[Tradução] 3° cap. de Our Blood – Andrea Dworkin

Lembrando as Bruxas

Eu dedico essa conversa à Elizabeth Gould Davis, autora de The First Sex, que se suicidou há vários meses e que foi uma vítima de estupro até o fim da sua vida; à Anne Sexton, poetisa que se suicidou em 4 de outubro de 1974; à Inez García, mãe e esposa de 30 anos que há poucas semanas foi sentenciada na Califórnia a 5 anos de prisão por matar o homem de 300 quilos que a segurava enquanto outro a estuprava; e à Eva Diamond, de 26 anos, cujo filho lhe foi tirado há cinco anos quando foi declarada uma mãe ruim por ter sido condenada por fraude de bem estar e que há alguns meses foi sentenciada a 15 anos de prisão em Minnesota por matar seu marido enquanto ele a espancava até quase matá-la.

Estamos aqui hoje para falar sobre genocídio. Genocídio é o aleijamento, estupro e/ou assassinato de mulheres por homens. Genocídio é a palavra que designa a violência implacável perpetuada pela classe masculina contra a classe feminina.

Por exemplo, o enfaixamento dos pés de mulheres na China é uma forma de genocídio. Por mil anos na China todas as mulheres eram sistematicamente aleijadas para que assim elas fossem passivas e objetos eróticos para os homens; para que elas fossem propriedades carnais; para que elas fossem totalmente dependes dos homens para terem comida, água, abrigo e roupas; para que elas não pudessem andar, ou fugirem, ou se unirem contra o sadismo dos seus opressores.

Outro exemplo de genocídio é o estupro sistemático de mulheres em Bangladesh. Lá, o estupro de mulheres fazia parte da estratégia militar dos exércitos invasores. Como muitos de vocês sabem, é estimado que entre 200,000 e 400,000 mulheres foram estupradas pelos soldados invasores e quando a guerra chegou ao fim, essas mulheres foram consideradas impuras por seus maridos, irmãos e pais e foram abandonadas para se prostituirem e morrerem de fome. O genocídio de Bangladesh foi primeiro perpetuado pelos homens invasores e depois pelos homens que lá viviam – os maridos, irmãos, pais: foi perpetuado pela classe masculina contra a classe feminina.

Hoje à noite, no Halloween, iremos nos lembrar de outro genocídio: o assassinato em massa de nove milhões de mulheres que foram chamadas de bruxas. Essas mulheres, nossas irmãs, foram mortas em um período de 300 anos na Alemanha, Espanha, Itália, França, Holanda, Suíça, Inglaterra, País de Gales, Irlanda, Escócia e América. Elas foram mortas em nome de Deus, o Pai e Seu único Filho, Jesus Cristo.

A perseguição organizada das bruxas começou oficialmente em 9 de Dezembro de 1484. O Papa Inocêncio VIII nomeou dois monges dominicanos, Heinrich Kramer e James Sprenger, como inquisidores e pediu aos bons padres para definirem a bruxaria, isolar o modus operandi das bruxas e padronizar os procedimentos de julgamento e condenação. Kramer e Sprenger escreveram um texto chamado Malleus Maleficarum. Esse texto era a alta teologia Católica e trabalhava com a jurisprudência Católica. Ele pode ser comparado com a constituição americana. Era a lei. Qualquer um que o desafiasse, contestasse sua autoridade ou questionasse sua credibilidade em qualquer nível era culpado de heresia, um crime capital.

Antes de discutir o conteúdo do Malleus Maleficarum, eu quero ser clara sobre as informações estatísticas que nós temos sobre as bruxas. O valor total de nove milhões de mulheres assassinadas é um valor moderado. É o número usado mais frequentemente por estudiosos do campo. A proporção de mulheres queimadas para homens é variadamente estimada em 20-1 e 100-1.

A bruxaria era um crime feminino e boa parte do texto do Malleus explica o porque. Primeiro, Jesus Cristo nasceu, sofreu e morreu para salvar os homens, não as mulheres. Portanto, as mulheres eram mais vulneráveis as tentações de Satã. Em segundo, uma mulher é “mais carnal que um homem, como resultado das suas muitas abominações carnais”. Esse excesso de carnalidade se originou na criação de Eva: ela foi formada de uma costela torta. Por causa desse defeito, as mulheres são sempre enganadoras. Em terceiro, por definição as mulheres são perversas, maliciosas, falsas, estúpidas e irremediavelmente más: “Eu prefiro morar com um leão e um dragão que habitar uma casa com uma mulher perversa… Toda perversidade é pequena comparada à perversidade de uma mulher… Quando uma mulher pensa sozinha, ela pensa no mal”. Quarto, mulheres são mais fracas que os homens física e mentalmente e intelectualmente são como crianças. Quinto, as mulheres são “mais amargas que a morte” porque todos os pecados se originaram das mulheres, e porque mulheres são “aduladoras e inimigas secretas”. Finalmente, a bruxaria era um crime feminino porque “toda bruxaria se origina do desejo sexual, o qual para a mulher é insaciável”.

Eu quero que você se lembre de que estas não são as polêmicas de aberrantes; essas são as convicções de estudiosos, advogados e juízes. Eu quero que você se lembre de que nove milhões de mulheres foram queimadas vivas.

As bruxas foram acusadas de voarem, terem relações carnais com Satã, ferirem o gado, causarem chuvas de granizo e tempestades, causarem doenças e epidemias, seduzirem homens, transformarem homens e si mesmas em animais, transformarem animais em pessoas, cometerem atos de canibalismo e assassinato, roubarem genitais masculinos e causarem o desaparecimento de genitais masculinos. Na verdade, este último – o desaparecimento de genitais masculinos – era motivo para se ter direito ao divórcio nas leis católicas. Se o genital de um homem ficasse invisível por mais de três anos, sua esposa tinha direito ao divórcio.

Seria difícil localizar na gigantesca massa de misoginia do texto de Sprenger e Kramer a acusação mais odiosa, inacreditável e ridícula, mas eu acredito que a encontrei. Eles escreveram:

E então, o que é para ser pensado dessas bruxas que […] coletam genitais masculinos em grandes números, uns vinte ou trinta membros juntos, e os botam em um ninho ou em uma caixa, onde eles se movem como membros vivos e comem aveia e milho, como já foi testemunhado por muitos e são comuns os relatos?

O que, então? O que devemos pensar? O que devem pensar aqueles de nós que cresceram católicos, por exemplo? Quando vemos que padres estão fazendo exorcismos nos subúrbios americanos, que a crença na bruxaria ainda é um fundamento na teologia católica, o que devemos pensar? Quando descobrimos que Lutero revigorou este genocídio através de suas muitas confrontações com Satã, o que devemos pensar? Quando descobrimos que o próprio Calvin queimou bruxas e que ele pessoalmente supervisionou a caça às bruxas em Zurique, o que devemos pensar? Quando descobrimos que o medo e o nojo da carnalidade feminina está codificado nas leis judaicas, o que devemos pensar?

Algumas de nós têm uma visão de mundo bem pessoal. Nós dizemos que o que acontece conosco em nossas vidas como mulheres, acontece conosco como indivíduos. Nós dizemos até que qualquer violência que passamos em nossas vidas como mulheres – por exemplo, estupros ou agressões por maridos, amantes ou estranhos – aconteceu entre dois indivíduos. Algumas de nós ainda se desculpam pelo agressor – nós sentimos pena dele; nós dizemos que ele tem distúrbios pessoais, ou que ele foi provocado de uma dada forma, em um dado momento, por uma mulher em particular.

Homens nos dizem que eles também são “oprimidos”. Eles nos dizem que em suas vidas individuais eles frequentemente são vitimizados por mulheres – pelas mães, esposas e “namoradas”. Eles nos dizem que mulheres provocam atos de violência através da nossa carnalidade, malicia, avareza, vaidade ou estupidez. Eles nos dizem que a sua violência se origina em nós e que nós somos responsáveis por ela. Eles nos dizem que as suas vidas são cheias de dor e que nós somos a fonte dela. Eles nos dizem que como mães nós os ferimos irreparavelmente, que como esposas nós os castramos, que como amantes nós roubamos o seu sêmen, sua juventude e masculinidade – e nunca, nunca, como mães, esposas ou amantes nós damos o suficiente.

E o que devemos pensar? Porque se nós começarmos a juntar todos os exemplos de violência – os estupros, as agressões, os aleijamentos, os assassinatos, as chacinas; se nós lermos suas novelas, poemas, tratos políticos e filosóficos e percebermos que o que eles pensam de nós hoje era o que os Inquisidores pensavam de nós ontem; se percebermos que historicamente o genocídio não é algum erro, um excesso acidental, um terrível acaso, mas em vez disso, é a consequência lógica do que eles acreditam ser a nossa natureza dada por Deus ou biológica; então, nós finalmente iremos entender que embaixo do genocídio patriarcal está a realidade contínua das vidas das mulheres. E então, nós devemos olhar para cada uma – pela coragem de suportar isso e pela coragem de mudar.

A luta das mulheres, a luta feminista, não é uma luta por mais dinheiro por hora, por direitos iguais sob as leis masculinas ou por mais mulheres legisladoras que irão operar dentro dos limites das leis masculinas. Estas são todas medidas emergenciais designadas para salvar a vida de mulheres, quantas forem possíveis, hoje e agora. Mas estas reformas não vão conter o genocídio; estas reformas não vão acabar com a violência implacável da classe masculina contra a classe feminina. Estas reformas não vão parar a crescente epidemia de estupros neste país ou a epidêmica violência doméstica na Inglaterra. Elas não vão parar com as esterilizações de mulheres pobres negras e brancas que são vítimas de médicos que odeiam a carnalidade feminina. Estas reformas não vão esvaziar as instituições mentais cheias de mulheres que foram colocadas por parentes que as odeiam por se rebelarem contra os limites dos papéis femininos ou contra as condições da servidão feminina. Elas não vão esvaziar as prisões cheias de mulheres que para sobreviverem se prostituiram; ou que após terem sido estupradas, mataram seu estuprador; ou que enquanto eram espancadas, mataram o homem que as estava matando. Essas reformas não vão impedir homens de se aproveitarem do trabalho doméstico feminino, e nem vão impedir homens de reforçarem a identidade masculina vitimizando psicologicamente mulheres nos chamados relacionamentos “amorosos”.

E nenhuma acomodação pessoal com o sistema patriarcal vai parar com esse genocídio implacável. Sob o patriarcado, nenhuma mulher está segura para viver sua vida, para amar ou ser mãe. Sob o patriarcado, cada mulher é uma vítima, no passado, presente e futuro. Sob o patriarcado, cada filha de uma mulher é uma vítima, no passado, presente e futuro. Sob o patriarcado, cada filho de uma mulher é seu potencial traidor e inevitavelmente também o estuprador ou explorador de outra mulher.

Antes que pudermos viver e amar, nós teremos que nos aprimorar numa irmandade revolucionária. Isso significa que nós devemos parar de defender os homens que nos oprimem; que devemos nos recusar a alimentar, vestir e limpar após eles; que nós devemos impedir que eles tirem o seu sustento das nossas vidas. Significa que nós teremos que nos despir da identidade feminina que nos foi forçada – que nós teremos que nos despir de todos os traços do masoquismo que nos disseram que é sinônimo de ser mulher. Significa que teremos que atacar e destruir cada instituição, lei, filosofia, religião, costume e hábito deste patriarcado – que se alimenta do nosso sangue “sujo”, que é construído sobre o nosso trabalho “insignificante”.

O Halloween é a época apropriada para nos comprometermos com essa irmandade revolucionária. Nesta noite nos lembraremos de nossa morte. Nesta noite nos lembraremos de que nove milhões de mulheres foram mortas porque homens disseram que elas eram carnais, maliciosas e perversas. Nesta noite saberemos que hoje elas vivem através de nós.

Permita-nos renomear esta noite de Bruxas de Eva. Permita-nos fazer um minuto de silêncio: por todas as mulheres que foram vítimas do genocídio, da morte, que estão nas cadeias, em instituições mentais, que foram estupradas, esterilizadas contra suas vontades, brutalizadas. E permita-nos, nesta noite, consagrar nossas vidas para desenvolvermos esta irmandade revolucionária – as estratégias políticas, as ações feministas – que vai parar de uma vez por todas a violência devastadora contra nós.

[Tradução] 2° cap. de Our Blood – Andrea Dworkin

A Renúncia da “Igualdade” Sexual

 

Em 1970, Kate Millet publicou Sexual Politics. Neste livro, ela provou para muitos de nós – que apostariam a vida em negação – que as relações sexuais, a literatura que as retrata, a postura psicológica que as explica, os sistemas econômicos que fixam as necessidades dessas relações, os sistemas religiosos que buscam controlá-las, são políticas. Ela nos mostrou que tudo que acontece a uma mulher em sua vida, tudo que a toca ou a forma, é político.

Mulheres feministas, isto é, mulheres que captaram sua análise e viram que ela explicava muito da real existência em suas vidas, tem tentado entender, lutar contra e transformar o sistema político chamado patriarcado que explora nosso trabalho, predetermina a posse de nossos corpos e nos diminui desde o dia que nascemos. Essa luta não tem a dimensão desse sistema, que é abstrato: ele tem nos tocado em cada parte das nossas vidas. Mas não tocou mais vividamente ou dolorosamente em lugar nenhum que nesta parte da nossa vida que chamamos de “amor” e “sexo”. No curso da nossa luta para nos libertarmos dessa opressão sistemática, um sério argumento tem se desenvolvido entre nós e eu quero trazê-lo para cá.

Alguns de nós tem se comprometido em todas as áreas, incluindo aquelas chamadas “amor” e “sexo”, com o objetivo de alcançar a igualdade, isto é, o estado de ser igual; a correspondência em quantidade, grau, valor, classificação, habilidade; personagens uniformes¹.  Outros de nós, e eu concordo com estes, não vemos a igualdade como um objetivo final próprio, suficiente, moral ou nobre. Nós acreditamos que ser igual onde justiça ou liberdade não são universais é simplesmente ser o mesmo que o opressor. É ter alcançando o estado de “personagens uniformes”.

Em local algum isto é tão claro quanto na sexualidade. O modelo sexual masculino é baseado na polarização da humanidade em homem/mulher, mestre/escravo, agressor/vítima, ativo/passivo. Este modelo sexual tem agora milhares de anos. Toda identidade masculina, seu poder econômico e civil, as formas de governo que eles desenvolveram, as guerras que eles conduzem, tudo isso está irrevogavelmente ligado. Todas as formas de dominação e submissão, seja de homens sobre mulheres, brancos sobre negros, chefes sobre trabalhadores, ricos sobre pobres, todas estão irrevogavelmente ligadas às identidades sexuais masculinas e derivam do modelo sexual masculino. Uma vez que entendemos isso, se torna claro que na verdade homens tem posse do ato sexual, da linguagem que descreve o sexo, as mulheres que eles objetificam. Homens escreveram o cenário de toda fantasia sexual que vocês já tiveram ou cada ato sexual que vocês já participaram.

Não há liberdade ou justiça em trocar o papel feminino pelo papel masculino. Há igualdade, sem dúvidas. Não há liberdade ou justiça em usar a linguagem masculina, a linguagem do nosso opressor, para descrever sexualidade. Não há liberdade ou justiça ou mesmo senso comum em desenvolver uma sensibilidade sexual masculina – uma sensibilidade sexual que é agressiva, competitiva, objetificadora, orientada pela quantidade. Há apenas igualdade. Acreditar que a liberdade ou justiça para mulheres, ou para alguma mulher em particular, pode ser encontrada na imitação da sexualidade masculina é se iludir e contribuir para a opressão de nossas irmãs.

Muitos de nós gostaríamos de acreditar que nos últimos quatro ou dez anos nós revertemos, ou ao menos impedimos, aqueles hábitos e costumes de milhares de anos atrás – os hábitos e costumes da dominação masculina. Não há fato para suportar isso. Você pode se sentir melhor, ou não, mas as estatísticas mostram que as mulheres estão mais pobres que nunca, que as mulheres estão sendo mais estupradas e mais assassinadas. Eu quero sugerir a vocês que um compromisso de igualdade sexual com homens, isto é, uniformizar os personagens, é um compromisso de se tornar o rico em vez do pobre, o estuprador em vez da estuprada, o assassino em vez da assassinada. Eu quero lhes pedir para fazerem um compromisso diferente – um compromisso de abolir a pobreza, o estupro e o assassinato; isto é, um compromisso para acabar com esse sistema de opressão chamado patriarcado; acabar com o modelo sexual masculino por si mesmo.

O verdadeiro âmago da visão feminista, o núcleo revolucionário, se quiserem, tem haver com a abolição dos papéis de gênero – isto é, uma absoluta transformação da sexualidade humana e das instituições derivadas dela. Neste trabalho, nenhuma parte do modelo sexual masculino deve ser posto em prática. Igualdade com a estrutura do modelo sexual masculino, mesmo que ele tenha sido reformado ou modificado, apenas irá perpetuar o modelo por si mesmo e a injustiça e servidão que são suas consequências intrínsecas.

Eu digo a vocês que a transformação do modelo sexual masculino sob todo trabalho e “amor” começa onde há uma congruência, não uma separação, uma congruência de sentimentos e interesse erótico; começa no que nós sabemos sobre a sexualidade feminina distinta da masculina – toque e sensibilidade clitorial, orgasmos múltiplos, sensibilidade erótica por todo o corpo (que não precisa – e não devia – ser localizada ou contida genitalmente) -, na ternura, no respeito próprio e absoluto respeito mútuo. Para os homens, eu suspeito que a sua transformação começa onde eles mais temem – isto é, num pênis flácido. Eu acredito que homens terão que abrir mão das suas preciosas ereções e começar a fazer amor como mulheres. Eu estou dizendo que homens terão que renunciar as suas personalidades falocêntricas e os seus privilégios e os poderes recebidos no nascimento devido a sua anatomia, que eles terão que cortar tudo neles que eles agora valorizam como distintamente “masculino”. Nenhuma reforma ou harmonização de orgasmos vai conseguir isso.

Eu li excertos do diário de Sophie Tolstoy que eu encontrei em um lindo livro chamado Revelations: Diaries of Women, editado por Mary Jane Moffat e Charlotte Painter.  Sophie Tolstoy escreveu:

E o essencial não é amar. Veja o que eu fiz por amá-lo tão profundamente! É tão doloroso e humilhante; mas ele pensa que isto é idiotice. “Você diz uma coisa e sempre faz outra”. Mas o que é o bom de argumentar nesta forma superior, quando eu não tenho nada em mim além deste amor humilhante e um mau temperamento; e estas duas coisas tem sido a causa de todas as minhas infelicidades, porque meu temperamento tem sempre interferido no meu amor. Eu não quero nada além do seu amor e simpatia e ele não me dará isto; e todo meu orgulho está esmagado na lama; Eu não sou nada além de um miserável verme esmagado, que ninguém quer, que ninguém ama, uma criatura inútil com enjoo matinal, uma grande barriga, dois dentes podres, um mau temperamento, um senso de dignidade esmagado e um amor que ninguém quer e que frequentemente me deixa louca.

Alguém realmente acredita que as coisas mudaram muito desde que Sophie Tolstoy escreveu isto no seu diário em 25 de Outubro de 1886? E o que vocês diriam a ela se ela viesse hoje aqui, a suas irmãs? Vocês dariam a ela um vibrador e a ensinariam como usá-lo? Vocês a ensinariam técnicas de boquete que talvez agradassem o senhor Tolstoy? Vocês a diriam que a sua salvação seria se tornar uma “atleta sexual”? Aprender a excursionar? Ter o mesmo tanto de amantes que o Leon teve? Vocês diriam a ela para começar a pensar em si mesma como uma “pessoa” e não como uma mulher?

Ou talvez vocês tenham encontrado a coragem, a determinação, a convicção para serem suas verdadeiras irmãs – para ajudá-la a livrar-se da longa escuridão da sombra do Leon; para unir-se a ela na mudança de toda organização desse mundo, ainda construído em 1974 para servi-lo, para forçá-la a servi-lo?

Eu digo a vocês que Sophie Tolstoy está aqui hoje nos corpos e vidas e muitas irmãs. Não falhem com ela.

¹ No original “uniform character, as of motion or surface” (non soube traduzir isso, gente, ajuda).

[Tradução] 1° cap. de Our Blood – Andrea Dworkin

Feminismo, Arte e Minha Mãe Sylvia.

Eu estou muito feliz por estar aqui hoje, porque isto não é irrisório para mim, mesmo havendo muitos outros lugares onde eu poderia estar. Isto não é o que minha mãe planejou para mim.

Eu quero lhes dizer algo sobre minha mãe. Seu nome é Sylvia, o nome de seu pai é Spiegel, o nome de seu marido é Dworkin. Minha mãe tem 59 anos e há alguns meses ela teve um sério ataque cardíaco. Ela já se recuperou e já está de volta no seu emprego. Ela é secretária numa escola. Ela tem sido uma paciente cardíaca a maior parte da sua vida e por toda a minha. Quando criança, ela teve uma febre reumática, mas ela diz que seu real problema começou quando ela engravidou do meu irmão Mark e teve pneumonia. Depois disso, sua vida foi uma miséria de doenças. Após anos de doenças debilitantes – falhas cardíacas, reações tóxicas às drogas que a mantinham vida – ela se submeteu a uma cirurgia no coração, então teve um coagulo no cérebro, um acidente vascular cerebral, que a impediu de falar por muito tempo. Ela se recuperou da cirurgia no coração e do seu acidente vascular, embora ela ainda fale bem mais devagar do que ela imagina. Então, há aproximadamente oito anos atrás, ela teve um ataque cardíaco. Ela se recuperou. Então, há alguns meses atrás, ela teve outro ataque cardíaco. E se recuperou.

Minha mãe nasceu em Jersey City, New Jersey. É a segunda mais velha de sete irmãos, dois garotos e cinco garotas. Seus pais, Sadie e Edward, que eram primos, vieram de algum lugar da Hungria. Seu pai morreu antes de eu nascer e sua mãe tem agora oitenta anos. Não há como saber com certeza se o coração da minha mãe teria sido intensamente machucado se ela tivesse nascido em uma família rica. Eu suspeito que não, mas eu não sei. Também não há como saber com certeza se ela teria recebido um tratamento médico diferente se ela não fosse uma garota. Entretanto, tudo aconteceu como aconteceu e então, ela esteve doente boa parte de sua vida. Como ela era uma garota, ninguém nunca a encorajou a ler livros (embora ela me diga que amava ler e que não se lembra de quando ou porque ela parou); ninguém a encorajou a ir para a faculdade ou pediu-lhe para considerar os problemas do mundo onde ela vive. Ela teve que começar a trabalhar assim que terminou a escola porque sua família era pobre. Ela trabalhava em tempo integral como secretária e aos sábados e em algumas noites ela trabalhava como “vendedora” numa loja de departamento. Então ela se casou com meu pai.

Meu pai era professor e também trabalhava as noites nos correios porque ele tinha contas médicas para pagar. Ele precisava manter minha mãe viva e também tinha duas crianças para sustentar. Eu reafirmo o que Joseph Chaikin diz em The Presence of The Actor: “A realidade médico-econômica neste país é um emblema do Sistema, que literalmente escolhe quem deve sobreviver. Eu renuncio a meu governo devido a seu sistema econômico desigual”. Outros, eu devo pontuar a vocês, tiveram e têm menos que nós. Outros, que não são minha mãe, mas que estiveram em sua situação, morreram. Eu também renuncio este governo que mata os pobres, e eles não são somente vítimas de doenças cardíacas, ou dos rins, ou de câncer – eles são vítimas de um sistema onde uma consulta médica custa $25 e uma cirurgia custa $5000.

Quando eu tinha doze anos, minha mãe voltou da sua cirurgia cardíaca e do seu acidente vascular cerebral que a impediu de falar. Lá estava ela, uma mãe, em pé e dando ordens. Nós duas tivemos tempos bem difíceis uma com a outra. Eu não sabia quem ela era ou o que ela queria de mim. Ela não sabia quem eu era, mas ela definitivamente tinha ideias sobre quem eu deveria ser. Eu acredito que ela tinha uma atitude boba, quase estúpida, com o mundo. Aos doze anos eu sabia que queria ser uma escritora ou uma advogada. Eu realmente fui criada sem uma mãe, então, certas ideias não me atingiram. Eu não queria ser uma esposa e eu não queria ser mãe.

Meu pai foi quem realmente me criou, embora eu não o visse muito. Ele valorizava os livros e os diálogos intelectuais. Ele era filho de imigrantes russos e eles queriam que ele fosse médico, este era o sonho deles. Ele era um filho devotado e então, apesar dele querer estudar história, ele fez um curso pré-médico na faculdade. Mas ele era muito melindroso para passar por tudo isso.  O sangue o deixava enjoado. Então, depois desse curso, ele se encontrou ensinando ciências, que ele detestava, por quase vinte anos, em vez de ensinar história, que ele amava. Durante os anos de trabalho que ele detestava, ele jurou que seus filhos seriam educados o máximo possível, não importando o que custaria a ele, não importando qual tipo de comprometimento, trabalho ou dinheiro necessário, seus filhos iriam se tornar o que eles quisessem. Meu pai fez de seus filhos a sua arte e se devotou a nutri-los para que eles se tornassem o que pudessem. Eu não sei por que ele não fez uma distinção entre sua filha e seu filho, mas ele não fez. Eu não sei por que desde o começo ele me deu livros para ler, conversou comigo sobre todas as suas ideias e regou todas as minhas ambições para que elas sobrevivessem, fossem nutridas e crescessem – mas ele fez.

Assim, em nossa casa, minha mãe estava fora de questão de ser uma influência. Meu pai, cujo maior amor era pela história, cujo comprometimento era com a educação e com o dialogo intelectual, ensinou a mim e meu irmão que o nosso próprio engajamento deveria ser com o mundo. Ele tinha todo um conjunto de ideias e princípios que nos ensinou, em palavras, por exemplo. Ele acreditava, por exemplo, em igualdade racial e integração quando essas crenças eram vistas como absolutas aberrações por todos os seus vizinhos, família e colegas. Quando eu, aos quinze anos, declarei em uma reunião de família que se eu quisesse casar, eu me casaria com quem eu quisesse independentemente de cor, a resposta do meu pai, antes que aquela família enfurecida pudesse falar, foi que ele não esperaria menos. Ele era um libertário civil. Ele acreditava em sindicatos e lutou para sindicalizar os professores – uma noção impopular naqueles dias desde que os professores queriam se ver como profissionais. Ele nos ensinou os princípios da Declaração de Direitos, que agora não é vista com os melhores olhos pela a maioria dos Americanos – um comprometimento absoluto com a liberdade de expressão em todas as suas formas, igualdade perante a lei e igualdade racial.

Eu adorava meu pai, mas eu não tinha nenhuma simpatia pela minha mãe. Eu sabia que fisicamente, ela era corajosa – meu pai me falou isso diversas vezes – mas eu não a via como um Hércules. Nenhuma mulher jamais havia sido, até onde eu sabia. Sua mente era desinteressante, ela parecia pequena e provincial. Eu lembro que uma vez no meio de uma terrível discussão, ela me disse de uma forma bem dura: “você pensa que eu sou estúpida.” Eu neguei na hora, mas hoje eu sei que ela estava certa. E de fato, o que mais alguém poderia pensar de uma pessoa cuja única preocupação fosse que eu limpasse meu quarto, usasse certo tipo de roupas ou penteasse meu cabelo de outra forma. Eu certamente tinha boas razões para achar que ela fosse estúpida, horrível, insignificante e até desprezível: Edward Albee, Philip Wylie e aquele grande artista Sigmund Freud me disseram. Parecia para mim que as mães eram as pessoas mais dispensáveis – ninguém tinha uma boa opinião sobre elas, certamente não os grandes escritores do passado e certamente também não os emocionantes escritores do presente. E mesmo assim, esta mulher, minha mãe, presente ou ausente, era o centro da minha vida de tantas formas inexplicáveis, poderosas e não palpáveis, eu a via apenas como uma ignorante irritante, alguém sem graça, paixão ou sabedoria. Quando eu me casei em 1969 eu me senti livre – livre da minha mãe, de seus preconceitos e suas exigências ignorantes.

Eu estou contanto a vocês isto porque esta história tem, possivelmente pela primeira vez na história, uma resolução bem mais feliz do que se podia esperar.

Vocês se lembram em Por Quem os Sinos Dobram de Hemingway quando Maria é questionada se sua vida amorosa com Robert fez a terra se mover? A terra se moveu para mim também algumas vezes na minha vida. A primeira vez aconteceu quando eu tinha dez anos. Eu estava indo para a escola hebraica, mas ela estava fechada em um dia de luto pelos seis milhões de mortos pelos nazistas. Então eu fui ver minha prima que morava por perto e me deparei com ela tremendo, chorando, gritando e vomitando. Ela me disse que era Abril e neste mês a sua irmã mais nova tinha sido assassinada na frente dela, outra irmã mais nova teve uma morte horrível, as suas cabeças tinham sido raspadas… – digamos apenas que ela contou o que aconteceu a ela em um campo de concentração. Ela disse que todo mês de Abril ela se lembrava com pesadelos e terror do que aconteceu neste mês muitos anos atrás e que em todo Abril ela tremia, chorava, gritava e vomitava. A terra se moveu para mim, então.

A segunda vez que a terra se moveu para mim foi quando eu tinha dezoito anos e passei quatro dias na Casa de Detenção para Mulheres de Nova York. Eu havia sido presa num ato contra o genocídio na Indochina. Eu passei quatro dias e quatro noites na sujeira e no terror daquela cela. Enquanto eu estava lá, dois médicos fizeram um brutal exame interno em mim, eu fiquei com hemorragia por quinze dias depois disso. A terra havia se movido para mim de novo.

A terceira vez que a terra se moveu para mim foi quando eu me tornei feminista. Não foi em um dia em particular ou através de uma experiência. Teve haver com aquela tarde quando tinha dez anos e minha prima pôs a tristeza da sua vida em minhas mãos; teve haver com aquela cela feminina, e com três anos de um casamento que começou com uma amizade e terminou em desespero. Aconteceu um tempo depois de deixar meu marido, quando eu estava vivendo na miséria e com uma grande aflição emocional. Aconteceu vagarosamente, de pouco em pouco. Uma semana depois de eu largar meu marido, eu comecei meu livro, que agora se chama Woman Hating. Eu queria descobrir o que havia acontecido comigo no meu casamento e nas mil e uma situações cotidianas onde parecia que eu estava sendo tratada como sub-humana. Eu sentia que eu era profundamente masoquista, mas aquele masoquismo não era pessoal – toda mulher que eu conhecia vivia em um masoquismo profundo. Eu queria descobrir o porque. Eu sabia que meu pai não havia me ensinado aquele masoquismo e que minha mãe não foi minha professora imediata. Então eu comecei no que parecia ser o único lugar aparente – com a Story of O, um livro que me tocou profundamente. Desde este começo eu procurei na pornografia, nos contos de fadas, nos mil anos de enfaixamento dos pés de mulheres na China e no assassinato de nove milhões de bruxas. Eu aprendi algo sobre a natureza do mundo que foi escondida de mim antes – eu vi um desprezo pelas mulheres que permeava em cada instituição da sociedade, cada órgão cultural, cada expressão do ser humano. E eu percebi que eu era uma mulher, uma pessoa que conheceu esse desprezo sistemático em cada esquina, em cada sala de estar, em cada interação humana. Pelo fato de eu ter me tornado uma mulher que sabia que era mulher, isto é, pelo fato de eu ter me tornado uma feminista, eu comecei a falar com mulheres pela primeira vez na minha vida e uma delas foi a minha mãe. Eu fui até a sua vida através do longo túnel escuro da minha própria vida. Eu comecei a ver quem ela era quando eu comecei a ver o mundo que a formou. Eu fui a ela não mais me apiedando da pobreza do seu intelecto, mas surpresa pela qualidade da sua inteligência. Eu fui a ela não mais convencida da sua estupidez e trivialidade, mas surpresa pela qualidade da sua força. Eu fui a ela não mais me sentindo a dona da verdade ou superior, mas como uma irmã, como outra mulher, cuja vida teria repetido a dela – e quando eu digo “repetido a dela” eu quero dizer que teria sido pré-determinada como foi a dela -, não fosse a graça de ter um pai feminista e pela nova luta em comum das minhas irmãs feministas. Eu fui a ela não mais envergonhada do que lhe faltava, mas profundamente orgulhosa do que ela conquistou – de fato, eu percebi que minha mãe era uma mulher orgulhosa, forte e honesta. Na época eu tinha 26 anos, eu já havia visto o suficiente do mundo e de seus problemas para saber que orgulho, força e integridade eram virtudes para serem honradas. E por começar a vê-la de uma nova forma, ela pôde me conhecer, e agora, quaisquer que sejam as nossas dificuldades, e elas não são muitas, ela é minha mãe e eu sou sua filha. E nós somos irmãs.

 

Vocês me pediram para falar sobre arte feminista, se ela existe, e se sim, o que ela é. O que os escritores têm feito até hoje é uma arte masculinista – a arte que serve ao homem em um mundo criado por homens. Essa arte tem degradado mulheres. Ela tem, quase sem exceções, nos caracterizado como seres aleijados de sensibilidades, empobrecidos, pessoas superficiais com preocupações triviais. Quase sem exceção, ela tem sido saturada com uma misoginia tão profunda, uma misoginia que na verdade é uma visão de mundo que até hoje a maioria de nós acredita que é como o mundo é, que é como as mulheres são.

Eu me pergunto: o que eu aprendi com todos estes livros que eu li enquanto crescia? Será se eu aprendi alguma coisa real ou verdadeira sobre mulheres? Será se eu aprendi algo real ou verdadeiro sobre séculos de história das mulheres e sobre como elas viveram? Será se estes livros iluminaram a minha vida, ou a própria vida, de qualquer forma útil, profunda, generosa, rica ou real? Eu acredito que não. Eu acredito que esta arte, estes livros, me roubaram da minha vida assim como o mundo ao qual eles servem roubou a vida da minha mãe dela.

Theodore Roethke, um grande poeta, conforme nos disseram. Um poeta da condição masculina, eu digo, escreveu:

Duas das acusações mais frequentes levantadas contra a poesia de mulheres são a falta de variedade – no assunto, em tom emocional – e a falta de senso de humor. E alguém poderia, em instâncias individuais entre escritores de real talento, acrescentar outras deficiências estéticas e morais: o prolongamento, o adornamento de temas triviais, a preocupação com as meras superficialidades da vida – aquela competência especial do talento feminino na prosa – escondidas das verdadeiras agonias do espírito, a recusa de encarar o que a existência é; as posturas líricas ou religiosas; a corrida entre o boudoir e o altar, marcando um pequeno pé contra Deus; ou a queda em uma moralidade que implica que o autor tenha reinventado a integridade; a excessiva preocupação com o Destino, o tempo; a lamentação da sorte de uma mulher… E assim por diante.

O que caracteriza a arte masculinista e os homens que a fazem é a misoginia – e em face desta misoginia, alguém reinventou melhor a integridade.

Eles, os masculinistas, nos disseram que eles escrevem sobre a condição humana, sobre os grandes temas – amor, morte, heroísmo, sofrimento e a própria história. Eles nos disseram que os nossos temas – amor, morte, heroísmo, sofrimento e a própria história – são triviais porque assim nós somos pela nossa própria natureza.

Eu renuncio a arte masculinista. Não é uma arte que ilumina a condição humana – para a vergonha final e eterna dos homens, ela ilumina apenas ao mundo masculinista – e olhando a nossa volta percebemos que não há nada para se orgulhar deste mundo. A arte masculinista, a arte de séculos de homens, não é universal ou a explicação final do que é ser no mundo. No final, ela é apenas a descrição de um mundo onde mulheres são subjugadas, submissas, escravizadas, impedidas de se tornarem seres completos, distinguidas apenas pela carnalidade, humilhadas. Eu digo: minha vida não é trivial; minha sensibilidade não é trivial; minha força não é trivial, assim como não foi a da minha mãe ou a da mãe dela. Eu renuncio aqueles que odeiam mulheres, que desprezam, ridicularizam e humilham mulheres, e quando eu faço isso, eu renuncio boa parte de toda arte feita, a arte masculinista. 

Enquanto feministas, nós habitamos o mundo de uma nova forma. Nós vemos o mundo de uma nova forma. Nós ameaçamos deixá-lo de cabeça para baixo e de dentro para fora. Nós queremos mudá-lo tão profundamente que algum dia os textos dos escritores masculinistas vão ser curiosidades antropológicas. Nossos descendentes perguntarão sobre o que Mailer estava falando e eles verão seu trabalho em algum arquivo escuro. E eles irão se questionar – desnorteados, tristes – sobre a glorificação masculinista da guerra, as mistificações masculinistas sobre matar, mutilação, violência e dor; as máscaras torturadas do heroísmo fálico; a inútil arrogância da supremacia fálica; as representações empobrecidas de mães e filhas, assim como da própria vida. Eles perguntarão: essas pessoas realmente acreditavam nestes deuses?

A arte feminista não é um pequeno riacho que saiu do grande rio da arte real. Não é alguma rachadura em uma pedra impecável. Bem espetacularmente, eu acredito, ela é a arte que não é baseada na subjugação da metade da espécie. É a arte que vai abranger os grandes temas humanos – amor, morte, heroísmo, sofrimento e a própria história – e torná-los completamente humanos. Apesar de que talvez nossas imaginações estejam já tão multiladas que sejamos incapazes até da ambição, nós podemos também introduzir um novo tema, um tão grande e rico quanto os outros – deveríamos chamá-lo de “alegria”?

Nós não podemos imaginar um mundo onde mulheres não são representadas como triviais e desprezíveis, onde mulheres não são humilhadas, abusadas, exploradas, estupradas, diminuídas antes mesmo de nós nascermos – e então, nós não podemos saber qual tipo de arte será feita nesse novo mundo. Nosso trabalho, que honra completamente aqueles séculos de irmãs que vieram antes de nós, é parir esse novo mundo. Ele será deixado para nossas crianças e para as crianças delas viverem nele.

As Ferramentas do Mestre Nunca Vão Desmantelar a Casa-Grande – Audre Lorde

Eu concordei em participar numa conferência do Instituto de Humanidades da Universidade de New York há um ano, por ter entendido que eu comentaria trabalhos que abordassem o papel da diferença nas vidas das mulheres americanas: diferenças de raça, sexualidade, classe e idade. A ausência dessas considerações enfraquece qualquer discussão feminista sobre o pessoal e o político.

É uma arrogância da academia, em particular, assumir qualquer discussão sobre teoria feminista sem examinar nossas várias diferenças, e sem uma perspectiva significativa das mulheres pobres, Negras e Terceiro-Mundistas, e Lésbicas. Ainda assim, coloco-me aqui como uma Negra Lésbica Feminista que foi convidada, nessa conferência, a falar no único painel em que a perspectiva das Negras Feministas e Lésbicas está representada. O que isso diz sobre a visão dessa conferência é triste, num país onde racismo, sexismo e homofobia são inseparáveis. Ler a programação é assumir que mulheres Lésbicas e Negras não têm nada a dizer sobre existencialismo, o erótico, a cultura e silêncio das mulheres, desenvolvimento de teoria feminista, ou heterossexualidade e poder. E o que significa, em termos pessoais e políticos, que mesmo as duas mulheres Negras que aqui se apresentaram foram, literalmente, encontradas em cima da hora? O que significa quando as ferramentas de um patriarcado racista são usadas para examinar os frutos desse mesmo patriarcado? Significa que somente os perímetros mais estreitos de mudança são possíveis e permitidos.

A ausência de qualquer consideração sobre a consciência lésbica ou a consciência das mulheres Terceiro-Mundistas deixa uma falha séria nessa conferência e nos artigos apresentados aqui. Por exemplo, num artigo sobre relações materiais entre mulheres, tomei conhecimento de um modelo de criação excludente que desconsidera totalmente meu conhecimento de Negra Lésbica. Nesse artigo, não houve análise da mutualidade entre mulheres, nem de sistemas de apoio compartilhado, nem da interdependência como existe entre lésbicas e mulheres-identificadas-com-mulheres. No entanto, é somente no modelo patriarcal de criação que as mulheres “que tentam se emancipar pagam um risco talvez alto demais pelos resultados”, como afirma o artigo.

Para as mulheres, a necessidade e desejo de nutrir uma à outra não é patológica, mas sim redentora; e é dentro desse conhecimento que nosso poder real é redescoberto. Essa é a conexão real tão temida por um mundo patriarcal. Somente dentro de uma estrutura patriarcal é que a maternidade pode ser o único poder social acessível às mulheres.

A interdependência entre mulheres é o caminho para uma liberdade que permita ao Eu que seja, não para que seja usado, mas para que seja criativo. Essa é a diferença entre o ser passivo e o ativo sendo.

Lutar meramente pela tolerância com relação à diferença entre mulheres é o reformismo mais grosseiro. É uma negação total da função criativa que a diferença tem em nossas vidas. A diferença não deve ser meramente tolerada, mas vista como a base de polaridades necessárias entre as quais nossa criatividade pode faiscar como uma dialética. Somente aí é que a necessidade pela interdependência torna-se não-ameaçadora. Somente nessa interdependência de forças diferentes, reconhecidas e equiparadas, pode ser gerado o poder de buscar novas formas de estar sendo no mundo, bem como a coragem e a sustância para agir quando não há permissões.

Da indeterpendência das diferenças mútuas (não-dominantes) verte aquela segurança que nos possibilita descender no caos do conhecimento e retornar com visões verdadeiras de nosso futuro, juntas ao poder concomitante de efetivar tais mudanças que podem tornar aquele futuro um sendo. Diferença é aquela conexão crua e poderosa na qual nosso poder pessoal é forjado.

Como mulheres, fomos ensinadas ou a ignorar nossas diferenças, ou vê-las como as causas da separação e suspeição, ao invés de forças para mudança. Sem comunidade não há libertação, só o mais vulnerável e temporário armistício entre uma pessoa e sua opressão. Mas comunidade não deve significar uma supressão de nossas diferenças, nem a pretensão patética de que essas diferenças não existem.

Aquelas de nós que estão fora do círculo do que essa sociedade define como mulheres aceitáveis, aquelas de nós que foram forjadas nos caldeirões da diferença – aquelas de nós que somos pobres, que somos lésbicas, que somos Negras, que somos velhas – sabemos que sobrevivência não é uma habilidade acadêmica. É aprender a estar sozinha, impopular e às vezes insultada, e a fazer causa comum com aquelas outras identificadas como externas às estruturas, para definir e buscar um mundo no qual todas nós possamos florescer. É aprender a tomar nossas diferenças e torná-las forças. Pois as ferramentas do senhor nunca vão desmantelar a casa-grande. Elas podem nos permitir a temporariamente vencê-lo no seu próprio jogo, mas elas nunca nos permitirão trazer à tona mudança genuína. E esse fato só é uma ameaça àquelas mulheres que ainda definem a casa-grande como sua única fonte de suporte.

Mulheres pobres e mulheres de Cor sabem que há uma diferença entre as manifestações diárias de escravização marital e prostituição porque nossas filhas é que estão na pista. Se a teoria feminista americana branca precisa deixar de lidar com as diferenças entre nós, e as consequentes diferenças em nossas opressões, então como lidar com o fato de que as mulheres que limpam suas casas e cuidam de suas crianças enquanto vocês comparecem a conferências sobre teoria feminista são, majoritariamente, mulheres pobres e mulheres de Cor? Qual é a teoria por trás do feminismo racista?

Num mundo de possibilidade para todas nós, nossas visões pessoais ajudam a fincar as bases de trabalho da ação política. O fracasso das feministas acadêmicas em reconhecer a diferença como uma força crucial é o fracasso em transcender a primeira lição patriarcal. Em nosso mundo, dividir e conquistar tem que se tornar definir e empoderar.

Por que outras mulheres de Cor não foram encontradas para participar nessa conferência? Por que dois telefonemas para mim foram considerados uma consultoria? Eu sou a única fonte possível de nomes de feministas Negras? E mesmo que o artigo do painel  sobre Negritude termine com uma conexão importante e poderosa de amor entre mulheres, o que temos a dizer sobre cooperação interracial entre feministas que não se amam?

Em círculos feministas acadêmicos, a resposta a essas questões é muitas vezes “Nós não sabíamos a quem perguntar”. Mas essa é a mesma evasão de responsabilidade, a mesma esquiva que mantém o trabalho artístico de mulheres Negras fora das mostras de mulheres, que mantém o trabalho de mulheres Negras fora da maioria das publicações feministas, exceto pelas ocasionais “Edição Especial Mulheres Terceiro-Mundistas”, e que mantém os textos de mulheres Negras fora de nossas listas bibliográficas. Mas, como Adrienne Rich afirmou em uma palestra recentemente, as feministas brancas empenharam-se enormemente em educar-se sobre elas mesmas nos últimos dez anos, então como não se educaram também sobre mulheres Negras e as diferenças entre nós – brancas e Negras – quando isso é a chave para nossa sobrevivência enquanto movimento?

As mulheres de hoje ainda estão sendo chamadas a atravessar a fenda da ignorância masculina e educar os homens sobre nossas existências e nossas necessidades. Essa é uma ferramenta velha e arcaica usada por todos os opressores para manter as oprimidas ocupadas com as preocupações do senhor. Agora temos ouvido que é tarefa das mulheres de Cor educar mulheres brancas – frente à tremenda resistência – sobre nossa existência, nossas diferenças, e nossos respectivos papéis em nossa sobrevivência conjunta. Isso é um desvio de energias e uma trágica repetição do pensamento racista patriarcal.

Simone de Beauvoir disse: “É do conhecer as condições genuínas de nossas vidas que devemos tirar nossa força para viver e nossas razões para agir”.

O racismo e a homofobia são as condições reais para todas as nossas vidas nesse espaço e tempo. Eu conclamo cada uma de nós aqui a mergulhar naquele lugar profundo de conhecimento dentro de si mesma, e alcançar o terror e a abominação a qualquer diferença que ali reside. Ver que face veste.

Então o pessoal e o político podem começar a iluminar todas as nossas diferenças.

{Tradução} Introdução do livro “A Criação do Patriarcado” – Gerda Lerner

Arquivo: A criação do Patriarcado – Gerda Lerner

Introdução

Conhecer a História das Mulheres é indispensável e essencial para a emancipação feminina. Eu cheguei a esta convicção em termos teóricos e práticos após vinte e cinco anos pesquisando, escrevendo e ensinando sobre a História das Mulheres. O argumento teórico será mais desenvolvido neste livro; enquanto o argumento prático se apoia nas minhas observações sobre as grandes mudanças na consciência que experimentam os estudantes da História das Mulheres e como isto muda suas vidas. O efeito psicológico nas mulheres participantes é profundo, mesmo em curtas aulas sobre a experiência passada das mulheres, tais como em cursos de duas semanas e seminários.

No entanto, a maior parte do trabalho teórico do feminismo moderno, começando por Simone de Beauvoir até o presente momento, tem sido ahistórico e negligente com os estudos feministas históricos. Isto era compreensível nos primeiros dias da nova onda do feminismo, quando os estudos sobre o passado das mulheres era escasso, mas nos anos 1980, quando há uma grande abundância de excelentes trabalhos acadêmicos sobre a História das Mulheres, continua persistindo a distância em outros campos entre estudos históricos e a crítica feminista. Antropólogos, críticos literários, sociólogos, cientistas sociais e poetas têm nos fornecido trabalhos teóricos baseados em “história”, mas o trabalho de especialistas em História das Mulheres não se tornou parte do discurso comum. Eu creio que as razões disto vão além da sociologia de mulheres que fazem críticas feministas e além das restrições de suas bagagens e formações acadêmicas. As razões se encontram na relação conflituosa e muito problemática entre as mulheres e a história.

O que é história? Nós devemos distinguir o passado não registrado – todos os eventos do passado recordados por seres humanos – da História – o passado registrado e interpretado. Assim como os homens, as mulheres são e tem sido atores e agentes da história. Dado que as mulheres são a metade, e às vezes mais da metade, da humanidade, elas sempre compartilharam o mundo e seu trabalho com homens da mesma maneira. As mulheres são e tem sido centrais, não marginais, na criação da sociedade e na construção da civilização. As mulheres também tem cooperado com os homens na preservação da memória coletiva, que modela o passado em tradição cultural, fornece a ligação entre gerações e conecta o passado e o futuro. Esta tradição oral foi mantida viva em poemas e mitos, que tanto homens quanto mulheres criaram e preservaram no folclore, arte e em rituais.

A construção da história, por outro lado, é uma criação histórica que data da invenção da escrita na antiga Mesopotâmia. Desde o tempo das listas de reis na antiga Suméria, historiadores, que foram padres, serviçais reais, escrivãs, clérigos ou uma classe profissional de intelectuais de formação universitária, têm selecionado os eventos a serem registrados e os interpretaram de maneira a dá-lhes sentido e significado. Até um passado recente, estes historiadores foram homens e eles registraram somente o que foi considerado significante dos feitos e experiências masculinas. Eles chamaram isto de história e reivindicaram sua universalidade. Os feitos e as experiências femininas não foram registrados, mas negligenciados e ignorados nas suas interpretações. Os estudos históricos, até um passado recente, viram as mulheres como marginais na criação da civilização e desnecessárias nas buscas definidas como historicamente importantes.

Assim, o registro escrito e interpretado do passado da raça humana é apenas um registro parcial, pois omite o passado da metade da humanidade, e é distorcido, porque revela apenas o ponto de vista da parte masculina da humanidade. Dizer que um grande grupo de homens, possivelmente a maior parte dos homens, por muito tempo também foi eliminado do registro histórico por meio de interpretações preconceituosas de intelectuais que representavam os interesses de uma pequena elite dominante é ignorar o problema. Um erro não justifica o outro; ambos os erros conceituais devem ser corrigidos. As experiências de grupos outrora subordinados, tais como camponeses, escravos e proletários, se tornaram parte do registro histórico quando eles alcançaram posições de poder ou ao menos a inclusão na política. Isto é, as experiências dos homens desses grupos; as mulheres foram, como sempre, excluídas. A questão é que homens e mulheres foram excluídos e discriminados por causa da sua classe. Porém nenhum homem foi excluído do registro histórico por causa do seu sexo, entretanto, todas as mulheres foram.

As mulheres foram impedidas de contribuírem com a criação da História, isto é, o processo de ordenar e interpretar o passado da humanidade. Podemos perceber imediatamente que a marginalidade das mulheres nesse processo nos coloca em uma posição única e segregadora, visto que esse processo de dar significado é essencial para a criação e perpetuação da civilização. As mulheres são maioria, porém somos estruturadas em instituições como se fossemos minoria.

É um equivoco básico tentar conceituar mulheres principalmente como vítimas enquanto mulheres foram vitimizadas por este e muitos outros aspectos da sua longa subordinação aos homens. Ao fazer isso, se obscurece o que deve ser assumido como um dado da situação histórica das mulheres: Mulheres são essenciais e centrais na criação da sociedade; elas são e sempre foram atores e agentes na história. Mulheres “fizeram história”, mesmo assim elas foram impedidas de conhecer a História e de interpretá-la, tanto a sua própria quanto a dos homens. As mulheres foram sistematicamente excluídas do empreendimento da criação de sistemas de símbolos, filosofias, ciência e direito. As mulheres não apenas foram privadas educacionalmente durante o tempo histórico em todas as sociedades conhecidas, elas foram excluídas da formação de teorias. Eu chamei de “a dialética da história das mulheres” essa tensão entre a experiência histórica real das mulheres e a sua exclusão na interpretação desta experiência. Essa dialética tem movido as mulheres adiante no processo histórico.

A contradição entre o papel ativo e central das mulheres na criação da sociedade e a sua marginalidade no processo de dá significado às interpretações e explicações tem sido uma força dinâmica, fazendo que as mulheres lutassem contra sua condição. Quando, nesse processo de luta, em determinados momentos históricos, as contradições entre seu relacionamento com a sociedade e o processo histórico são trazidas a tona na consciência das mulheres, elas são então corretamente percebidas e nomeadas como privações que mulheres compartilham enquanto grupo. Essa tomada de consciência das mulheres se torna a força dialética que as moveu na ação de mudar a sua situação e de começar um novo relacionamento com a sociedade masculino-dominada.

Devido a estas condições únicas a elas, mulheres tiveram uma experiência histórica significantemente diferente da dos homens.

Eu comecei me questionando: quais são as definições e conceitos que precisamos para explicarmos o relacionamento único e segregador das mulheres com o processo histórico, a criação da história e a interpretação do seu próprio passado?

Outra preocupação que eu tive foi a de que meu estudo se direcionasse também para a longa demora (por volta de 3500 anos) da tomada de consciência de mulheres sobre sua posição subordinada na sociedade. O que poderia explicar isso? O que poderia explicar a histórica “cumplicidade” das mulheres na manutenção do sistema patriarcal que as subordina e em transmiti-lo, geração após geração, aos seus filhos de ambos os sexos?

Ambas as questões são relevantes e desagradáveis porque aparentemente elas nos conduzem a respostas que indicam a vitimização das mulheres e sua inferioridade essencial. Eu acredito que essa é a razão pela qual essas questões não foram discutidas tão cedo por pensadoras feministas, embora o estudo tradicional masculino tenha nos fornecido a resposta patriarcal: mulheres não produziram importantes avanços no pensamento devido a sua preocupação biologicamente determinada com o cuidado e emoções, o qual levou a sua “inferioridade” essencial a respeito do pensamento abstrato. Ao invés disso, eu comecei com a suposição de que homens e mulheres são biologicamente diferentes, porém as implicações e os valores baseados nessa diferença são resultados da cultura. Quaisquer diferenças perceptíveis no presente em relação aos homens enquanto grupo e mulheres enquanto grupo são resultadas da história particular das mulheres, que é essencialmente diferente da história dos homens. Isto se deve à subordinação das mulheres aos homens, que é mais velha que a civilização, e à negação da história das mulheres. A existência da história das mulheres foi obscurecida e negligenciada pelo pensamento patriarcal, um fato que afetou significantemente a psicologia de homens e mulheres.

Eu comecei com a convicção, compartilhada pela maioria das pensadoras feministas, de que o patriarcado enquanto sistema é histórico: ele tem um começo na história. Se for assim, ele pode ser destruído por um processo histórico. Se o patriarcado fosse “natural”, isto é, baseado no determinismo biológico, então mudá-lo significaria mudar a natureza. Pode-se argumentar que mudar a natureza é precisamente o que a civilização tem feito, mas até agora a maior parte dos benefícios da dominação sobre a natureza, que os homens chamam de progresso, tem sido apenas a favor do macho da espécie. Porque e como isso aconteceu são questões históricas, independentemente de como se explica as causas da submissão das mulheres. A minha hipótese sobre as causas e origens da subordinação feminina será mais discutida nos capítulos I e II. O que é importante para minha análise é a percepção de que a relação entre homens e mulheres com o conhecimento do seu passado é em si mesma uma força modeladora na criação da história.

Caso a subordinação feminina fosse anterior à civilização Ocidental, a minha investigação teria que começar no milênio IV A.C., supondo que a civilização começou com o registro histórico escrito. Isto foi o que me levou, uma historiadora americana especializada no século IXX, a passar os últimos oito anos estudando a história da antiga Mesopotâmia para responder as questões que eu considero essenciais para a criação de uma teoria feminista da história. Embora questões sobre as “origens” inicialmente me interessaram, eu logo percebi que elas eram menos importantes que as questões sobre o processo histórico pelo qual o patriarcado se estabeleceu e se institucionalizou.

Esse processo se manifestou nas mudanças na organização parental e nas relações econômicas, no estabelecimento de burocracias religiosas e estatais e na transformação das cosmogonias, expressando a ascensão de figuras de deuses masculinos. Baseando-me em trabalhos teóricos existentes, eu assumi essas mudanças como “um evento” em um período relativamente curto, que pode ter coincidido com o estabelecimento dos estados arcaicos ou pode ter ocorrido, talvez um pouco mais cedo, na época do estabelecimento da propriedade privada, que levou ao começo da sociedade de classes. Sob a influência das teorias marxistas sobre origem, que será mais discutida no Capítulo I, eu imaginei um tipo de “derrubada” revolucionária que perceptivamente teria alterado as relações de poder existentes na sociedade. E            u esperava encontrar o status econômico, político e jurídico das mulheres, mas conforme o meu avanço no estudo de fontes ricas sobre a história do Antigo Oriente Médio, eu comecei a olhá-las em uma sequência histórica e ficou claro para mim que a minha suposição tinha sido muito simplista.

O problema não são as fontes, elas são certamente amplas para a reconstrução de uma história social da sociedade da antiga Mesopotâmia. O problema da interpretação é similar ao problema enfrentado por historiadores de qualquer área que se aproxima da história tradicional com questões relativas a mulheres. Existem poucos trabalhos substanciais disponíveis sobre mulheres, e os que existem, são puramente descritivos. Nenhuma interpretação ou generalização a respeito das mulheres foi fornecida ainda por especialistas formados neste campo.

Assim, a história das mulheres e a história das mudanças nas relações entre os sexos nas sociedades mesopotâmicas ainda precisa ser escrita. Eu tenho o maior respeito pela erudição e pelos conhecimentos técnicos e linguísticos de estudiosos do Antigo Oriente Médio e eu estou certa de que de seus estudos eventualmente virá uma obra que irá sintetizar e colocar na perspectiva adequada a história não contata da mudança do status social, político e econômico das mulheres no segundo e terceiro milênio A.C. Eu não me esforcei para escrever esta história porque eu não sou uma Assiriologista formada e sou incapaz de ler os textos cuneiformes no original.

Entretanto, eu observei que as sequências de eventos pareciam ser muito diferentes do que eu tinha previsto. A formação dos estados arcaicos, que sucedeu ou coincidiu com a maioria das mudanças econômicas, tecnológicas e militares, trouxe consigo mudanças distintas nas relações de poder entre homens e entre homens e mulheres, não há nenhuma evidência de que tenha ocorrido uma “derrubada”. O período do “estabelecimento do patriarcado” não foi um evento, mas sim um processo desenvolvido durante um período de aproximadamente 2500 anos, do ano 3100 a 600 A.C. Isto ocorreu, mesmo dentro do Antigo Oriente Médio, em ritmos e tempos diferentes em diversas sociedades distintas.

Além disso, as mulheres pareciam ter muitos status diferentes em vários aspectos das suas vidas, então, por exemplo, na Babilônia no segundo milênio A.C., a sexualidade feminina era totalmente controlada por homens enquanto que algumas mulheres gozavam de bastante independência econômica, muitos privilégios e direitos legais e alcançaram muitas posições importantes de grande status na sociedade. Eu fiquei confusa ao descobrir que a evidência histórica relativa às mulheres não fazia sentido quando vista pelos critérios tradicionais. Depois de um tempo eu percebi que precisava focar mais no controle da sexualidade e procriação feminina que nas questões econômicas habituais. Conforme eu fazia isso as peças do quebra-cabeça começavam a tomar seus lugares. Eu fui incapaz de compreender o significado da evidência histórica diante de mim porque eu estava concentrada na formação das classes, que se aplica a homens e mulheres, com a suposição tradicional de que o que é verdade para os homens deve ser também para as mulheres. A evidência diante de mim só fez sentido quando eu comecei a questionar como a definição de classe foi diferente para mulheres e homens logo no início da sociedade de classes.

 Neste livro eu irei desenvolver as seguintes proposições:

 a) A apropriação das capacidades sexuais e reprodutivas das mulheres por homens é anterior à formação da propriedade privada e da sociedade de classes. Na verdade, a sua mercantilização (commodification) reside na base da propriedade privada. (Cap. I e II)

 b) Os estados arcaicos foram organizados no modelo patriarcal; assim desde sua criação, o Estado teve um interesse essencial na manutenção da família patriarcal. (Cap. III)

 c) Homens aprenderam a instituir dominação e hierarquia sobre outras pessoas a partir da sua prática anterior de dominação sobre as mulheres de seus grupos. Isto se expressou na institucionalização da escravidão, a qual começou com a escravidão das mulheres de grupos conquistados. (Cap. IV)

 d) A subordinação sexual feminina foi institucionalizada nos primeiros códigos de lei e impostas pelo poder do Estado. A cooperação feminina com este sistema foi garantida por diversas formas: força, dependência econômica do homem da família, privilégios de classe concedidos pela conformação e mulheres dependentes das classes mais altas, e a divisão criada artificialmente entre mulheres respeitáveis e não respeitáveis. (Cap. V)

 e) A classe para os homens foi e ainda é baseada no seu relacionamento com os meios de produção: aqueles que possuíam os meios de produção poderiam dominar aqueles que não possuíam. Para as mulheres, a classe é mediada através da sua relação sexual com um homem, que, então, lhe dá acesso a recursos materiais. A divisão entre mulheres “respeitáveis” (isto é, ligadas a um homem) e “não respeitáveis” (isto é, não ligada a um homem ou livre de todos eles) é institucionalizada nas leis relativas ao uso do véu das mulheres. (Cap. VI)

 f) Muito tempo depois da subordinação sexual e econômica das mulheres aos homens, elas ainda atuam no papel ativo e respeitável na mediação entre humanos e deuses como sacerdotisas, videntes, advinhas e curandeiras. O poder metafísico feminino, especialmente o poder de conceber a vida, é adorado por homens e mulheres na forma de deusas poderosas muito tempo após a subordinação feminina aos homens na maioria dos aspectos de suas vidas. (Cap. VII)

 g) O destronamento da deusa poderosa e a sua substituição por um deus masculino dominante ocorreu na maioria das sociedades do Oriente Médio seguido pelo estabelecimento de um reino forte e imperialista. Aos poucos, a função de controle da fertilidade, anteriormente detida inteiramente pelas deusas, é simbolizada através do acasalamento simbólico ou real do deus masculino ou Deus-Rei com a Deusa ou sua sacerdotisa. Finalmente, a sexualidade (erotismo) e a procriação são divididas no surgimento de deusas separadas para cada função e a Deusa-Mãe é transformada na esposa/consorte do deus masculino chefe. (Cap. VII)

 h) O surgimento do monoteísmo hebraico assume a forma de ataque aos cultos propagados das deusas da fertilidade. Na escrita do Livro de Gênesis, a criatividade e a procriação são atribuídas ao Deus todo-poderoso, cujos epitáfios “Senhor” e “Rei” o determinam como um deus masculino, e a sexualidade feminina que não seja para fins de procriação se torna associado com algo pecaminoso e perverso. (Cap. VIII)

 i) No estabelecimento da aliança comunitária, o simbolismo básico e o real contrato entre Deus e a humanidade vê como um dado a posição subordinada feminina e sua exclusão da aliança metafísica e da aliança terrena comunitária. A sua função materna é o seu único acesso a Deus e a toda comunidade. (Cap. IX)

 j) Essa desvalorização simbólica da mulher em relação ao divino se torna uma das metáforas encontradas da civilização Ocidental. A outra é fornecida pela filosofia Aristotélica que vê como um dado que as mulheres são humanos incompletos e danificados de uma ordem inteiramente diferente dos homens (Cap. X). É com a criação dessas duas construções metafóricas, que foram criadas desde a fundação dos sistemas de símbolos da civilização Ocidental, que a subordinação de mulheres se torna algo visto como “natural”, portanto, tornando-se invisível. Esse é o fator que finalmente firma o patriarcado como uma realidade e como uma ideologia.

Qual é a relação entre ideias, especialmente ideias sobre gênero*, com as forças econômicas e sociais que modelam a história? A matriz de qualquer ideia é a realidade – as pessoas não podem idealizar algo que eles não experienciaram, ou ao menos que outros não tenham experienciado antes. Assim, imagens, metáforas, mitos, tudo encontra expressão nas formas que são “prefigurados” através da experiência passada. Em períodos de mudança, as pessoas reinterpretam estes símbolos de novas formas que as leva a novas combinações e novas ideias.

 * Sexo é o dado biológico para homens e mulheres. Gênero é a definição cultural de comportamentos definidos como apropriados aos sexos em uma dada sociedade em determinado tempo. Gênero é um conjunto de papéis culturais; portanto é um produto cultural que muda de acordo com o tempo.

O que eu estou tentando fazer em meu livro é traçar, por meio de evidências históricas, o desenvolvimento das principais ideias, símbolos e metáforas pelas quais as relações de gênero patriarcais foram incorporadas na civilização Ocidental. Cada capítulo é construído em torno dessas metáforas de gênero, como indicado no título do capítulo. Neste livro eu me esforcei para isolar e identificar as formas pelas quais a civilização Ocidental construiu os gêneros e para estudá-las em momentos ou períodos de mudança. Estas formas consistem em normas sociais incorporadas em papéis sociais, leis e em metáforas. De certa forma, essas formas representam artefatos históricos da onde se pode deduzir a realidade social que deu início à ideia ou à metáfora. Deve ser possível traçar os desenvolvimentos históricos implícitos na sociedade traçando as mudanças em metáforas e imagens, mesmo na ausência de outra evidência histórica. No caso da sociedade Mesopotâmica, a abundância de evidências históricas torna possível, na maioria dos casos, confirmar uma análise de símbolos por comparação com provas concretas.

A maioria dos símbolos de gênero e metáforas da civilização Ocidental foi amplamente derivada da Mesopotâmia e, após, de fontes Hebraicas. Claro que seria desejável ampliar este estudo para incluir as influências Arábicas, Egípcias e Europeias, mas tal empreendimento levaria mais anos de trabalho acadêmico que eu, na minha idade, espero me comprometer. Eu posso apenas esperar que meu esforço na reinterpretação da evidência histórica disponível irá inspirar outras pessoas a continuarem a pesquisar sobre as mesmas questões de acordo com sua especialidade e com ferramentas acadêmicas mais refinadas disponíveis a elas.

Quando eu comecei esta obra, eu a idealizei como um estudo sobre o relacionamento de mulheres com a criação do sistema de símbolo mundial, a sua exclusão nisto, seus esforços na quebra da desvantagem educacional sistemática a qual elas são subordinadas, e, finalmente, a sua tomada de consciência feminista. Mas conforme o progresso da minha pesquisa nas fontes sobre a antiga Mesopotâmia, a riqueza das evidências me levaram a ampliar meu livro em dois volumes. O primeiro volume indo até aproximadamente 400 A.C. E o segundo irá falar sobre a ascensão da consciência feminista e cobrir toda a era Cristã.

Embora eu acredite que a minha hipótese tenha uma larga aplicabilidade, eu não estou tentando fornecer uma “teoria geral” sobre a ascensão do patriarcado e sexismo com base no estudo de uma região. A hipótese teórica que estou fornecendo sobre a civilização Ocidental precisará ser testada e comparada com outras culturas para termos a certeza de sua aplicabilidade geral.

Enquanto assumimos esta exploração, como devemos, então, pensar em mulheres-enquanto-um-grupo? Três metáforas podem nos ajudar a ver a questão por um novo ângulo:

No seu brilhante artigo de 1979, Joan Kelly falou sobre a nova “visão duplicada” dos estudos feministas:

 … O lugar das mulheres não é uma esfera separada ou um domínio de existência, mas, geralmente, uma posição dentro de uma existência social… O pensamento feminista está indo além da visão dividida da realidade social herdada do nosso passado recente. Nosso ponto de vista real mudou, dando início a uma nova consciência do lugar da mulher na família e na sociedade… O que nós vemos não são duas esferas da realidade social (casa e trabalho, privado e público), mas dois (ou três) conjuntos de relações sociais.

Nós estamos acrescentando a visão feminina à masculina e este processo é transformador. Mas a metáfora de Joan Kelly precisa ser desenvolvida um pouco mais: quando nós vemos apenas com um dos olhos, nossa visão é limitada a uma área e desprovida de profundidade. Quando acrescentamos a única visão do outro olho, nossa área de visão se amplia, mas ainda falta profundidade. É apenas quando ambos os olhos veem juntos que obtemos uma área de visão completa e a exata profundidade de percepção.

O computador nos fornece outra metáfora. Ele nos mostra uma imagem de um triangulo (bidimensional). Ainda com esta imagem, o triângulo se move no espaço e é transformado em uma pirâmide (tridimensional), ainda nos mostrando a imagem da pirâmide e do triângulo. Nós vemos todas as quatro dimensões ao mesmo tempo, não perdendo nada delas, mas também as vendo em sua verdadeira relação com cada uma.

A visão que temos tido, em termos patriarcais, é bidimensional. “Acrescentar mulheres” ao sistema patriarcal transforma essa visão em tridimensional. Mas apenas quando a visão feminina é igualada à masculina, nós podemos perceber as verdadeiras relações com o todo e a conexão interior das peças.

Finalmente, outra imagem. Homens e mulheres vivem em um palco, onde eles atuam seus papéis determinados, iguais em importância. A peça não pode continuar sem os dois tipos de atores. Nenhum dos dois “contribui” mais ou menos com o todo e nenhum dos dois é marginal ou dispensável. Mas o cenário foi idealizado, definido e pintado por homens. Homens escreveram e dirigiram a peça, e ainda, interpretaram os sentidos das ações. E eles atribuíram a si mesmos as partes mais interessantes e mais heroicas, deixando as mulheres apenas os papéis de apoio.

À medida que as mulheres se tornaram conscientes da diferença de importância de papéis, elas exigiram mais igualdade nos papéis atribuídos a elas. Elas ofuscaram os homens às vezes, outras elas substituíram um ator que faltava. Após muita luta as mulheres finalmente conquistaram o direito de acesso a papéis iguais, mas primeiro elas precisavam se “qualificar”. Os termos de “qualificações” são novamente definidos por homens; homens julgariam se as mulheres estariam à altura; eles que concederiam ou negariam sua admissão. Eles deram preferência a mulheres dóceis e àquelas que se encaixaram perfeitamente nas suas descrições preferenciais. Homens puniram por ridicularização, exclusão ou ostracismo qualquer mulher que assumisse seu direito de interpretar seu próprio papel – ou o pior dos pecados – o direito de reescrever o roteiro.

Levará bastante tempo para as mulheres entenderem que terem partes “iguais” não as tornará iguais enquanto os homens forem os donos do roteiro, do figurino, do cenário e da direção da peça. Quando mulheres perceberem isto e se juntarem durante os atos ou até mesmo durante a performance para discutirem o que fazer sobre isso esta peça chegará ao fim.

Olhando para o registro histórico da sociedade como se ele fosse uma peça, percebemos que a história das performances durante milhares de anos foi registrada apenas por homens e escrita de acordo com suas palavras. Sua atenção se direcionou principalmente aos homens. Não me surpreende que eles não tenham percebido todas as ações das mulheres. Finalmente, nos últimos 50 anos, algumas mulheres adquiriram a formação necessária para escrever os roteiros da companhia. À medida que elas escreviam, elas começaram a prestar mais atenção no que mulheres estavam fazendo. No entanto, elas foram bem formadas por seus professores, então, elas também acharam que o que homens estavam fazendo era mais importante e, no seu desejo de melhorar o papel das mulheres no passado, elas buscaram mulheres que fizeram o mesmo que homens. Assim nasceu a história compensatória.

O que mulheres devem fazer, o que feministas estão fazendo agora, é apontar para o palco, o cenário, o figurino, o diretor e o roteirista, assim como fizeram as crianças no conto de fadas que descobriram que o imperador estava nu, e dizerem que a desigualdade básica entre nós está dentro deste sistema. E então, elas devem derrubá-lo.

Como será a escrita da história quando a sombra da dominação for removida e as definições forem compartilhadas igualmente entre homens e mulheres? Iremos desvalorizar o passado, destruir as categorias, suplantar a ordem com o caos?

Não. Nós iremos simplesmente caminhar abaixo do céu. Iremos observar as mudanças, o nascer das estrelas e os ciclos lunares, e descreveremos a terra e seu funcionamento por vozes masculinas e femininas. Podemos, afinal, ver de forma mais rica. Nós sabemos agora que o homem não é a medida do que é um humano, mas sim homens e mulheres. Homens não são o centro do mundo, mas sim homens e mulheres. Esta ideia vai transformar a consciência decisivamente assim como a descoberta de Copérnico de que a terra não era o centro do universo.

Nós podemos atuar de acordo com nossos papéis distintos no palco, às vezes mudando-os ou mantendo-os, como acharmos conveniente. Nós podemos descobrir novos talentos entre aqueles que sempre viveram debaixo da sombra de outro papel. Nós podemos descobrir que aqueles que já haviam tomado a responsabilidade tanto da ação quanto da definição podem agora ter mais liberdade para atuar e experimentar a pura alegria da existência. Nós não somos mais obrigados a descrever o que encontramos no final, não como os navegadores que viajaram até o outro lado do mundo para descobrir que a terra é redonda.

Nunca saberemos a não ser que comecemos. O processo por si mesmo é o caminho, o objetivo.

Eu quero uma trégua de 24 horas sem estupro – Andrea Dworkin (Tradução)

Texto Original

Eu tenho pensado bastante sobre como uma feminista, como eu, pode se dirigir a um público composto majoritariamente de homens politizados que dizem ser contra o machismo. E pensei muito sobre se deveria haver uma diferença qualitativa no discurso que dirijo a vocês. E me dei conta que era incapaz de simular que existe uma diferença qualitativa. Eu tenho observado os movimentos masculinos por muitos anos. Eu sou próxima de muitas pessoas que participam desses movimentos. Não posso vim aqui como uma amiga, embora eu quisesse muito. O que eu gostaria de fazer era gritar: e nesse grito, eu teria os gritos das estupradas, e o soluço das espancadas, e ainda pior, no centro desse grito, eu teria o ensurdecedor som do silêncio das mulheres, esse silêncio com o qual nascemos porque somos mulheres, e com o qual muitas de nós morrem.

E se houvesse um apelo ou uma pergunta ou uma expressão humana nesse grito, seria este: porque vocês são tão lentos? Porque vocês são tão lentos para entender as coisas mais simples; não as complicadas coisas ideológicas. Vocês entendem essas. As coisas simples. Os clichês. Simplesmente que mulheres são humanas exatamente na mesma medida e maneira que vocês.

E também: nós não temos tempo. Nós, mulheres. Nós não temos para sempre. Algumas de nós não têm uma semana ou um dia para vocês discutirem o que seja que vá permitir que vocês saiam às ruas e façam algo. Nós estamos muito próximas da morte. Todas as mulheres estão. E nós estamos muito próximas do estupro e estamos muito próximas do espancamento. E nós estamos dentro de um sistema de humilhação onde não há escapatória para nós. Nós usamos estatísticas não para quantificar as feridas, mas para convencer ao mundo que as feridas existem. Estas estatísticas não são abstrações. É fácil dizer “ah, as estatísticas, uns as escrevem para um lado e outros para o outro”. É verdade. Mas eu escuto sobre estupros um por um por um por um por um, que também é como eles acontecem. Estas estatísticas não são abstratas para mim. A cada três minutos uma mulher é estuprada. A cada dezoito segundos uma mulher é espancada. Não há nada de abstrato nisso. Está acontecendo agora enquanto eu falo.

E está acontecendo por um simples motivo. Não há nada de complexo e difícil sobre o motivo. Homens estão fazendo isso, por causa do tipo de poder que homens têm sobre mulheres. Esse poder é real, concreto, exercido de um corpo para outro corpo, exercido por alguém que sente que tem o direito de exercer isso, exercido em público e em privado. É a soma e substância da opressão das mulheres.

Isso não é feito há cinco mil milhas ou três mil milhas de distância. Isso é feito aqui e está sendo feito agora e é feito pelas pessoas nesta sala, assim como por outros contemporâneos: nossos amigos, nossos vizinhos, pessoas que conhecemos. Mulheres não precisam ir à escola para aprender sobre poder. Nós precisamos apenas ser mulheres, andando pela rua ou tentando terminar o trabalho doméstico após termos dado nosso único corpo em casamento e ter perdido os direitos sobre ele.

O poder exercido por homens dia após dia é um poder institucionalizado. É protegido por lei. É protegido pela religião e pela prática religiosa. É protegido pelas universidades, que são fortalezas da supremacia masculina. É protegido pela força policial. É protegido por aqueles que Shelley chamou de “os irreconhecidos legisladores do mundo”: os poetas, os artistas. Contra esse poder, nós temos silêncio.

É algo extraordinário tentar entender e confrontar o porquê que homens acreditam – e eles acreditam – que eles tenham o direito de estuprar. Homens podem não confirmar isso quando perguntados. Todos que acreditam que tem o direito de estuprar levantem suas mãos. Não muitos irão levantar. É na vida que homens acreditam que eles têm o direito de forçar sexo, o qual eles não chamam de estupro. E é algo extraordinário tentar entender que homens realmente acreditam que eles têm o direito de bater e machucar. E é algo igualmente extraordinário tentar entender que homens realmente acreditam que eles podem comprar o corpo de uma mulher para o sexo: e que isso é um direito. E é muito impressionante tentar entender que homens acreditam que uma indústria de sete bilhões de dólares por ano que os fornece bocetas é algo que eles tenham direito.

Este é o modo pelo qual o poder masculino se manifesta na vida real. Isto é o que a teoria sobre a supremacia masculina significa. Significa que vocês podem estuprar. Significa que vocês podem bater. Significa que vocês podem machucar. Significa que vocês podem comprar e vender mulheres. Significa que há uma classe de pessoas para providenciar para vocês o que vocês precisam. Vocês continuam mais ricos que elas, para que então elas possam te vender sexo. Não apenas nas ruas e nos cantos, mas no trabalho. Este é outro direito que vocês presumem ter: acesso sexual a qualquer mulher em sua volta, quando vocês quiserem.

Agora, o movimento masculino sugere que homens não querem este tipo de poder que eu acabei de descrever. Na verdade, eu escutei sentenças inteiras para este efeito. E ainda, tudo é uma razão para não fazer algo sobre mudar o fato de que vocês tem este poder.

A minha desculpa masculina favorita é quando eles se escondem atrás da culpa. Eu adoro. Ah, é horrível, sim, e eu sinto muito. Vocês tem tempo para se sentirem culpados. Nós não temos tempo para vocês sentirem culpa. Sua culpa é uma forma de consentimento para que continue acontecendo. Sua culpa ajuda deixar as coisas como elas são.

Eu tenho escutado nos últimos anos muita coisa sobre o sofrimento dos homens causado pelo sexismo. Claro, eu tenho escutado bastante sobre o sofrimento dos homens por toda minha vida. É dispensável dizer que eu li Hamlet. Eu li Rei Lear. Eu sou uma mulher educada. Eu sei que homens sofrem. Esta é um novo problema. Implícita na ideia de que este é um tipo diferente de sofrimento está a afirmação, eu acredito, de que em parte vocês estão na verdade sofrendo por causa de algo que vocês sabem que acontece com outra pessoa. Isto seria realmente novo. 

Mas a maior parte da sua culpa, do seu sofrimento, se reduz à: nossa, me sinto tão mal. Tudo faz homens se sentirem mal: o que você faz, o que você não faz, o que você quer fazer, o que você não quer querer fazer, mas vai fazer de qualquer forma. Eu acho que a maior parte do seu sofrimento é: nossa, me sinto tão mal. E sinto muito que vocês se sintam mal – tão inutilmente e estupidamente mal – porque de certa forma esta é realmente sua tragédia. E eu não quero dizer que é porque vocês não podem chorar. E eu não quero dizer que é porque não há real intimidade nas suas vidas. E eu não quero dizer que é por causa da armadura que vocês têm de usar para serem como homens, que é estúpida: e eu não duvido que seja. Mas eu não quero dizer nada disso.

Eu quero dizer que há uma relação entre a forma que mulheres são estupradas e a sua socialização para estuprar com a máquina de guerra que os tritura e os cospe para fora: a máquina de guerra por onde vocês passam assim como mulheres passaram pelo triturador de carne de Larry Flynt na capa da Hustler. É melhor vocês acreditarem que estão envolvidos nessa tragédia e que ela é sua também. Porque vocês são tornados em pequenos soldados desde o dia que nasceram e tudo que vocês aprenderam sobre como evitar a humanidade de mulheres se torna parte do militarismo do país no qual vocês vivem e o mundo que vocês vivem. É também parte da economia que vocês frequentemente afirmam protestar contra.

E o problema é que vocês pensam que está lá fora: e não está lá. Está em você. Os cafetões e os militaristas falam por vocês. Estupro e guerra não são tão diferentes. E o que os cafetões e militaristas fazem é que eles lhes deixam tão orgulhosos de serem homens que conseguem ficar de pau duro e meter com força. E eles pegam essa sexualidade aculturada, os botam em pequenos uniformes e os mandam para matar e morrer. Agora, eu não vou fingir para vocês que eu acho que isso é mais importante que o que vocês fazem a mulheres, porque eu não acho.

Mas eu penso que se vocês querem olhar para o que esse sistema faz a vocês, então aqui é onde vocês deviam começar a procurar: as políticas sexuais da agressão; as políticas sociais do militarismo. Eu acredito que os homens têm muito medo de outros homens. Isto é algo que vocês às vezes tentam expressar em seus pequenos grupos, como se, se vocês mudassem suas atitudes acerca de cada um, vocês não ficariam com medo uns dos outros.

Mas enquanto sua sexualidade tiver haver com agressão e seu senso de direito a humanidade tiver haver com ser superior a outras pessoas, e houver tanto desprezo e hostilidade em suas atitudes com mulheres e crianças, como vocês não poderiam ter medo uns dos outros? Eu acredito que vocês corretamente perceberam – sem estar dispostos a encararem isto politicamente – que homens são muito perigosos: porque vocês são.

A solução do movimento dos homens de fazer homens menos perigosos uns aos outros pela mudança da forma como vocês se tocam e se sentem não é uma solução. É um recreio.

Estas conferências também estão preocupadas com homofobia. Homofobia é muito importante: é muito importante para a forma como a supremacia masculina funciona. Em minha opinião, as proibições contra a homossexualidade masculina existem para proteger o poder masculino. Faça isto com ela. Isto é dizer: enquanto homens estuprarem, é muito importante que homens estuprem mulheres. Enquanto o sexo for cheio de hostilidade e exprimir tanto o desprezo e poder sobre outra pessoa, é muito importante que homens não sejam desclassificados, estigmatizados e usados similarmente como mulheres. O poder dos homens enquanto uma classe depende em manter a sexualidade masculina inviolada e a sexualidade feminina sendo usada por homens. Homofobia ajuda a sustentar este poder de classe: isto também ajuda a manter vocês indivíduos salvos entre os outros, salvos do estupro. Se vocês querem fazer algo sobre homofobia, vocês vão ter que fazer algo sobre o fato de que homens estupram, e que sexo forçado não é incidental a sexualidade masculina, mas é em prática paradigmático.

Alguns de vocês estão muito preocupados sobre a ascensão da Direita neste país, como se isso fosse algo separado das questões do feminismo ou do movimento masculino. Há um bom cartoon que eu vi que traz tudo isso junto. Era uma grande foto de Ronald Reagan como um cowboy com um grande chapéu e uma arma. E dizia “Uma arma em cada coldre; uma mulher grávida em cada casa. Faça a América um homem de novo.” Estas são as políticas da Direita. Se vocês estão com medo da ascensão do fascismo neste país – e vocês seriam muito idiotas se não estivessem agora – então, é melhor vocês entenderem que a raiz da questão aqui tem haver com a supremacia masculina e o controle de mulheres; acesso sexual às mulheres; mulheres como escravas reprodutivas; mulheres como propriedades privadas. Este é o programa da Direita. Esta é a moralidade sobre a qual eles falam. Isto é o que eles querem dizer. Isto é o que eles querem. E a única oposição a eles que importa é uma oposição a homens possuindo mulheres.

O que há de complexo em fazer algo sobre isso? O movimento masculino parece permanecer preso em dois pontos. O primeiro é que homens realmente não se sentem bem consigo mesmos. Como vocês poderiam? O segundo é que homens vêm a mim ou a outras feministas e dizem: “O que você está dizendo sobre homens não é verdade. Não é verdade para mim. Eu não me sinto dessa forma. Eu sou contra tudo isso.”

E eu falo: não diga para mim. Diga aos pornógrafos. Diga aos cafetões. Diga aos donos da guerra. Diga aos apologistas do estupro e aos celebradores do estupro e os ideólogos pró-estupro. Diga aos novelistas que pensam que estupro é algo maravilhoso. Diga à Larry Flynt. Diga à Hugh Hefner. Não há porque dizer para mim. Eu sou apenas uma mulher. Não há nada que eu possa fazer sobre isso. Esses homens presumem que falam por vocês. Eles estão na arena pública dizendo que representam vocês. Se eles não representam, então é melhor que vocês os deixem sabendo disso.

Depois, há o mundo privado da misoginia: o que vocês sabem sobre cada um; o que vocês falam na vida privada; a exploração que vocês veem na esfera privada; os relacionamentos chamados de amor, baseados na exploração. Não é o bastante encontrar uma feminista viajando pela estrada e ir até ela para dizer: “Nossa, eu odeio tudo isso”.

Digam isso aos seus amigos que estão fazendo isso. E há ruas lá fora onde vocês podem dizer isto alto e claro, de modo a afetar as atuais instituições que sustentam estes abusos. Vocês não gostam de pornografia? Eu gostaria poder acreditar que isto é verdade. Eu vou acreditar quando eu os olhar nas ruas. Eu vou acreditar nisso quando eu olhar uma oposição política organizada. Eu vou acreditar nisto quando os cafetões saírem dos negócios porque não há mais consumidores.

Vocês querem organizar homens. Vocês não tem que procurar por acontecimentos. Os acontecimentos são parte da fábrica das suas vidas todo dia.

Eu quero falar a vocês sobre igualdade, o que igualdade é e o que significa. Isto não é apenas uma ideia. Isto não é apenas uma palavra insípida que acaba sendo besteira. Isto não tem nada a ver com todas estas declarações como: “Ah, isso acontece com homens também”. Eu nomeio um abuso e escuto: “Ah, isso acontece com homens também”. Esta não é a igualdade pela qual nós estamos lutando. Nós poderíamos mudar nossa estratégia e dizer: bom, ok, nós queremos igualdade; nós vamos enfiar algo no traseiro dos homens a cada três minutos.

Vocês nunca ouviram isso do movimento feminista, porque para nós igualdade tem real dignidade e importância – não é apenas uma palavra idiota que pode ser deturpada e feita parecer estúpida como se ela não houvesse real significado.

Uma vaga ideia sobre desistir do poder como uma forma de praticar igualdade é inútil. Alguns homens têm vagos pensamentos sobre um futuro onde homens vão desistir do poder ou um homem individual vai desistir de algum tipo de privilégio que ele tem. Isto também não é o que igualdade quer dizer.

Igualdade é uma prática. É uma ação. É uma forma de vida. É uma prática social. É uma prática econômica. É uma prática sexual. Ela não pode existir num vácuo. Vocês não podem ter isto em suas casas se, quando as pessoas saem de casa, ele está num mundo de supremacia baseado na existência do seu pau, e ela está num mundo de humilhação e degradação porque ela é percebida como inferior e porque sua sexualidade é uma praga.

Isto não é dizer que o esforço para praticar igualdade em casa não importa. Importa, mas não é o bastante. Se vocês amam igualdade, se vocês acreditam nisso, se esta é a maneira que vocês querem viver – não apenas homens e mulheres juntos numa casa, mas homens juntos em uma casa e mulheres juntas em uma casa – se igualdade é o que vocês querem e com o que vocês se importam, então vocês tem que lutar pelas instituições que a fará socialmente real. Não é apenas uma questão da sua atitude. Você não pode pensar nela e fazê-la existir. Você não pode tentar às vezes, quando funcionar a seu favor, e jogá-la fora o resto do tempo. Igualdade é disciplina. É uma maneira de vida. É uma política necessária criar igualdade em instituições. E outra coisa sobre igualdade é que ela não pode coexistir com estupro. Não pode. E não pode coexistir com pornografia ou com prostituição ou com a degradação econômica de mulheres em qualquer nível, de qualquer forma. Não pode coexistir, porque implícito em todas estas coisas está a inferioridade das mulheres.

Eu quero ver este movimento de homens fazer um compromisso para acabar com o estupro, porque este é o único compromisso significativo para igualdade. É surpreendente que em todos nossos mundos de feminismo e anti-sexismo, nós nunca falamos seriamente sobre acabar com estupro. Acabar. Interromper. Não mais. Não mais estupro. No fundo das nossas mentes, nós estamos aguentando sua inevitabilidade como última chance de preservar o biológico? Vocês pensam que isso sempre vai existir não importa o que façamos? Todas as nossas ações políticas são mentiras se nós não fizermos um compromisso para acabar com a prática do estupro. Esse compromisso deve ser político. Deve ser sério. Deve ser sistemático. Deve ser público. Ele não pode ser autoindulgente.

As coisas que o movimento masculino tem desejado valem a pena. Intimidade vale a pena. Ternura vale a pena. Cooperação vale a pena. Uma vida emocional real vale a pena. Mas vocês não podem tê-los em um mundo com estupro. Acabar com a homofobia está valendo a pena. Mas vocês não podem fazê-lo em um mundo com estupro. O estupro fica na frente do caminho de cada um e todas as coisas que vocês dizem que querem. E por estupro vocês sabem o que eu quero dizer. Um juiz não precisa entrar nesta sala e dizer que de acordo com a lei tal e tal estes são elementos de prova. Nós estamos falando de qualquer tipo de sexo coagido, incluindo sexo coagido por pobreza.

Vocês não podem ter igualdade ou ternura ou intimidade enquanto houver estupro, porque estupro significa terror. Significa que parte da população vive em um estado de terror e finge – para agradar e pacificar vocês – que não vive. Então, não há honestidade. Como pode haver? Vocês podem imaginar como é viver como uma mulher dia após dia com a ameaça do estupro? Ou como é viver com a realidade? Eu quero ver essa força, essa coragem e esses corpos lendários e a ternura que vocês dizem que tem em nome das mulheres; e isso significa contra os estupradores, contra os cafetões e contra os pornógrafos. Significa algo mais que uma renúncia pessoal. Significa um ataque sistemático, político, ativo e público. E tem ocorrido muito pouco disso.

Eu vim aqui hoje porque eu não acredito que o estupro é inevitável ou natural. Se eu acreditasse, eu não teria razão para estar aqui. Se eu acreditasse, minha prática política seria diferente dessa. Vocês já se perguntaram por que nós não entramos em um combate armado contra vocês? Não é porque não há uma escassez de facas de cozinhas neste país. É porque nós acreditamos na humanidade de vocês, contra todas as evidências.

Nós não queremos fazer o trabalho de ajudar vocês a acreditarem em sua humanidade. Nós não podemos fazer mais isso. Nós sempre tentamos. E em troca, temos sido pagas com exploração e abusos sistemáticos. Vocês vão ter que fazer isso sozinhos de agora em diante e vocês sabem disso.

A vergonha dos homens diante das mulheres é, eu acho, uma resposta apropriada tanto a o que homens fazem e o que homens não fazem. Eu acredito que vocês deveriam está envergonhados. Mas o que vocês fazem com a vergonha de vocês é usá-la como uma desculpa para continuar fazendo o que vocês querem e mais nada; e vocês tem que parar. Vocês precisam parar. Sua psicologia não importa. O quanto vocês estão machucados não importa no final mais do que o quanto nós estamos. Se tivéssemos nos sentado e apenas falado sobre o quanto o estupro nos machuca, vocês acreditam que teria acontecido alguma das mudanças que vocês tem visto neste país nos últimos quinze anos? Não haveria.

É verdade que nós temos que falar com as outras. De que outra forma, afinal, conseguiríamos descobrir que nós não fomos as únicas mulheres no mundo que não estavam pedindo por isso, mas a quem o estupro e o espancamento aconteceu? Nós não poderíamos ler nos jornais. Não poderíamos encontrar um livro sobre isso. Mas vocês sabem e agora a questão é sobre o que vocês vão fazer; a questão não é sobre sua vergonha e sua culpa. Elas não importam para nós. Elas não são boas o bastante. Elas não fazem nada.

Como uma feminista, eu carrego o estupro de todas as mulheres com quem eu tenho falado pessoalmente nos últimos dez anos. Como uma mulher, eu carrego meu próprio estupro comigo. Vocês se lembram das fotos que viram das cidades europeias durante a peste, onde as pessoas pegavam cadáveres e os jogavam dentro dos carrinhos de mão que passavam? Bem, é assim que é saber sobre o estupro. Pilhas e pilhas de corpos que têm vidas inteiras e nomes humanos e rostos humanos.

Eu falo por muitas feministas, não apenas por mim mesma, quando eu digo a vocês que eu estou cansada do que eu sei e triste além de quaisquer palavras sobre o que já foi feito a mulheres até este ponto, agora, às 2:24pm desse dia, aqui neste lugar.

E eu quero um dia de trégua, um dia de folga, um dia onde novos corpos não serão empilhados, um dia onde não haja novas agonias acrescentadas às antigas, e eu estou pedindo que vocês me deem isso. E como eu poderia pedir menos? É tão pouco. E como vocês poderiam me oferecer menos: é tão pouco. Mesmo nas guerras, há dias de trégua. Vão e organizem as tréguas. Parem o lado de vocês por um dia. Eu quero uma trégua de vinte e quatro horas sem estupro.

Eu os atrevo a tentarem isso. Eu exijo que vocês tentem. Eu não me importo de implorar para que vocês tentem. Por qual outro motivo vocês possivelmente estariam aqui? O que mais esse movimento poderia significar? O que mais poderia significar tanto?

E neste dia, no dia da trégua, no dia que nenhuma mulher for estuprada, nós começaremos a real prática da igualdade, porque não poderemos começá-la antes desse dia. Antes desse dia ela não significará nada, porque ela não é nada: não é real; não é verdadeira. Mas nesse dia, ela começará a ser real. E então, ao invés de estupros, pela primeira vez nas nossas vidas – homens e mulheres – começaremos a experimentar a liberdade.

Se vocês tem uma concepção de liberdade que inclui a existência de estupro, vocês estão errados. Vocês não poderão mudar o que vocês desejam. Por mim mesma, eu quero experimentar apenas um dia de liberdade real antes que eu morra. Eu os deixo aqui para fazer isso por mim e pelas mulheres que vocês dizem que amam.

Ligação

SCUM Manifesto – Valerie Solanas

“Viver nesta sociedade significa, se tiver sorte, morrer de tédio; nada diz respeito às mulheres; então, àquelas dotadas de uma mente cívica, de sentido de responsabilidade e de busca por emoções, só resta uma possibilidade: derrubar o governo, eliminar o sistema monetário, instaurar a automatização completa e destruir o sexo masculino.”

Valerie Solanas

SCUM Manifesto