[Tradução] 3° cap. de Our Blood – Andrea Dworkin

Lembrando as Bruxas

Eu dedico essa conversa à Elizabeth Gould Davis, autora de The First Sex, que se suicidou há vários meses e que foi uma vítima de estupro até o fim da sua vida; à Anne Sexton, poetisa que se suicidou em 4 de outubro de 1974; à Inez García, mãe e esposa de 30 anos que há poucas semanas foi sentenciada na Califórnia a 5 anos de prisão por matar o homem de 300 quilos que a segurava enquanto outro a estuprava; e à Eva Diamond, de 26 anos, cujo filho lhe foi tirado há cinco anos quando foi declarada uma mãe ruim por ter sido condenada por fraude de bem estar e que há alguns meses foi sentenciada a 15 anos de prisão em Minnesota por matar seu marido enquanto ele a espancava até quase matá-la.

Estamos aqui hoje para falar sobre genocídio. Genocídio é o aleijamento, estupro e/ou assassinato de mulheres por homens. Genocídio é a palavra que designa a violência implacável perpetuada pela classe masculina contra a classe feminina.

Por exemplo, o enfaixamento dos pés de mulheres na China é uma forma de genocídio. Por mil anos na China todas as mulheres eram sistematicamente aleijadas para que assim elas fossem passivas e objetos eróticos para os homens; para que elas fossem propriedades carnais; para que elas fossem totalmente dependes dos homens para terem comida, água, abrigo e roupas; para que elas não pudessem andar, ou fugirem, ou se unirem contra o sadismo dos seus opressores.

Outro exemplo de genocídio é o estupro sistemático de mulheres em Bangladesh. Lá, o estupro de mulheres fazia parte da estratégia militar dos exércitos invasores. Como muitos de vocês sabem, é estimado que entre 200,000 e 400,000 mulheres foram estupradas pelos soldados invasores e quando a guerra chegou ao fim, essas mulheres foram consideradas impuras por seus maridos, irmãos e pais e foram abandonadas para se prostituirem e morrerem de fome. O genocídio de Bangladesh foi primeiro perpetuado pelos homens invasores e depois pelos homens que lá viviam – os maridos, irmãos, pais: foi perpetuado pela classe masculina contra a classe feminina.

Hoje à noite, no Halloween, iremos nos lembrar de outro genocídio: o assassinato em massa de nove milhões de mulheres que foram chamadas de bruxas. Essas mulheres, nossas irmãs, foram mortas em um período de 300 anos na Alemanha, Espanha, Itália, França, Holanda, Suíça, Inglaterra, País de Gales, Irlanda, Escócia e América. Elas foram mortas em nome de Deus, o Pai e Seu único Filho, Jesus Cristo.

A perseguição organizada das bruxas começou oficialmente em 9 de Dezembro de 1484. O Papa Inocêncio VIII nomeou dois monges dominicanos, Heinrich Kramer e James Sprenger, como inquisidores e pediu aos bons padres para definirem a bruxaria, isolar o modus operandi das bruxas e padronizar os procedimentos de julgamento e condenação. Kramer e Sprenger escreveram um texto chamado Malleus Maleficarum. Esse texto era a alta teologia Católica e trabalhava com a jurisprudência Católica. Ele pode ser comparado com a constituição americana. Era a lei. Qualquer um que o desafiasse, contestasse sua autoridade ou questionasse sua credibilidade em qualquer nível era culpado de heresia, um crime capital.

Antes de discutir o conteúdo do Malleus Maleficarum, eu quero ser clara sobre as informações estatísticas que nós temos sobre as bruxas. O valor total de nove milhões de mulheres assassinadas é um valor moderado. É o número usado mais frequentemente por estudiosos do campo. A proporção de mulheres queimadas para homens é variadamente estimada em 20-1 e 100-1.

A bruxaria era um crime feminino e boa parte do texto do Malleus explica o porque. Primeiro, Jesus Cristo nasceu, sofreu e morreu para salvar os homens, não as mulheres. Portanto, as mulheres eram mais vulneráveis as tentações de Satã. Em segundo, uma mulher é “mais carnal que um homem, como resultado das suas muitas abominações carnais”. Esse excesso de carnalidade se originou na criação de Eva: ela foi formada de uma costela torta. Por causa desse defeito, as mulheres são sempre enganadoras. Em terceiro, por definição as mulheres são perversas, maliciosas, falsas, estúpidas e irremediavelmente más: “Eu prefiro morar com um leão e um dragão que habitar uma casa com uma mulher perversa… Toda perversidade é pequena comparada à perversidade de uma mulher… Quando uma mulher pensa sozinha, ela pensa no mal”. Quarto, mulheres são mais fracas que os homens física e mentalmente e intelectualmente são como crianças. Quinto, as mulheres são “mais amargas que a morte” porque todos os pecados se originaram das mulheres, e porque mulheres são “aduladoras e inimigas secretas”. Finalmente, a bruxaria era um crime feminino porque “toda bruxaria se origina do desejo sexual, o qual para a mulher é insaciável”.

Eu quero que você se lembre de que estas não são as polêmicas de aberrantes; essas são as convicções de estudiosos, advogados e juízes. Eu quero que você se lembre de que nove milhões de mulheres foram queimadas vivas.

As bruxas foram acusadas de voarem, terem relações carnais com Satã, ferirem o gado, causarem chuvas de granizo e tempestades, causarem doenças e epidemias, seduzirem homens, transformarem homens e si mesmas em animais, transformarem animais em pessoas, cometerem atos de canibalismo e assassinato, roubarem genitais masculinos e causarem o desaparecimento de genitais masculinos. Na verdade, este último – o desaparecimento de genitais masculinos – era motivo para se ter direito ao divórcio nas leis católicas. Se o genital de um homem ficasse invisível por mais de três anos, sua esposa tinha direito ao divórcio.

Seria difícil localizar na gigantesca massa de misoginia do texto de Sprenger e Kramer a acusação mais odiosa, inacreditável e ridícula, mas eu acredito que a encontrei. Eles escreveram:

E então, o que é para ser pensado dessas bruxas que […] coletam genitais masculinos em grandes números, uns vinte ou trinta membros juntos, e os botam em um ninho ou em uma caixa, onde eles se movem como membros vivos e comem aveia e milho, como já foi testemunhado por muitos e são comuns os relatos?

O que, então? O que devemos pensar? O que devem pensar aqueles de nós que cresceram católicos, por exemplo? Quando vemos que padres estão fazendo exorcismos nos subúrbios americanos, que a crença na bruxaria ainda é um fundamento na teologia católica, o que devemos pensar? Quando descobrimos que Lutero revigorou este genocídio através de suas muitas confrontações com Satã, o que devemos pensar? Quando descobrimos que o próprio Calvin queimou bruxas e que ele pessoalmente supervisionou a caça às bruxas em Zurique, o que devemos pensar? Quando descobrimos que o medo e o nojo da carnalidade feminina está codificado nas leis judaicas, o que devemos pensar?

Algumas de nós têm uma visão de mundo bem pessoal. Nós dizemos que o que acontece conosco em nossas vidas como mulheres, acontece conosco como indivíduos. Nós dizemos até que qualquer violência que passamos em nossas vidas como mulheres – por exemplo, estupros ou agressões por maridos, amantes ou estranhos – aconteceu entre dois indivíduos. Algumas de nós ainda se desculpam pelo agressor – nós sentimos pena dele; nós dizemos que ele tem distúrbios pessoais, ou que ele foi provocado de uma dada forma, em um dado momento, por uma mulher em particular.

Homens nos dizem que eles também são “oprimidos”. Eles nos dizem que em suas vidas individuais eles frequentemente são vitimizados por mulheres – pelas mães, esposas e “namoradas”. Eles nos dizem que mulheres provocam atos de violência através da nossa carnalidade, malicia, avareza, vaidade ou estupidez. Eles nos dizem que a sua violência se origina em nós e que nós somos responsáveis por ela. Eles nos dizem que as suas vidas são cheias de dor e que nós somos a fonte dela. Eles nos dizem que como mães nós os ferimos irreparavelmente, que como esposas nós os castramos, que como amantes nós roubamos o seu sêmen, sua juventude e masculinidade – e nunca, nunca, como mães, esposas ou amantes nós damos o suficiente.

E o que devemos pensar? Porque se nós começarmos a juntar todos os exemplos de violência – os estupros, as agressões, os aleijamentos, os assassinatos, as chacinas; se nós lermos suas novelas, poemas, tratos políticos e filosóficos e percebermos que o que eles pensam de nós hoje era o que os Inquisidores pensavam de nós ontem; se percebermos que historicamente o genocídio não é algum erro, um excesso acidental, um terrível acaso, mas em vez disso, é a consequência lógica do que eles acreditam ser a nossa natureza dada por Deus ou biológica; então, nós finalmente iremos entender que embaixo do genocídio patriarcal está a realidade contínua das vidas das mulheres. E então, nós devemos olhar para cada uma – pela coragem de suportar isso e pela coragem de mudar.

A luta das mulheres, a luta feminista, não é uma luta por mais dinheiro por hora, por direitos iguais sob as leis masculinas ou por mais mulheres legisladoras que irão operar dentro dos limites das leis masculinas. Estas são todas medidas emergenciais designadas para salvar a vida de mulheres, quantas forem possíveis, hoje e agora. Mas estas reformas não vão conter o genocídio; estas reformas não vão acabar com a violência implacável da classe masculina contra a classe feminina. Estas reformas não vão parar a crescente epidemia de estupros neste país ou a epidêmica violência doméstica na Inglaterra. Elas não vão parar com as esterilizações de mulheres pobres negras e brancas que são vítimas de médicos que odeiam a carnalidade feminina. Estas reformas não vão esvaziar as instituições mentais cheias de mulheres que foram colocadas por parentes que as odeiam por se rebelarem contra os limites dos papéis femininos ou contra as condições da servidão feminina. Elas não vão esvaziar as prisões cheias de mulheres que para sobreviverem se prostituiram; ou que após terem sido estupradas, mataram seu estuprador; ou que enquanto eram espancadas, mataram o homem que as estava matando. Essas reformas não vão impedir homens de se aproveitarem do trabalho doméstico feminino, e nem vão impedir homens de reforçarem a identidade masculina vitimizando psicologicamente mulheres nos chamados relacionamentos “amorosos”.

E nenhuma acomodação pessoal com o sistema patriarcal vai parar com esse genocídio implacável. Sob o patriarcado, nenhuma mulher está segura para viver sua vida, para amar ou ser mãe. Sob o patriarcado, cada mulher é uma vítima, no passado, presente e futuro. Sob o patriarcado, cada filha de uma mulher é uma vítima, no passado, presente e futuro. Sob o patriarcado, cada filho de uma mulher é seu potencial traidor e inevitavelmente também o estuprador ou explorador de outra mulher.

Antes que pudermos viver e amar, nós teremos que nos aprimorar numa irmandade revolucionária. Isso significa que nós devemos parar de defender os homens que nos oprimem; que devemos nos recusar a alimentar, vestir e limpar após eles; que nós devemos impedir que eles tirem o seu sustento das nossas vidas. Significa que nós teremos que nos despir da identidade feminina que nos foi forçada – que nós teremos que nos despir de todos os traços do masoquismo que nos disseram que é sinônimo de ser mulher. Significa que teremos que atacar e destruir cada instituição, lei, filosofia, religião, costume e hábito deste patriarcado – que se alimenta do nosso sangue “sujo”, que é construído sobre o nosso trabalho “insignificante”.

O Halloween é a época apropriada para nos comprometermos com essa irmandade revolucionária. Nesta noite nos lembraremos de nossa morte. Nesta noite nos lembraremos de que nove milhões de mulheres foram mortas porque homens disseram que elas eram carnais, maliciosas e perversas. Nesta noite saberemos que hoje elas vivem através de nós.

Permita-nos renomear esta noite de Bruxas de Eva. Permita-nos fazer um minuto de silêncio: por todas as mulheres que foram vítimas do genocídio, da morte, que estão nas cadeias, em instituições mentais, que foram estupradas, esterilizadas contra suas vontades, brutalizadas. E permita-nos, nesta noite, consagrar nossas vidas para desenvolvermos esta irmandade revolucionária – as estratégias políticas, as ações feministas – que vai parar de uma vez por todas a violência devastadora contra nós.

Advertisements

One thought on “[Tradução] 3° cap. de Our Blood – Andrea Dworkin

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s