Significa que vocês podem machucar. Significa que vocês podem comprar e vender mulheres. Significa que há uma classe de pessoas para providenciar para vocês o que vocês precisam. Vocês continuam mais ricos que elas, para que então elas possam te vender sexo. Não apenas nas ruas e nos cantos, mas no trabalho. Este é outro direito que vocês presumem ter: acesso sexual a qualquer mulher em sua volta, quando vocês quiserem.

Agora, o movimento masculino sugere que homens não querem este tipo de poder que eu acabei de descrever. Na verdade, eu escutei sentenças inteiras para este efeito. E ainda, tudo é uma razão para não fazer algo sobre mudar o fato de que vocês tem este poder.

A minha desculpa masculina favorita é quando eles se escondem atrás da culpa. Eu adoro. Ah, é horrível, sim, e eu sinto muito. Vocês tem tempo para se sentirem culpados. Nós não temos tempo para vocês sentirem culpa. Sua culpa é uma forma de consentimento para que continue acontecendo. Sua culpa ajuda deixar as coisas como elas são.

Eu tenho escutado nos últimos anos muita coisa sobre o sofrimento dos homens causado pelo sexismo. Claro, eu tenho escutado bastante sobre o sofrimento dos homens por toda minha vida. É dispensável dizer que eu li Hamlet. Eu li Rei Lear. Eu sou uma mulher educada. Eu sei que homens sofrem. Esta é um novo problema. Implícita na ideia de que este é um tipo diferente de sofrimento está a afirmação, eu acredito, de que em parte vocês estão na verdade sofrendo por causa de algo que vocês sabem que acontece com outra pessoa. Isto seria realmente novo. 

Mas a maior parte da sua culpa, do seu sofrimento, se reduz à: nossa, me sinto tão mal. Tudo faz homens se sentirem mal: o que você faz, o que você não faz, o que você quer fazer, o que você não quer querer fazer, mas vai fazer de qualquer forma. Eu acho que a maior parte do seu sofrimento é: nossa, me sinto tão mal. E sinto muito que vocês se sintam mal – tão inutilmente e estupidamente mal – porque de certa forma esta é realmente sua tragédia. E eu não quero dizer que é porque vocês não podem chorar. E eu não quero dizer que é porque não há real intimidade nas suas vidas. E eu não quero dizer que é por causa da armadura que vocês têm de usar para serem como homens, que é estúpida: e eu não duvido que seja. Mas eu não quero dizer nada disso.

Eu quero dizer que há uma relação entre a forma que mulheres são estupradas e a sua socialização para estuprar com a máquina de guerra que os tritura e os cospe para fora: a máquina de guerra por onde vocês passam assim como mulheres passaram pelo triturador de carne de Larry Flynt na capa da Hustler. É melhor vocês acreditarem que estão envolvidos nessa tragédia e que ela é sua também. Porque vocês são tornados em pequenos soldados desde o dia que nasceram e tudo que vocês aprenderam sobre como evitar a humanidade de mulheres se torna parte do militarismo do país no qual vocês vivem e o mundo que vocês vivem. É também parte da economia que vocês frequentemente afirmam protestar contra.

E o problema é que vocês pensam que está lá fora: e não está lá. Está em você. Os cafetões e os militaristas falam por vocês. Estupro e guerra não são tão diferentes. E o que os cafetões e militaristas fazem é que eles lhes deixam tão orgulhosos de serem homens que conseguem ficar de pau duro e meter com força. E eles pegam essa sexualidade aculturada, os botam em pequenos uniformes e os mandam para matar e morrer. Agora, eu não vou fingir para vocês que eu acho que isso é mais importante que o que vocês fazem a mulheres, porque eu não acho.

Mas eu penso que se vocês querem olhar para o que esse sistema faz a vocês, então aqui é onde vocês deviam começar a procurar: as políticas sexuais da agressão; as políticas sociais do militarismo. Eu acredito que os homens têm muito medo de outros homens. Isto é algo que vocês às vezes tentam expressar em seus pequenos grupos, como se, se vocês mudassem suas atitudes acerca de cada um, vocês não ficariam com medo uns dos outros.

Mas enquanto sua sexualidade tiver haver com agressão e seu senso de direito a humanidade tiver haver com ser superior a outras pessoas, e houver tanto desprezo e hostilidade em suas atitudes com mulheres e crianças, como vocês não poderiam ter medo uns dos outros? Eu acredito que vocês corretamente perceberam – sem estar dispostos a encararem isto politicamente – que homens são muito perigosos: porque vocês são.

A solução do movimento dos homens de fazer homens menos perigosos uns aos outros pela mudança da forma como vocês se tocam e se sentem não é uma solução. É um recreio.

Estas conferências também estão preocupadas com homofobia. Homofobia é muito importante: é muito importante para a forma como a supremacia masculina funciona. Em minha opinião, as proibições contra a homossexualidade masculina existem para proteger o poder masculino. Faça isto com ela. Isto é dizer: enquanto homens estuprarem, é muito importante que homens estuprem mulheres. Enquanto o sexo for cheio de hostilidade e exprimir tanto o desprezo e poder sobre outra pessoa, é muito importante que homens não sejam desclassificados, estigmatizados e usados similarmente como mulheres. O poder dos homens enquanto uma classe depende em manter a sexualidade masculina inviolada e a sexualidade feminina sendo usada por homens. Homofobia ajuda a sustentar este poder de classe: isto também ajuda a manter vocês indivíduos salvos entre os outros, salvos do estupro. Se vocês querem fazer algo sobre homofobia, vocês vão ter que fazer algo sobre o fato de que homens estupram, e que sexo forçado não é incidental a sexualidade masculina, mas é em prática paradigmático.

Alguns de vocês estão muito preocupados sobre a ascensão da Direita neste país, como se isso fosse algo separado das questões do feminismo ou do movimento masculino. Há um bom cartoon que eu vi que traz tudo isso junto. Era uma grande foto de Ronald Reagan como um cowboy com um grande chapéu e uma arma. E dizia “Uma arma em cada coldre; uma mulher grávida em cada casa. Faça a América um homem de novo.” Estas são as políticas da Direita. Se vocês estão com medo da ascensão do fascismo neste país – e vocês seriam muito idiotas se não estivessem agora – então, é melhor vocês entenderem que a raiz da questão aqui tem haver com a supremacia masculina e o controle de mulheres; acesso sexual às mulheres; mulheres como escravas reprodutivas; mulheres como propriedades privadas. Este é o programa da Direita. Esta é a moralidade sobre a qual eles falam. Isto é o que eles querem dizer. Isto é o que eles querem. E a única oposição a eles que importa é uma oposição a homens possuindo mulheres.

O que há de complexo em fazer algo sobre isso? O movimento masculino parece permanecer preso em dois pontos. O primeiro é que homens realmente não se sentem bem consigo mesmos. Como vocês poderiam? O segundo é que homens vêm a mim ou a outras feministas e dizem: “O que você está dizendo sobre homens não é verdade. Não é verdade para mim. Eu não me sinto dessa forma. Eu sou contra tudo isso.”

E eu falo: não diga para mim. Diga aos pornógrafos. Diga aos cafetões. Diga aos donos da guerra. Diga aos apologistas do estupro e aos celebradores do estupro e os ideólogos pró-estupro. Diga aos novelistas que pensam que estupro é algo maravilhoso. Diga à Larry Flynt. Diga à Hugh Hefner. Não há porque dizer para mim. Eu sou apenas uma mulher. Não há nada que eu possa fazer sobre isso. Esses homens presumem que falam por vocês. Eles estão na arena pública dizendo que representam vocês. Se eles não representam, então é melhor que vocês os deixem sabendo disso.

Depois, há o mundo privado da misoginia: o que vocês sabem sobre cada um; o que vocês falam na vida privada; a exploração que vocês veem na esfera privada; os relacionamentos chamados de amor, baseados na exploração. Não é o bastante encontrar uma feminista viajando pela estrada e ir até ela para dizer: “Nossa, eu odeio tudo isso”.

Digam isso aos seus amigos que estão fazendo isso. E há ruas lá fora onde vocês podem dizer isto alto e claro, de modo a afetar as atuais instituições que sustentam estes abusos. Vocês não gostam de pornografia? Eu gostaria poder acreditar que isto é verdade. Eu vou acreditar quando eu os olhar nas ruas. Eu vou acreditar nisso quando eu olhar uma oposição política organizada. Eu vou acreditar nisto quando os cafetões saírem dos negócios porque não há mais consumidores.

Vocês querem organizar homens. Vocês não tem que procurar por acontecimentos. Os acontecimentos são parte da fábrica das suas vidas todo dia.

Eu quero falar a vocês sobre igualdade, o que igualdade é e o que significa. Isto não é apenas uma ideia. Isto não é apenas uma palavra insípida que acaba sendo besteira. Isto não tem nada a ver com todas estas declarações como: “Ah, isso acontece com homens também”. Eu nomeio um abuso e escuto: “Ah, isso acontece com homens também”. Esta não é a igualdade pela qual nós estamos lutando. Nós poderíamos mudar nossa estratégia e dizer: bom, ok, nós queremos igualdade; nós vamos enfiar algo no traseiro dos homens a cada três minutos.

Vocês nunca ouviram isso do movimento feminista, porque para nós igualdade tem real dignidade e importância – não é apenas uma palavra idiota que pode ser deturpada e feita parecer estúpida como se ela não houvesse real significado.

Uma vaga ideia sobre desistir do poder como uma forma de praticar igualdade é inútil. Alguns homens têm vagos pensamentos sobre um futuro onde homens vão desistir do poder ou um homem individual vai desistir de algum tipo de privilégio que ele tem. Isto também não é o que igualdade quer dizer.

Igualdade é uma prática. É uma ação. É uma forma de vida. É uma prática social. É uma prática econômica. É uma prática sexual. Ela não pode existir num vácuo. Vocês não podem ter isto em suas casas se, quando as pessoas saem de casa, ele está num mundo de supremacia baseado na existência do seu pau, e ela está num mundo de humilhação e degradação porque ela é percebida como inferior e porque sua sexualidade é uma praga.

Isto não é dizer que o esforço para praticar igualdade em casa não importa. Importa, mas não é o bastante. Se vocês amam igualdade, se vocês acreditam nisso, se esta é a maneira que vocês querem viver – não apenas homens e mulheres juntos numa casa, mas homens juntos em uma casa e mulheres juntas em uma casa – se igualdade é o que vocês querem e com o que vocês se importam, então vocês tem que lutar pelas instituições que a fará socialmente real. Não é apenas uma questão da sua atitude. Você não pode pensar nela e fazê-la existir. Você não pode tentar às vezes, quando funcionar a seu favor, e jogá-la fora o resto do tempo. Igualdade é disciplina. É uma maneira de vida. É uma política necessária criar igualdade em instituições. E outra coisa sobre igualdade é que ela não pode coexistir com estupro. Não pode. E não pode coexistir com pornografia ou com prostituição ou com a degradação econômica de mulheres em qualquer nível, de qualquer forma. Não pode coexistir, porque implícito em todas estas coisas está a inferioridade das mulheres.

Eu quero ver este movimento de homens fazer um compromisso para acabar com o estupro, porque este é o único compromisso significativo para igualdade. É surpreendente que em todos nossos mundos de feminismo e anti-sexismo, nós nunca falamos seriamente sobre acabar com estupro. Acabar. Interromper. Não mais. Não mais estupro. No fundo das nossas mentes, nós estamos aguentando sua inevitabilidade como última chance de preservar o biológico? Vocês pensam que isso sempre vai existir não importa o que façamos? Todas as nossas ações políticas são mentiras se nós não fizermos um compromisso para acabar com a prática do estupro. Esse compromisso deve ser político. Deve ser sério. Deve ser sistemático. Deve ser público. Ele não pode ser autoindulgente.

As coisas que o movimento masculino tem desejado valem a pena. Intimidade vale a pena. Ternura vale a pena. Cooperação vale a pena. Uma vida emocional real vale a pena. Mas vocês não podem tê-los em um mundo com estupro. Acabar com a homofobia está valendo a pena. Mas vocês não podem fazê-lo em um mundo com estupro. O estupro fica na frente do caminho de cada um e todas as coisas que vocês dizem que querem. E por estupro vocês sabem o que eu quero dizer. Um juiz não precisa entrar nesta sala e dizer que de acordo com a lei tal e tal estes são elementos de prova. Nós estamos falando de qualquer tipo de sexo coagido, incluindo sexo coagido por pobreza.

Vocês não podem ter igualdade ou ternura ou intimidade enquanto houver estupro, porque estupro significa terror. Significa que parte da população vive em um estado de terror e finge – para agradar e pacificar vocês – que não vive. Então, não há honestidade. Como pode haver? Vocês podem imaginar como é viver como uma mulher dia após dia com a ameaça do estupro? Ou como é viver com a realidade? Eu quero ver essa força, essa coragem e esses corpos lendários e a ternura que vocês dizem que tem em nome das mulheres; e isso significa contra os estupradores, contra os cafetões e contra os pornógrafos. Significa algo mais que uma renúncia pessoal. Significa um ataque sistemático, político, ativo e público. E tem ocorrido muito pouco disso.

Eu vim aqui hoje porque eu não acredito que o estupro é inevitável ou natural. Se eu acreditasse, eu não teria razão para estar aqui. Se eu acreditasse, minha prática política seria diferente dessa. Vocês já se perguntaram por que nós não entramos em um combate armado contra vocês? Não é porque não há uma escassez de facas de cozinhas neste país. É porque nós acreditamos na humanidade de vocês, contra todas as evidências.

Nós não queremos fazer o trabalho de ajudar vocês a acreditarem em sua humanidade. Nós não podemos fazer mais isso. Nós sempre tentamos. E em troca, temos sido pagas com exploração e abusos sistemáticos. Vocês vão ter que fazer isso sozinhos de agora em diante e vocês sabem disso.

A vergonha dos homens diante das mulheres é, eu acho, uma resposta apropriada tanto a o que homens fazem e o que homens não fazem. Eu acredito que vocês deveriam está envergonhados. Mas o que vocês fazem com a vergonha de vocês é usá-la como uma desculpa para continuar fazendo o que vocês querem e mais nada; e vocês tem que parar. Vocês precisam parar. Sua psicologia não importa. O quanto vocês estão machucados não importa no final mais do que o quanto nós estamos. Se tivéssemos nos sentado e apenas falado sobre o quanto o estupro nos machuca, vocês acreditam que teria acontecido alguma das mudanças que vocês tem visto neste país nos últimos quinze anos? Não haveria.

É verdade que nós temos que falar com as outras. De que outra forma, afinal, conseguiríamos descobrir que nós não fomos as únicas mulheres no mundo que não estavam pedindo por isso, mas a quem o estupro e o espancamento aconteceu? Nós não poderíamos ler nos jornais. Não poderíamos encontrar um livro sobre isso. Mas vocês sabem e agora a questão é sobre o que vocês vão fazer; a questão não é sobre sua vergonha e sua culpa. Elas não importam para nós. Elas não são boas o bastante. Elas não fazem nada.

Como uma feminista, eu carrego o estupro de todas as mulheres com quem eu tenho falado pessoalmente nos últimos dez anos. Como uma mulher, eu carrego meu próprio estupro comigo. Vocês se lembram das fotos que viram das cidades europeias durante a peste, onde as pessoas pegavam cadáveres e os jogavam dentro dos carrinhos de mão que passavam? Bem, é assim que é saber sobre o estupro. Pilhas e pilhas de corpos que têm vidas inteiras e nomes humanos e rostos humanos.

Eu falo por muitas feministas, não apenas por mim mesma, quando eu digo a vocês que eu estou cansada do que eu sei e triste além de quaisquer palavras sobre o que já foi feito a mulheres até este ponto, agora, às 2:24pm desse dia, aqui neste lugar.

E eu quero um dia de trégua, um dia de folga, um dia onde novos corpos não serão empilhados, um dia onde não haja novas agonias acrescentadas às antigas, e eu estou pedindo que vocês me deem isso. E como eu poderia pedir menos? É tão pouco. E como vocês poderiam me oferecer menos: é tão pouco. Mesmo nas guerras, há dias de trégua. Vão e organizem as tréguas. Parem o lado de vocês por um dia. Eu quero uma trégua de vinte e quatro horas sem estupro.

Eu os atrevo a tentarem isso. Eu exijo que vocês tentem. Eu não me importo de implorar para que vocês tentem. Por qual outro motivo vocês possivelmente estariam aqui? O que mais esse movimento poderia significar? O que mais poderia significar tanto?

E neste dia, no dia da trégua, no dia que nenhuma mulher for estuprada, nós começaremos a real prática da igualdade, porque não poderemos começá-la antes desse dia. Antes desse dia ela não significará nada, porque ela não é nada: não é real; não é verdadeira. Mas nesse dia, ela começará a ser real. E então, ao invés de estupros, pela primeira vez nas nossas vidas – homens e mulheres – começaremos a experimentar a liberdade.

Se vocês tem uma concepção de liberdade que inclui a existência de estupro, vocês estão errados. Vocês não poderão mudar o que vocês desejam. Por mim mesma, eu quero experimentar apenas um dia de liberdade real antes que eu morra. Eu os deixo aqui para fazer isso por mim e pelas mulheres que vocês dizem que amam.

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Patriarcado à mulheres: se eu quero a sua opinião, eu vou dá-la a você (Tradução)

Texto Original

Ele (ele é todo homem) me acusa de ter um argumento irracional e simplista, mas eu nem tentei argumentar. O que há com homens pensando que os “argumentos” das mulheres são errados quando mulheres não estão nem argumentando?

Argumentar com nossos opressores é inútil. Eles não vão entender. Nunca. E eles vão dizer sempre que eles ENTENDEM e que a razão pela qual eles não concordam é porque nosso argumento é equivocado. Mas eles estão errados. A razão pela qual eles não entendem é porque nosso argumento é baseado na REALIDADE FEMININA da qual eles não participam e nunca, nunca vão, porque eles nunca serão mulheres. Nunca. Nunca. É como explicar a televisão para homens da caverna sem mostra-los uma televisão. Há elementos na nossa realidade que são literalmente invisíveis a homens e sempre serão PORQUE eles são homens. Este não é um pensamento simplista e binário, isso é a realidade biológica, social e cultural. Felizmente, nós também não temos que convencer homens de nada para entendermos em nossas mentes sobre assuntos relacionados inteiramente a nós. Nós não devemos à homens explicações e certamente, nós não temos que referenciar todas nossas percepções através de homens para elas serem reais. Essa noção é misógina e colonizadora. Nós podemos analisar nossa própria realidade e homens não entendem uma palavra sobre isso. Eu não vejo = / = (diferente de) isso não existe. Nós vemos isso. Você não. E é por isso que chamamos isso de cegueira. E você vai sempre e sempre estar cego a realidade feminina, então não tente me dizer como é aqui. Eu estou completamente cansada de discutir feminismo, ou seja, realidade feminina com esse cara (ele é todo cara).

É mais divertido e vantajoso trocar ideias com mulheres, embora que ele ainda vá tentar parasitar algo (na verdade, tudo que ele puder até que estejamos mortas) da nossa energia batendo uma enquanto ele tenta intervir. Mesmo ignorando-o, nós temos que usar a nossa energia para continuar ignorando-o, porque ele constantemente nos atormenta por atenção.

Também eu quero adicionar que essa presunção que homens tem que quando mulheres nomeiam a sua realidade, na verdade estamos tentando argumentar com eles e presumem que não temos conceito de o que a nossa realidade é a menos que eles aprovem como reais. Como, embora, nós não podemos simplesmente exprimir “é assim” sem ter que receber a aprovação masculina da nossa situação. É por isso que eles pulam no argumento. A verdade é que nós não estamos argumentando. Nós estamos te dizendo. É assim. Nós não estamos te procurando para apurar isso para fazer ser real. Muito do problema desse paradigma é que mulheres vivem em um mundo onde a realidade dos homens é real, a realidade das mulheres não é real, e tudo que pensamos que pode ser real tem-se que passar primeiro por um homem para ter certeza de que ele veja isso também (leia: para que ele então possa assegurar-nos que estamos alucinando se acontecer de percebermos algo que possa comprometer toda a dominação dele sobre nós). Homens não fazem isso com mulheres. Eles não referenciam as percepções deles com as mulheres para terem certeza de que eles não são… espere… irracionais ou delirantes. Porque homens tem a cultura apoiando-os desde o nascimento dizendo que homens são racionais e mulheres não. Homens tem o patriarcado dizendo que homens são os decisores de tudo e que mulheres são abandonadas emocionais. Nós somos feitas para duvidarmos de nossas próprias percepções, mesmo quando sentimos nas nossas tripas o que é real e verdadeiro e todos sinais apontam para isso.

Mulheres que NÃO confirmam com homens que nossa realidade é real são registradas no radar masculino como nada mais que insanas, bruxas, precisando de lobotomia, histéricas, blá blá blá etc para sempre. Felizmente, uma vez que alcançamos esse ponto, essas tentativas feita por eles para continuar nomeando a realidade como ele acredita que é seu por direito cai no raso em mulheres que perceberam que isto é direito delas. Nós não pedimos validação masculina. Nós validamos nós mesmas e não nos importamos com o que homens pensam.

Imagine esse cenário:

Você vive numa cidade onde chove. Você viaja para outra cidade. Você diz a alguém que na sua cidade chove. A pessoa responde “eu não acho que este seja um bom argumento”. Você explica que você É de lá e que você VIU a chuva e que você na verdade não está argumentando, apenas dizendo para ele COMO É. Ele diz que isso também não é um bom argumento, porque não está chovendo na cidade dele. Você diz a ele que é porque sua cidade fica em outro lugar. Você explica como o clima pode ser diferente em duas cidades. Por alguma razão, você está espantada pela aparente ignorância dele, que você até começou a explicar condensação e a ciência da queda da chuva (ele parece sem noção, quanto mais eu vou ter que explicar para ele?). Logo você se percebe explicando a estrutura molecular da água, ao que ele responde que o clima é igual em todo lugar; ele sabe porque ele inventou isso e controla isso e é amigo do homem do tempo, ah, e também a sua cidade não está no mapa dele, então você é de lugar nenhum, sua trapalhona idiota; agora você não está apenas inventando histórias sobre chuva, você também está alegando que ela acontece em lugares que não existem, e na sua ilusão você ainda acredita que você é de lá! Prendam ela! Ela é doida! Nesse ponto sua boca começa a espumar. Você aponta que no mapa dele, a sua cidade está faltando. Você sabe que é real. Você esteve lá. E também, pelo amor de tudo que é sagrado CHOVE lá, também! Ele disse “olha, agora você está ficando zangada porque você não consegue argumentar sobre a existência da chuva, ou sobre essa cidade que você inventou, a qual não está no mapa.” Então você aponta que talvez a pessoa que fez o mapa nunca esteve lá. “IMPOSSÍVEL!” ele responde como se você estivesse acabado de dizer que porcos voam. “Porque?” você indaga. Você diz, “É totalmente possível. Na verdade, DEVE ser o caso, porque EU CONHEÇO essa cidade, eu NASCI lá, então qual a outra explicação poderia ter para ela estar faltando no seu mapa?”

Eu acredito que através de toda essa conversa, o gaslighting, o ciclo de funcionamento, o puxão de cabelo, o que nós estamos perdendo nisso é que: ele sabe da merda da cidade, porque ele a destruiu, a extinguiu e a colonizou. E ele sabe que chove lá porque ele controla o clima, como ele disse. Ou ao menos, ele pensa que controla. Garoto, ele tem uma onipotência sobre ele. E ele diz que nós estamos delirando? Espere um minuto… hmmmmm.

Não há nada para argumentar. Isto não é sobre argumentos. Isto é sobre dominação. Eles não estão tentando argumentar com nós com essas “discussões”. Eles estão tentando nos calar. Voltas e voltas que nós damos, horas depois fumigando, nos perguntando porque eles simplesmente NÃO ENTENDEM.

Eles entendem. É precisamente este o problema. O que eles não conseguem acreditar e provavelmente estão tão distraídos e entretidos para testemunhar é que você luta duramente. A maioria das mulheres concorda com eles na mesma hora, enterrando sua própria consciência e aceitando isso. Quando nós entendermos que o problema não é que eles não entenderam, que eles simplesmente precisam que nós expliquemos gentilmente para eles mais uma vez, mas na verdade, eles entenderam, e é intencionalmente que eles apagam e negam a nossa realidade, então nós poderemos nos desamarrar de todos os vínculos dos homens e descobrirmos quem nós somos. E se isso não é o suficiente para nos irritar, considere que eles SABEM que eles estão nos extinguindo e destruindo, mas eles NÃO SE IMPORTAM mesmo quando nós entramos em pânico e surtamos e gastamos uma interminável energia argumentando com eles sobre coisas que nós já SABEMOS que é verdade! Como convencer um homem que ele não é uma mulher apresentando-o as nuances da biologia. Ele sabe. Ele quer consumir toda a nossa existência e nos destruir. Isso é deliberar.

Todos eles sabem isso. Qualquer homem que diga o contrário também está fazendo aquelas coisas que eles todos são bons: mentir.

 

Porque pornografia importa para feministas – Andrea Dworkin

Pornografia é uma questão essencial porque a pornografia diz que as mulheres querem ser agredidas, forçadas e abusadas; pornografia diz que as mulheres querem ser estupradas, espancadas, sequestradas, desfiguradas; pornografia diz que as mulheres querem ser humilhadas, envergonhadas, difamadas; pornografia diz que a mulher diz Não mas quer dizer Sim – Sim para a violência, Sim para a dor.

Também: pornografia diz que as mulheres são coisas; pornografia diz que ser usadas como coisas preenche a natureza erótica das mulheres; pornografia diz que mulheres são coisas que homens usam.

Também: pornografia diz que mulheres são putas, vaginas, pornografia diz que os pornógrafos definem as mulheres; pornografia diz que homens definem as mulheres; pornografia diz que mulheres são o que os homens querem que as mulheres sejam.

Também: pornografia mostra as mulheres como partes de corpo, como genitais, fendas vaginais, mamilos, nádegas, lábios, feridas abertas, pedaços.

Também: pornografia usa mulheres reais.

Também: pornografia é uma indústria que compra e vende mulheres.

Também: a pornografia estabelece o estandarte para a sexualidade feminina, para os valores sexuais femininos, para o crescimento das meninas, para o crescimento dos meninos, estimulado pela propaganda, filmes, vídeos, artes visuais, arte fina e literatura, música com palavras.

Também: a aceitação da pornografia significa o declínio das éticas feministas e o abandono das políticas feministas; a aceitação da pornografia significa que as feministas abandonaram as mulheres.

Também: pornografia reforça os direitos dos homens sobre as mulheres por fazer o ambiente externo fora da casa mais perigoso, ameaçador, pornografia reforça o direito do marido sobre a mulher por fazer o ambiente doméstico mais perigoso, mais arriscado.

Também: pornografia torna a mulher em objetos e conveniências; pornografia perpetua o status de objeto das mulheres; pornografia perpetua as divisões de auto-derrota entre as mulheres por perpetuar o status objetal da mulher; pornografia perpetua abaixa auto-estima da mulher por perpetuar o status de objeto da mulher; pornografia perpetua a descrença da mulher pela mulher por perpetuar o status de objeto da mulher; pornografia perpetua a dessignificação e degradação da inteligência e criatividade da mulher por perpetuar o status de objeto da mulher.

Também: violência contra a mulher é usada na pornografia e pornografia encoraja e promove violência contra as mulheres como uma classe; Pornografia desumaniza a mulher usada na pornografia e pornografia contribui para e promove a desumanização de todas as mulheres; pornografia explora a mulher usada na pornografia e acelera e promove a exploração sexual e econômica da mulher como uma classe.

Também: pornografia é feita por homens que sancionam, usam, celebram e promovem violência contra mulher.

Também: pornografia explora crianças de ambos os sexos, especialmente garotas, e encoraja violência contra crianças, e faz violência às crianças.

Também: pornografia usa racismo e anti-semitismo para promover provocação sexual; pornografia promove hostilidade racial por promover a degradação racial como ´sexy´, pornografia romantiza os campos de concentração e de plantação, os nazistas e os proprietários de escravos ;pornografia explora os estereótipos de comportamentos raciais para promover excitação sexual; pornografia celebra obsessões sexuais racistas.

Também: pornografia nubla a consciência, a faz mais brutalizada para a crueldade, para a inflição de dor, para violência contra pessoas, para a humilhação e degradação de pessoas, para as mulheres e crianças abusadas.

Também: a pornografia nos deixa sem futuro; pornografia nos priva de esperança de dignidade; pornografia desenvolve a diminuição do nosso valor humano numa sociedade e nossos potenciais humanos de fato; pornografia esquece a auto-determinação sexual das mulheres e das crianças, pornografia nos usa e nos descarta fora; pornografia aniquila nossa chance de liberdade.

Tradução Veggie Grrrl / Link do post

As borboletas ou desmascarando as políticas do amor – Parte I (tradução)

Texto Original*

Homens mentem sobre tudo. Ou, em outras palavras, eles fazem as coisas mais cruéis e nojentas para nós, e chamam isso de outra coisa, chamam de amor.

Quando eu era bem jovem eu sempre me perguntava o que significava “se apaixonar”. Isso era posto em todo lugar como a melhor experiência para uma mulher, aquilo que você precisa experimentar para estar completa. Isso era retratado como um estado super especial que atinge você como um relâmpago e transcende você e muda o seu comportamento. É bem assustador quando você pensa nisso. Eu nunca me “apaixonei” por ninguém quando eu era jovem, e eu me perguntava sempre se eu era normal ou não. Eu dizia para as pessoas lamentando, “eu nunca me apaixonei”, e eles me diziam “ah, você vai ver, vai vim um dia quando você não estiver esperando”. Eu me sentia da mesma forma quando as pessoas me explicavam o que era deus e fé e aparentemente eu deveria me transcender por este grande sentimento durante os rituais ou algo do tipo, exceto que eu nunca senti nada e era completamente artificial e entorpecente no melhor dos casos, tendo que fingir, e me sentindo culpada por fingir, assim como nos relacionamentos.

Eu me lembro de um garoto se aproximando de mim quando eu tinha nove anos e ele queria sair comigo. Nós deveríamos andar de mãos dadas e isso era totalmente estranho e falso (qual era a diferença entre “estar com ele” e “não estar com ele”? a vulgaridade e artificialidade disso era humilhante), eu não sentia nada, exceto um desconforto por andar de mãos dadas só para mostrar para o mundo que eu pertencia a ele, o que eu não gostava porque eu pensava que era errado uma pessoa pertencer a outra, mas eu também me sentia culpada por não sentir aquele amor especial que eu deveria sentir, eu pensava que isso significava que eu não tinha coração.

De qualquer forma, depois de alguns estupros/ PIV**/ relacionamentos abusivos, enquanto eu ainda era adolescente, eu me “apaixonei”, ou assim eu pensei. Tudo que eu sabia era que aquilo era muito intenso, então eu presumi que aquilo tinha que SER amor! FINALMENTE!!

Agora, o que exatamente eu senti? Minhas respostas a primeiro ser “seduzida” (perseguida) e beijada (fisicamente invadida e mantida presa) por um homem – e ele querendo me ver de novo – incluíam:

  • Branco na mente
  • Coração disparado
  • Suor
  • Pensamentos obsessivos e invasivos sobre ele que me impendiam de me concentrar e experimentar outras coisas por total
  • Desperdiçar horas ou um bom tempo preparando o que eu devia dizer a ele antes que o visse
  • Nervoso
  • Insônia
  • Aquelas chamadas “borboletas” no estômago que são tensões estomacais
  • Rubor
  • Me checar no espelho e controlar a aparência do meu corpo mais obsessivamente do que eu normalmente fazia, e estar com mais medo que o usual de ser feia, não ser inteligente o bastante ou algo do tipo
  • Desesperadamente esperar por contato da parte dele. Um email, uma mensagem, uma ligação… checar meu telefone e email obsessivamente e meu coração ficar despedaçado quando não tinha nada
  • Um doloroso sentimento de perda, separação, vazio (isto é, se sentir vazia, sem existência sem a presença dele) e ser rasgada por dentro do peito. Uma sensação que se intensificaria na ausência dele ou se ele fosse sadicamente frio ou distante, ou depois do PIV ou invasão física
  • Um constante estado de ardente melancolia, variando a intensidade. Este é um estado no qual você é imobilizada entre um sentimento de que não há nada lá fora e um horror da sua própria solidão/ vazio (ou o que é feito você acreditar que é a solidão da alma) então eu vaguei melancolicamente para fora do meu corpo,  implorando silenciosamente para me pendurar nele (ou em outro alguém)
  • Achar coisas bonitas no homem onde não havia nada
Yeah. Nada disso aqui é amor. É apenas medo de ser abandonada, terror e ponto final. Ou o que chamamos de trauma-bonding***. Ainda em todo lugar, estas respostas muito normais à danos, negligência e prisões feitas por homens são descritas como amor, mesmo quando a mulher (diga-se em um romance “romântico”) morre por causa desse suposto amor. E isso não é uma projeção, em todo caso, abusos e ameaças de homens são reais, por causa do PIV, porque homens são nossos opressores e captores e nós tememos eles, por causa da invasão física compulsória que homens chamam de sexo, a negligência real, mentiras e manipulação etc.

Não preciso dizer que minha primeira experiência foi extremamente dolorosa. O cara tinha por volta de 13 anos a mais que eu, e eu ainda era menor de idade, e o meu “amor” seria mais forte que tudo, ele era muito fugaz, iria entrar em contato comigo somente quando ele precisava me foder (estuprar). Eu estava muito grata por ele prestar alguma atenção em mim para ter consciência desse comportamento abusivo, ou entender o que isso significava. Eu estava confusa porque ele só queria me ver esporadicamente, em vez de começar um relacionamento, o qual é a forma que esse amor supostamente deve ser expressado. Se ele gostava o bastante de mim para me “desejar”, porque ele não queria um relacionamento? Não saber se ele me “amava” ou não me deixava constantemente ansiosa. A distância emocional, a negligência e o constante esperar por ele fez a dor aguçar.

Passado um ano, eu finalmente percebi que ele me usou e não teve nenhum respeito por mim. Eu decidi desistir de esperar que ele se apaixonasse por mim (entrasse no prometido relacionamento). No instante que eu fiz isso, eu senti um maravilhoso sentimento de liberdade. Eu senti que todo o peso do mundo de repente desaparecesse. Eu não estava amarrada, ligada mais a ele. Eu era independente. Eu não precisava viver mais segundo ele, esperando e ansiando por ele. As ilusões de repente desapareceram e eu vi ele como um cara inútil. Eu disse a mim mesma: eu nunca mais vou ser tão ingênua com um cara. Eu tive má sorte, eu pensei, eu devia apenas ter escolhido um homem melhor, e ser mais cuidadosa.

O problema era que depois de passado cinco ou seis anos, esse modelo continuou se repetindo e repetindo e repetindo. Todo homem que eu trauma-bonded também estava somente interessado em me usar para PIV (estupro) ou não tinha nenhum interesse em mim. Eu pensei que tinha algo de errado comigo, talvez eu não fosse bonita o suficiente, magra o suficiente, peituda o suficiente, estivesse saindo o suficiente, madura, sedutora, seja o que for. Eu não entendia o que era que eu não tinha. Eu não entendia porque eu acumulava tantas falhas. Porque eles nunca ficavam? Porque eu era tão azarada no “amor”? Alternativamente, eu não iria ter trauma-bond, então eu ficaria completamente consciente que eu não queria PIV e invasão física (quando eu não tinha muita consciência disso com outros por causa do trauma-bonding) e isso seria mais humilhante. Eu estava ainda muito grata pela atenção para mandá-los embora, então isso seria doloroso, nojento, e eu me odiei pelo que eu percebi que era traição própria.

Quando eu estava “atraída”, eles não queriam, e quando eu não queria, eles queriam. Isso não fazia sentido.

Eu vi que existia um modelo e tentei coisas para evitar sentir tanta dor. Eu decidi parar de ter PIV com homens que eu não conhecia direito ou que não tivesse começado um relacionamento oficial. O objetivo era evitar ter PIV com homens que se sentiam atraídos por mim até que eu soubesse que eles não iriam me usar/abusar só por PIV e que queriam um sério, comprometido e igual relacionamento, baseado em descoberta mútua, amizade etc. Ao menos, se eu me “apaixonasse” por eles, eles não teriam me fodido, eu pensei. Bem, advinha, tudo que aconteceu foi que eu continuei tendo trauma-bond com homens, exceto que depois deles se sentirem “atraídos” por mim (me convidar para drinks, ou qualquer coisa), eles perderiam o interesse por mim porque eles não conseguiriam o que queriam e eles achariam outra mulher que fosse mais dócil cedo ou tarde. Isso era doloroso também. E não impediu de alguns homens me estuprarem de qualquer forma.

Porque isso tudo era confuso e doloroso, eu pensaria bastante sobre isso, e perguntava muito para outros, para ver como eram as outras experiências. As coisas que eu comecei a descobrir, pouco a pouco, foram:

1. Que a intensidade do trauma-bond poderia murchar após um tempo conhecendo o homem como amigo ou conhecido.

2. Que o “amor” em questão não tinha nada a ver com o caráter individual dos homens ou o fato de eu apreciá-los pelo o que eles eram, mas tinha tudo a ver com o que eles representavam para mim – usualmente uma figura autoritária, sendo muito mais velho que eu ou tendo um status mais alto. Isso na verdade me prevenia de vê-los como eles realmente eram (estupradores mentirosos sacos de merda). O mais distantes ou frios que eles eram, se eles decidiram me invadir fisicamente ou não, mais doloroso seria o “amor” (trauma-bonding)

3. Também, eu reconheci a mim mesma que esse sentimento “amor” era muito intenso para suportar e nunca me conduziu a lugar algum, exceto desolação. Isso não era natural e era uma prova de que esse relacionamento era doentio. Eu assumi que deveria ter um problema no modo que eu amava, que se isso era realmente amor não poderia ser tão doloroso e alienante. Então eu comecei a buscar porque isso acontecia comigo e buscar quebrar esse modelo de alguma forma. Eu comecei a prestar atenção em como isso funcionava e o que isso fez comigo.

4. Eu decidi parar de procurar estar em um “relacionamento amoroso” com um homem até que eu tivesse me ordenado, e também procurar homens no qual eu poderia ser igual em idade e status até para prevenir a trauma-bond. Eu disse a mim mesma: “você não vai sair com um homem até que você saiba que você pode “amar” sem sentir dor.” Se fosse para eu sentir o amor, isso teria que ser um sentimento de calma e serenidade, de totalidade e felicidade, e não deveria existir temor, medo da perda, ansiedade ou qualquer coisa do tipo que cerca o homem. Pelo contrário, isso significaria que isso não era amor, mas um trauma-bonding ou S/M*** e eu deveria me manter longe do cara, ou esperar até que isso murchasse e eu pudesse ter uma decisão informada. Sedução em si era errado, artificial e alienante, porque isso estava me ameaçando a ser algo para ser pertencido, então se fosse para ter uma relação física com um homem, teria que ser depois de um tempo de amizade e proximidade e que viesse naturalmente.

5. Logo após, eu percebi que constantemente e secretamente esperar que uma relação amorosa acontecesse onde quer que eu fosse era doloroso em si mesmo, eu acabaria sempre com um sentimento de solidão, insatisfação, como se algo especial não estivesse acontecendo – em um estado de expectativa para acontecer algo externo comigo em vez de egocentrismo.  Isso me construiu como inerentemente sozinha e vazia, como sendo metade de uma pessoa com a necessidade de ser preenchida por um homem (ou outra pessoa). Como inerentemente carente e incompleta. Como se eu não suportasse ficar comigo mesma, eu teria que desaparecer em um homem/ casal para existir – isso é extremamente ódio à mulher e aniquilador de si mesma. Esperar para depender dele e esperar por ele para receber amor, claro que isso nunca viria. Eu finalmente percebi a inversão proferida e a mentira de toda essa merda. Eu percebi que eu precisava desistir de todo desejo de estar em um relacionamento para então não me sentir constantemente alienada. Eu me lembro muito bem de fazer essa decisão e sentir um tamanho sentimento de liberdade e felicidade em estar comigo mesma depois de tudo. Parecia ser uma reconciliação.

Em seguida, as coisas se desdobraram bem rápido. Foi quando o feminismo seriamente se reclamou em mim, quando eu percebi que PIV, invasão física sexual de mulheres e controle dos nossos órgãos sexuais eram como os homens nos oprimiam e nos prejudicavam. Que PIV era inerentemente danoso, humilhante e que nós não eramos para ser penetradas. E foi onde eu percebi a estrutura geral da violência masculina e patriarcal. Meu mundo inteiro caiu.

Bem, adivinhe, todos esses repentinos homens não estavam interessados em mim de jeito nenhum. Porque eu sempre me afastei de qualquer tipo de “sedução” antes que eu conhecesse bem o cara, eles simplesmente se afastavam de mim logo, antes que de fato eu os conhecesse. Ha Ha. Isso abriu meus olhos. Me fez perceber que homens não estavam interessados em relacionamentos em igualdade com mulheres. Nenhum deles. Não existia “caras legais” ou exceções. Eles não estavam interessados em mim nem como amigos porque eles não conseguiam de mim o que eles queriam. Tudo que eles queriam era me usar como um buraco para PIV e como a propriedade deles, porque essa era minha função enquanto mulher na terra dos homens, e se eu não preenchesse essa função, eu estava fora do interesse deles.

E depois de estabelecer algumas regras finais de interação com homens, para me proteger da nojenta misoginia deles (completa abertura ao feminismo, sem o menor indício de misoginia, capaz de conversar sobre isso sem a menor defensiva ou me fazer sentir estranha de qualquer forma), homens sumiram da minha vida. Nenhum homem coube nos critérios, ainda que minhas regras não fossem radicais e fossem individualistas.

Eu percebi que qualquer que fosse o esforço individual que eu pusesse em uma relação com homens mesmo sem o PIV ou sem a “sedução”, sempre seria desigual com eles, porque eles são nossos opressores e captores, porque eles acabam com a nossa energia e conosco tentando mudá-los. Nunca haveria uma proteção completa do trauma-bonding com eles, ou medo da violência deles ou de ser impedida a ir ao final dos meus pensamentos. Não importa o que eles fazem individualmente para serem legais ou não, é o que eles são e representam enquanto classe masculina. Até hoje, se um homem é gentil comigo ou apenas sorri eu ainda sinto essa “atração” e gratidão que eu sentia antes e tento me livrar dela, que simplesmente significa que homens continuam sendo nossos captores e não há forma de escaparmos da síndrome de estocolmo enquanto eles nos seguram como prisioneiras. O qual é precisamente o porque que eu sei que tenho que me afastar deles máximo que eu puder.

Então sim, o fim do desmascaramento das mentiras dos homens sobre amor e relacionamentos foi o começo do separatismo dos homens, e o começo do feminismo radical.

*A tradução pode ter ficado um pouco tosca, então se você quiser enviar sugestões, eu aceito HAHA
**PIV: Penis in Vagina (Pênis na Vagina)
*** Trauma Bonding: “ligação traumática” é o uso indevido de medo, excitação, sentimentos sexuais e fisiologia sexual para enredar outra pessoa.
**** S/M: Sadomasoquismo

(Tradução Niña Mala)

Relembre, resista, não se conforme! – Andrea Dworkin

Eu quero que pensemos sobre quão longe chegamos politicamente. Eu diria que realizamos o que é eufemisticamente chamado de “quebrar o silêncio”. Nós começamos a falar sobre acontecimentos, experiências, realidades e verdades jamais ditas antes; especialmente experiências que aconteceram com mulheres e que foram escondidas –experiências que a sociedade não nomeou, que os políticos não reconheceram; experiências que a lei não aborda do ponto de vista daquelas que foram feridas. Mas às vezes quando nós falamos sobre “quebrar o silêncio”, as pessoas conceitualizam “o silêncio” como algo superficial, como se houvesse conversa – murmurinho, na verdade – e sobre a conversa tivesse uma camada superficial de silêncio que tem a ver com modos e polidez. As mulheres são de fato ensinadas a serem vistas e não ouvidas. Mas estou falando aqui sobre um silêncio profundo: um silêncio que vai ao cerne da tirania, à sua natureza. Há uma tirania que define não somente quem pode dizer o que, mas o que as mulheres, especialmente, podem dizer. Há uma tirania que determina quem não pode dizer nada, uma tirania em que as pessoas são impedidas de dizer as coisas mais importantes sobre como a vida é para elas. É desse tipo de tirania que eu falo.

Os sistemas políticos em que vivemos são baseados neste silêncio profundo. Eles são baseados no que nós não temos dito. Particularmente, eles são construídos sobre o que as mulheres – as mulheres de todos os grupos raciais, de todas as classes, inclusive as mais privilegiadas – não têm dito. Os pressupostos fundamentais de nossos sistemas políticos também são baseados no que as mulheres não tem falado. Nossas ideias de democracia e igualdade –ideias que homens tiveram, ideias que expressam o que os homens acreditam ser democracia e igualdade –se desenvolveram na ausência das vozes, das experiências, das vidas e das realidades das mulheres. Os princípios de liberdade que nos foram enunciados como obviedades são princípios que foram alcançados apesar desse profundo silêncio: sem nossa participação. É esperado que nós todas compartilhemos e tomemos por certas as ideias comuns de justiça social e civil; mas essas ideias comuns são baseadas no nosso silêncio. O que é tido como normal na vida é baseado nesse mesmo silêncio. Gênero, em si – o que homens são, o que mulheres são –é baseado no silêncio forçado das mulheres. E as crenças sobre comunidade –o que comunidade é, o que comunidade deve ser – são baseadas nesse silêncio. Sociedades têm sido organizadas para manterem o silêncio das mulheres –o que sugere que nós não podemos quebrar esse silêncio sem mudar a maneira como as sociedades são organizadas.

Nós tivemos avanços no sentido de quebrar o silêncio profundo. Nós nomeamos a força como tal quando é usada contra nós, mesmo ela previamente tendo sido chamada de outra coisa. Costumava ser um direito legal, por exemplo, que os homens tinham no casamento. Eles podiam coagir suas esposas a ter relações sexuais e isso não era chamado de coerção ou estupro; era chamado de desejo ou amor. Nós desafiamos a velha ideologia da conquista sexual como um jogo natural no qual mulheres são alvos e homens são heróis conquistadores; e nós dissemos que o próprio modelo é predatório e que aqueles que atuam através de seus imperativos agressivos são predadores, não “amantes”. Nós dissemos isso. Nós identificamos o estupro; identificamos o incesto; identificamos o espancamento; identificamos a prostituição; identificamos a pornografia – como crimes contra a mulher, como meios de explorar a mulher, como maneiras de agredir a mulher que são sistemáticas e apoiadas pelos costumes das sociedades em que vivemos. Nós identificamos exploração sexual como abuso. Nós identificamos objetificação e a prática de tornar mulheres mercadorias de consumo como algo desumanizante, profundamente desumanizante. Nós identificamos a objetificação e a exploração sexual como mecanismos para criar inferioridade, verdadeira inferioridade. Não como um conceito abstrato, mas uma vida vivida como uma pessoa inferior na sociedade civil. Nós identificamos padrões de violência que ocorrem nos relacionamentos íntimos. Nós sabemos agora que a maioria dos estupros não são cometidos pelo estranho perigoso e predatório, mas pelo namorado, amante, marido, amigo, vizinho perigoso e predatório: o homem de que estamos mais próximas, não o homem que está mais distante.

E nós aprendemos mais sobre o estranho também. Aprendemos mais sobre as estratégias pelas quais eles nos tornam seus alvos e nos caçam. Nós nos recusamos a aceitar a presunção dessa sociedade de que a vítima é responsável pelo seu próprio abuso. Nós nos recusamos a concordar que ela provocou, que ela queria, que ela gostou. Estes são os dogmas básicos da pornografia, que nós rejeitamos. Tendo rejeitado a pornografia, nós rejeitamos o fundamentalismo da supremacia masculina, o qual simples e assumidamente define as mulheres como criaturas sub-humanas, que merecem ser machucadas, ofendidas e estupradas. Nós mudamos as leis, de modo que, por exemplo, estupros agora podem ser denunciados sem o requerimento de corroboração – o que significa que não há a necessidade de uma testemunha que tenha visto o estupro para que a mulher possa apresentar queixa. Antes era necessário. Uma mulher agora não tem que lutar até quase morrer para provar que resistiu. Se ela não estivesse sadicamente ferida –marcada de preto e azul, espancada com um cano de chumbo, que seja –costumava-se presumir que ela havia consentido. Nós patronizamos o modo como cada evidência é coletada em casos de estupro, para que a acusação ser ou não levada adiante não dependa de caprichos ou da competência dos agentes que investigam. Nós não fizemos nada disso para as mulheres que foram espancadas, embora tenhamos tentado fornecer algum refúgio, abrigo, uma rota de fuga. Nada do que nós fizemos para as mulheres que foram estupradas ou espancadas ajudou as mulheres que foram prostituídas.

Nós mudamos o reconhecimento social e jurídico de quem o criminoso é. Nós fizemos isso. Nós desafiamos o que parece ser a permanência da dominação masculina, desestabilizando-na, recusando a aceitá-la como realidade, como nossa realidade. Nós dissemos Não. Não, isso não é nossa realidade.

E embora tenhamos providenciado atendimento a vítimas de estupro, a mulheres espancadas, jamais fomos capazes de providenciar o suficiente. Eu digo para você que se qualquer sociedade levasse a sério o que significa ter metade de sua população sendo estuprada, espancada, tão frequentemente quanto mulheres são tanto nos Estados Unidos quanto no Canadá, estaríamos transformando prédios do governo em abrigos. Nós estaríamos abrindo nossas igrejas para as mulheres e dizendo “Vocês são donas desses espaços. Podem viver neles. Façam o que quiserem com eles”. Nós estaríamos entregando nossas universidades.

O que ainda precisa ser feito? Pensar sobre ajudar vítimas de estupros é uma coisa; pensar sobre acabar com o estupro é outra. E nós precisamos acabar com o estupro. Nós precisamos acabar com o incesto. Nós precisamos acabar com os espancamentos. Nós precisamos dar fim à prostituição e precisamos dar fim à Pornografia. Isso significa que nós precisamos nos recusar a aceitar que esses são fenômenos naturais que simplesmente acontecem porque algum cara está tendo um dia ruim.

Em cada país, a dominação masculina é organizada de maneira diferente. Em alguns países, as mulheres sofrem mutilação genital. Em alguns países, o aborto é forçado para que fetos do sexo feminino sejam sistematicamente abortados. Na China, o aborto forçado é um mandato estatal. Na Índia, uma economia de livre mercado força massas de mulheres a abortarem fetos do sexo feminino e, quando isso falha, a cometerem o infanticídio de bebês do sexo feminino. Pense o que políticas sobre aborto significam para as mulheres adultas, vivendo: o significado de seus status. Note que o conceito ocidental de escolha –crucial para nós –não abrange a situação das mulheres na China nem na Índia. A cada vez que nós olhamos para a situação das mulheres em um determinado país, nós temos que nos atentar para as maneiras como a dominação masculina está organizada nesse lugar. Nos Estados Unidos, por exemplo, nós temos o crescimento do número de serial killers. Eles são uma subcultura em meu país. Eles já não são pervertidos solitários. Fontes policiais, sempre conservadoras, estimam que todo dia aproximadamente 400 serial killers estão ativos nos Estados Unidos.

Na minha opinião, nós precisamos nos concentrar nos agentes dos crimes contra as mulheres em vez de nos perguntarmos de novo e de novo, porque isso aconteceu com ela? o que ela fez de errado? Porque ele deveria bater ou machucar ninguém: o que há de errado com ele? Ele é a questão. Ele é o problema. É dessa violência que nós nos encontramos fugindo, nos escondendo e sofrendo por ela. O movimento das mulheres deve estar disposto a nomear o agente, a nomear o opressor. O movimento das mulheres tem que se recusar a banir mulheres que carregam em si o cheiro fétido do abuso sexual, o odor, o estigma, o sinal. Precisamos nos recusar a banir mulheres  que foram agredidas mais de uma vez: estupradas várias vezes, espancadas várias vezes. Não distintas, não respeitáveis, sem lares agradáveis. Não há movimento das mulheres algum se ele não inclui as mulheres que estão sendo agredidas e as mulheres que possuem o mínimo. O movimento das mulheres tem que assumir os sistemas familiares de nossos países: sistemas em que crianças são estupradas e torturadas. O movimento das mulheres tem que assumir as mulheres espancadas que não escaparam –e nós devemos nos perguntar: por que? Não por que elas não escaparam, mas por que nós estamos nos conformando que elas ainda sejam cativas e prisioneiras.

Nós temos que tomar a prostituição como um problema: não como um problema a se discutir, mas como uma questão de vida ou morte. A maioria das mulheres prostituídas no Ocidente são vítimas de incesto que fugiram de casa, que foram estupradas, que são aliciadas ainda crianças – crianças estupradas, sem lar, pobres, abandonadas. Nós temos que assumir a questão da pobreza: não num sentido liberal de preocuparmo-nos de coração, mas em um sentido concreto, no mundo real. Temos que assumir o que significa resistir para as mulheres que não tem nada, porque quando mulheres não tem nada é de fato nada: sem casa, sem comida, sem abrigo, frequentemente sem alfabetização. Nós temos que parar de banalizar as agressões e ofensas à mulher da forma como nossos sistemas políticos fazem. Como alguém que foi espancada e já era e continua sendo agora uma mulher politicamente comprometida, vou te contar a diferença entre ser torturada por causa de suas ideias políticas ou engajamento ou ser torturado porque sua raça ou sexo é a diferença entre ter algum tipo de dignidade ou não ter nenhuma. Há uma diferença.

Nós não podemos mudar o que está errado com nosso feminismo se nós estamos dispostas a aceitar a prostituição de mulheres. Prostituição é estupro em série: o estuprador muda, mas a mulher estuprada permanece a mesma; o dinheiro lava as mãos dos homens. Em alguns países, as mulheres são vendidas como escravas sexuais, muitas vezes enquanto crianças. Em outros países –como Canadá e Estados Unidos –prostitutas são criadas através do abuso sexual infantil, especialmente incesto, pela pobreza e falta de moradia. Enquanto existirem clientes, em economias de livre mercado prostitutas serão criadas; para criar o suprimento necessário (desejado) de prostitutas, crianças têm que ser estupradas, pobres, desabrigadas. Nós não podemos aceitar isso; nós não podemos aceitar a prostituição.

Nós temos que ser capazes de processar o estupro conjugal com sucesso: obter condenações. Conseguir condenações de estupros conjugais e a eliminar a prostituição desafiam dois fins do mesmo “continuum”. Os homens são donos das mulheres ou não? Se os homens podem comprar e vender as mulheres nas ruas, sim, eles são donos das mulheres. Se os homens têm o direito de estuprar mulheres no casamento –até mesmo como um direito implícito, porque o júri não os irá condenar –sim, então homens são donos das mulheres. Somos nós que temos que dizer –em palavras, em ações, em políticas sociais, em leis –não, os homens não são donos das mulheres. Para fazer isto, precisamos de disciplina política. Nós precisamos levar a sério as consequências do abuso sexual para nós, para as mulheres. Nós temos que compreender o que o abuso sexual fez conosco – porque é tão difícil para nós nos organizarmos? Nós temos que compreender que o abuso sexual quebrou a gente em milhões de pedaços, e nós levamos esses pedaços batendo e espatifando dentro de nós: nós somos rocha quebrada por dentro; caos; assustadas e inseguras quando não frias e entorpecidas. Nós somos heroínas em resistir ao sofrimento; mas até o agora covardes na reação.

Há um tráfico global das mulheres; enquanto mulheres estiverem sendo compradas e vendidas num tráfico escravo internacional, nós não somos livres. Há uma crise de pornografia nos Estados Unidos. As mulheres nos Estados Unidos vivem numa sociedade saturada de brutalidade sexual, material exploratório que diz: estupre ela, bata nela, a machuque, ela vai gostar, é divertido pra ela. Nós precisamos colocar as mulheres em primeiro lugar. Certamente a liberdade da mulher deve significar mais para nós do que a liberdade dos cafetões. Nós precisamos fazer qualquer coisa que vá interromper a colonização dos corpos femininos. Precisamos nos recusar a aceitar os dados. Nós precisamos nos perguntar de quais direitos políticos nós precisamos enquanto mulheres. Não presuma que no século XVIII pensadores políticos homens tenham respondido essa questão e não presuma que quando seu próprio Charter ¹ foi reescrito no século XX essa questão tenha sido respondida. A questão não foi respondida. De que leis nós precisamos? O que seria liberdade para nós? Quais princípios são necessários para nosso bem-estar? Por que as mulheres estão sendo vendidas nas esquinas e torturadas em seus lares em sociedades que alegam serem baseadas na liberdade e na justiça? Que ações devem ser tomadas? O que isso vai nos custar e por que nós estamos com tanto medo de pagar e as mulheres que alcançaram algo com o movimento das mulheres têm medo de que a resistência ou a rebelião política ou mesmo um inquérito político vá lhes custar o pouco que têm obtido? Porque nós ainda estamos fazendo acordos com os homens, uma por uma enquanto deveríamos exigir coletivamente o que precisamos? Eu vou pedir para que você se lembre que, enquanto uma mulher está sendo comprada e vendida em qualquer lugar do mundo, você não está livre, você não está segura. Você também tem um número; algum dia, sua vez chegará. Eu vou pedir pra você se lembrar da prostituída, da desabrigada, da espancada, da estuprada, da torturada, da assassinada, da estuprada e assassinada em seguida, da assassinada e estuprada em seguida; e eu vou pedir pra você se lembrar das fotografadas, aquelas que qualquer uma ou todas as coisas acima aconteceram e que foram fotografas, e agora as fotografias estão à venda em nossos países livres. Eu quero que você pense naquelas que foram feridas para a diversão, o entretenimento e a tal “expressão” de outros; aquelas que foram feridas pelo lucro, para o benefício financeiro dos cafetões e empresários. Eu quero que você se lembre do agressor e eu vou te pedir pra lembrar-se das vítimas: não apenas hoje, mas amanhã e no dia seguinte. Eu quero que você encontre uma maneira de incluí-los –os agressores e as vítimas –no que você faz, em como você pensa, em como você age, com o que você se preocupa, com o que a vida significa para você.

Agora, eu sei, nesta sala, algumas de vocês são as mulheres sobre as quais eu estava falando. Eu sei disso. As pessoas em volta de vocês podem não saber. Vou pedir para você fazer uso de cada coisa que você possa se lembrar sobre o que fizeram com você –como isso foi feito, onde, por quem, quando, e, se você souber, por quê –para começar a rasgar a dominação masculina em pedaços, para destroçá-la, vandalizá-la, desestabilizá-la, destruí-la, para intervir e foder com ela. Eu tenho que lhe pedir para resistir, não se conformar, para destruir o poder que os homens têm sobre as mulheres, recusar a aceitar isso, para abominá-lo e fazer seja lá o que for necessário não importa o que custe para você mudar isso.

Ligação

“Feminismo Radical: História, Política e Ação” (Parte) – Robyn Rowland e Renate Klein

“Feminismo Radical: História, Política e Ação” (Parte) – Robyn Rowland e Renate Klein

“Por conta de sua própria natureza, o feminismo radical se concentrou em criar sua teoria nos escritos das vidas das mulheres e da análise política da opressão das mulheres. Pouco tempo foi dedicado a definir e redefinir nossa “teoria” pelo propósito da teoria. Onde os feminismos socialista, liberal e, mais recentemente, pós-moderno possuem convenientes estruturas teóricas existentes para manipular e re-manipular, as esticando como uma pele ao longo do tambor das experiências das mulheres, o feminismo radical cria uma teoria política e social da opressão das mulheres, e estratégias para acabar com essa opressão que vem das experiências vividas das mulheres […]”

Tradução Maria da Silva