[Tradução] 2° cap. de Our Blood – Andrea Dworkin

A Renúncia da “Igualdade” Sexual

 

Em 1970, Kate Millet publicou Sexual Politics. Neste livro, ela provou para muitos de nós – que apostariam a vida em negação – que as relações sexuais, a literatura que as retrata, a postura psicológica que as explica, os sistemas econômicos que fixam as necessidades dessas relações, os sistemas religiosos que buscam controlá-las, são políticas. Ela nos mostrou que tudo que acontece a uma mulher em sua vida, tudo que a toca ou a forma, é político.

Mulheres feministas, isto é, mulheres que captaram sua análise e viram que ela explicava muito da real existência em suas vidas, tem tentado entender, lutar contra e transformar o sistema político chamado patriarcado que explora nosso trabalho, predetermina a posse de nossos corpos e nos diminui desde o dia que nascemos. Essa luta não tem a dimensão desse sistema, que é abstrato: ele tem nos tocado em cada parte das nossas vidas. Mas não tocou mais vividamente ou dolorosamente em lugar nenhum que nesta parte da nossa vida que chamamos de “amor” e “sexo”. No curso da nossa luta para nos libertarmos dessa opressão sistemática, um sério argumento tem se desenvolvido entre nós e eu quero trazê-lo para cá.

Alguns de nós tem se comprometido em todas as áreas, incluindo aquelas chamadas “amor” e “sexo”, com o objetivo de alcançar a igualdade, isto é, o estado de ser igual; a correspondência em quantidade, grau, valor, classificação, habilidade; personagens uniformes¹.  Outros de nós, e eu concordo com estes, não vemos a igualdade como um objetivo final próprio, suficiente, moral ou nobre. Nós acreditamos que ser igual onde justiça ou liberdade não são universais é simplesmente ser o mesmo que o opressor. É ter alcançando o estado de “personagens uniformes”.

Em local algum isto é tão claro quanto na sexualidade. O modelo sexual masculino é baseado na polarização da humanidade em homem/mulher, mestre/escravo, agressor/vítima, ativo/passivo. Este modelo sexual tem agora milhares de anos. Toda identidade masculina, seu poder econômico e civil, as formas de governo que eles desenvolveram, as guerras que eles conduzem, tudo isso está irrevogavelmente ligado. Todas as formas de dominação e submissão, seja de homens sobre mulheres, brancos sobre negros, chefes sobre trabalhadores, ricos sobre pobres, todas estão irrevogavelmente ligadas às identidades sexuais masculinas e derivam do modelo sexual masculino. Uma vez que entendemos isso, se torna claro que na verdade homens tem posse do ato sexual, da linguagem que descreve o sexo, as mulheres que eles objetificam. Homens escreveram o cenário de toda fantasia sexual que vocês já tiveram ou cada ato sexual que vocês já participaram.

Não há liberdade ou justiça em trocar o papel feminino pelo papel masculino. Há igualdade, sem dúvidas. Não há liberdade ou justiça em usar a linguagem masculina, a linguagem do nosso opressor, para descrever sexualidade. Não há liberdade ou justiça ou mesmo senso comum em desenvolver uma sensibilidade sexual masculina – uma sensibilidade sexual que é agressiva, competitiva, objetificadora, orientada pela quantidade. Há apenas igualdade. Acreditar que a liberdade ou justiça para mulheres, ou para alguma mulher em particular, pode ser encontrada na imitação da sexualidade masculina é se iludir e contribuir para a opressão de nossas irmãs.

Muitos de nós gostaríamos de acreditar que nos últimos quatro ou dez anos nós revertemos, ou ao menos impedimos, aqueles hábitos e costumes de milhares de anos atrás – os hábitos e costumes da dominação masculina. Não há fato para suportar isso. Você pode se sentir melhor, ou não, mas as estatísticas mostram que as mulheres estão mais pobres que nunca, que as mulheres estão sendo mais estupradas e mais assassinadas. Eu quero sugerir a vocês que um compromisso de igualdade sexual com homens, isto é, uniformizar os personagens, é um compromisso de se tornar o rico em vez do pobre, o estuprador em vez da estuprada, o assassino em vez da assassinada. Eu quero lhes pedir para fazerem um compromisso diferente – um compromisso de abolir a pobreza, o estupro e o assassinato; isto é, um compromisso para acabar com esse sistema de opressão chamado patriarcado; acabar com o modelo sexual masculino por si mesmo.

O verdadeiro âmago da visão feminista, o núcleo revolucionário, se quiserem, tem haver com a abolição dos papéis de gênero – isto é, uma absoluta transformação da sexualidade humana e das instituições derivadas dela. Neste trabalho, nenhuma parte do modelo sexual masculino deve ser posto em prática. Igualdade com a estrutura do modelo sexual masculino, mesmo que ele tenha sido reformado ou modificado, apenas irá perpetuar o modelo por si mesmo e a injustiça e servidão que são suas consequências intrínsecas.

Eu digo a vocês que a transformação do modelo sexual masculino sob todo trabalho e “amor” começa onde há uma congruência, não uma separação, uma congruência de sentimentos e interesse erótico; começa no que nós sabemos sobre a sexualidade feminina distinta da masculina – toque e sensibilidade clitorial, orgasmos múltiplos, sensibilidade erótica por todo o corpo (que não precisa – e não devia – ser localizada ou contida genitalmente) -, na ternura, no respeito próprio e absoluto respeito mútuo. Para os homens, eu suspeito que a sua transformação começa onde eles mais temem – isto é, num pênis flácido. Eu acredito que homens terão que abrir mão das suas preciosas ereções e começar a fazer amor como mulheres. Eu estou dizendo que homens terão que renunciar as suas personalidades falocêntricas e os seus privilégios e os poderes recebidos no nascimento devido a sua anatomia, que eles terão que cortar tudo neles que eles agora valorizam como distintamente “masculino”. Nenhuma reforma ou harmonização de orgasmos vai conseguir isso.

Eu li excertos do diário de Sophie Tolstoy que eu encontrei em um lindo livro chamado Revelations: Diaries of Women, editado por Mary Jane Moffat e Charlotte Painter.  Sophie Tolstoy escreveu:

E o essencial não é amar. Veja o que eu fiz por amá-lo tão profundamente! É tão doloroso e humilhante; mas ele pensa que isto é idiotice. “Você diz uma coisa e sempre faz outra”. Mas o que é o bom de argumentar nesta forma superior, quando eu não tenho nada em mim além deste amor humilhante e um mau temperamento; e estas duas coisas tem sido a causa de todas as minhas infelicidades, porque meu temperamento tem sempre interferido no meu amor. Eu não quero nada além do seu amor e simpatia e ele não me dará isto; e todo meu orgulho está esmagado na lama; Eu não sou nada além de um miserável verme esmagado, que ninguém quer, que ninguém ama, uma criatura inútil com enjoo matinal, uma grande barriga, dois dentes podres, um mau temperamento, um senso de dignidade esmagado e um amor que ninguém quer e que frequentemente me deixa louca.

Alguém realmente acredita que as coisas mudaram muito desde que Sophie Tolstoy escreveu isto no seu diário em 25 de Outubro de 1886? E o que vocês diriam a ela se ela viesse hoje aqui, a suas irmãs? Vocês dariam a ela um vibrador e a ensinariam como usá-lo? Vocês a ensinariam técnicas de boquete que talvez agradassem o senhor Tolstoy? Vocês a diriam que a sua salvação seria se tornar uma “atleta sexual”? Aprender a excursionar? Ter o mesmo tanto de amantes que o Leon teve? Vocês diriam a ela para começar a pensar em si mesma como uma “pessoa” e não como uma mulher?

Ou talvez vocês tenham encontrado a coragem, a determinação, a convicção para serem suas verdadeiras irmãs – para ajudá-la a livrar-se da longa escuridão da sombra do Leon; para unir-se a ela na mudança de toda organização desse mundo, ainda construído em 1974 para servi-lo, para forçá-la a servi-lo?

Eu digo a vocês que Sophie Tolstoy está aqui hoje nos corpos e vidas e muitas irmãs. Não falhem com ela.

¹ No original “uniform character, as of motion or surface” (non soube traduzir isso, gente, ajuda).

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