Relembre, resista, não se conforme! – Andrea Dworkin

Eu quero que pensemos sobre quão longe chegamos politicamente. Eu diria que realizamos o que é eufemisticamente chamado de “quebrar o silêncio”. Nós começamos a falar sobre acontecimentos, experiências, realidades e verdades jamais ditas antes; especialmente experiências que aconteceram com mulheres e que foram escondidas –experiências que a sociedade não nomeou, que os políticos não reconheceram; experiências que a lei não aborda do ponto de vista daquelas que foram feridas. Mas às vezes quando nós falamos sobre “quebrar o silêncio”, as pessoas conceitualizam “o silêncio” como algo superficial, como se houvesse conversa – murmurinho, na verdade – e sobre a conversa tivesse uma camada superficial de silêncio que tem a ver com modos e polidez. As mulheres são de fato ensinadas a serem vistas e não ouvidas. Mas estou falando aqui sobre um silêncio profundo: um silêncio que vai ao cerne da tirania, à sua natureza. Há uma tirania que define não somente quem pode dizer o que, mas o que as mulheres, especialmente, podem dizer. Há uma tirania que determina quem não pode dizer nada, uma tirania em que as pessoas são impedidas de dizer as coisas mais importantes sobre como a vida é para elas. É desse tipo de tirania que eu falo.

Os sistemas políticos em que vivemos são baseados neste silêncio profundo. Eles são baseados no que nós não temos dito. Particularmente, eles são construídos sobre o que as mulheres – as mulheres de todos os grupos raciais, de todas as classes, inclusive as mais privilegiadas – não têm dito. Os pressupostos fundamentais de nossos sistemas políticos também são baseados no que as mulheres não tem falado. Nossas ideias de democracia e igualdade –ideias que homens tiveram, ideias que expressam o que os homens acreditam ser democracia e igualdade –se desenvolveram na ausência das vozes, das experiências, das vidas e das realidades das mulheres. Os princípios de liberdade que nos foram enunciados como obviedades são princípios que foram alcançados apesar desse profundo silêncio: sem nossa participação. É esperado que nós todas compartilhemos e tomemos por certas as ideias comuns de justiça social e civil; mas essas ideias comuns são baseadas no nosso silêncio. O que é tido como normal na vida é baseado nesse mesmo silêncio. Gênero, em si – o que homens são, o que mulheres são –é baseado no silêncio forçado das mulheres. E as crenças sobre comunidade –o que comunidade é, o que comunidade deve ser – são baseadas nesse silêncio. Sociedades têm sido organizadas para manterem o silêncio das mulheres –o que sugere que nós não podemos quebrar esse silêncio sem mudar a maneira como as sociedades são organizadas.

Nós tivemos avanços no sentido de quebrar o silêncio profundo. Nós nomeamos a força como tal quando é usada contra nós, mesmo ela previamente tendo sido chamada de outra coisa. Costumava ser um direito legal, por exemplo, que os homens tinham no casamento. Eles podiam coagir suas esposas a ter relações sexuais e isso não era chamado de coerção ou estupro; era chamado de desejo ou amor. Nós desafiamos a velha ideologia da conquista sexual como um jogo natural no qual mulheres são alvos e homens são heróis conquistadores; e nós dissemos que o próprio modelo é predatório e que aqueles que atuam através de seus imperativos agressivos são predadores, não “amantes”. Nós dissemos isso. Nós identificamos o estupro; identificamos o incesto; identificamos o espancamento; identificamos a prostituição; identificamos a pornografia – como crimes contra a mulher, como meios de explorar a mulher, como maneiras de agredir a mulher que são sistemáticas e apoiadas pelos costumes das sociedades em que vivemos. Nós identificamos exploração sexual como abuso. Nós identificamos objetificação e a prática de tornar mulheres mercadorias de consumo como algo desumanizante, profundamente desumanizante. Nós identificamos a objetificação e a exploração sexual como mecanismos para criar inferioridade, verdadeira inferioridade. Não como um conceito abstrato, mas uma vida vivida como uma pessoa inferior na sociedade civil. Nós identificamos padrões de violência que ocorrem nos relacionamentos íntimos. Nós sabemos agora que a maioria dos estupros não são cometidos pelo estranho perigoso e predatório, mas pelo namorado, amante, marido, amigo, vizinho perigoso e predatório: o homem de que estamos mais próximas, não o homem que está mais distante.

E nós aprendemos mais sobre o estranho também. Aprendemos mais sobre as estratégias pelas quais eles nos tornam seus alvos e nos caçam. Nós nos recusamos a aceitar a presunção dessa sociedade de que a vítima é responsável pelo seu próprio abuso. Nós nos recusamos a concordar que ela provocou, que ela queria, que ela gostou. Estes são os dogmas básicos da pornografia, que nós rejeitamos. Tendo rejeitado a pornografia, nós rejeitamos o fundamentalismo da supremacia masculina, o qual simples e assumidamente define as mulheres como criaturas sub-humanas, que merecem ser machucadas, ofendidas e estupradas. Nós mudamos as leis, de modo que, por exemplo, estupros agora podem ser denunciados sem o requerimento de corroboração – o que significa que não há a necessidade de uma testemunha que tenha visto o estupro para que a mulher possa apresentar queixa. Antes era necessário. Uma mulher agora não tem que lutar até quase morrer para provar que resistiu. Se ela não estivesse sadicamente ferida –marcada de preto e azul, espancada com um cano de chumbo, que seja –costumava-se presumir que ela havia consentido. Nós patronizamos o modo como cada evidência é coletada em casos de estupro, para que a acusação ser ou não levada adiante não dependa de caprichos ou da competência dos agentes que investigam. Nós não fizemos nada disso para as mulheres que foram espancadas, embora tenhamos tentado fornecer algum refúgio, abrigo, uma rota de fuga. Nada do que nós fizemos para as mulheres que foram estupradas ou espancadas ajudou as mulheres que foram prostituídas.

Nós mudamos o reconhecimento social e jurídico de quem o criminoso é. Nós fizemos isso. Nós desafiamos o que parece ser a permanência da dominação masculina, desestabilizando-na, recusando a aceitá-la como realidade, como nossa realidade. Nós dissemos Não. Não, isso não é nossa realidade.

E embora tenhamos providenciado atendimento a vítimas de estupro, a mulheres espancadas, jamais fomos capazes de providenciar o suficiente. Eu digo para você que se qualquer sociedade levasse a sério o que significa ter metade de sua população sendo estuprada, espancada, tão frequentemente quanto mulheres são tanto nos Estados Unidos quanto no Canadá, estaríamos transformando prédios do governo em abrigos. Nós estaríamos abrindo nossas igrejas para as mulheres e dizendo “Vocês são donas desses espaços. Podem viver neles. Façam o que quiserem com eles”. Nós estaríamos entregando nossas universidades.

O que ainda precisa ser feito? Pensar sobre ajudar vítimas de estupros é uma coisa; pensar sobre acabar com o estupro é outra. E nós precisamos acabar com o estupro. Nós precisamos acabar com o incesto. Nós precisamos acabar com os espancamentos. Nós precisamos dar fim à prostituição e precisamos dar fim à Pornografia. Isso significa que nós precisamos nos recusar a aceitar que esses são fenômenos naturais que simplesmente acontecem porque algum cara está tendo um dia ruim.

Em cada país, a dominação masculina é organizada de maneira diferente. Em alguns países, as mulheres sofrem mutilação genital. Em alguns países, o aborto é forçado para que fetos do sexo feminino sejam sistematicamente abortados. Na China, o aborto forçado é um mandato estatal. Na Índia, uma economia de livre mercado força massas de mulheres a abortarem fetos do sexo feminino e, quando isso falha, a cometerem o infanticídio de bebês do sexo feminino. Pense o que políticas sobre aborto significam para as mulheres adultas, vivendo: o significado de seus status. Note que o conceito ocidental de escolha –crucial para nós –não abrange a situação das mulheres na China nem na Índia. A cada vez que nós olhamos para a situação das mulheres em um determinado país, nós temos que nos atentar para as maneiras como a dominação masculina está organizada nesse lugar. Nos Estados Unidos, por exemplo, nós temos o crescimento do número de serial killers. Eles são uma subcultura em meu país. Eles já não são pervertidos solitários. Fontes policiais, sempre conservadoras, estimam que todo dia aproximadamente 400 serial killers estão ativos nos Estados Unidos.

Na minha opinião, nós precisamos nos concentrar nos agentes dos crimes contra as mulheres em vez de nos perguntarmos de novo e de novo, porque isso aconteceu com ela? o que ela fez de errado? Porque ele deveria bater ou machucar ninguém: o que há de errado com ele? Ele é a questão. Ele é o problema. É dessa violência que nós nos encontramos fugindo, nos escondendo e sofrendo por ela. O movimento das mulheres deve estar disposto a nomear o agente, a nomear o opressor. O movimento das mulheres tem que se recusar a banir mulheres que carregam em si o cheiro fétido do abuso sexual, o odor, o estigma, o sinal. Precisamos nos recusar a banir mulheres  que foram agredidas mais de uma vez: estupradas várias vezes, espancadas várias vezes. Não distintas, não respeitáveis, sem lares agradáveis. Não há movimento das mulheres algum se ele não inclui as mulheres que estão sendo agredidas e as mulheres que possuem o mínimo. O movimento das mulheres tem que assumir os sistemas familiares de nossos países: sistemas em que crianças são estupradas e torturadas. O movimento das mulheres tem que assumir as mulheres espancadas que não escaparam –e nós devemos nos perguntar: por que? Não por que elas não escaparam, mas por que nós estamos nos conformando que elas ainda sejam cativas e prisioneiras.

Nós temos que tomar a prostituição como um problema: não como um problema a se discutir, mas como uma questão de vida ou morte. A maioria das mulheres prostituídas no Ocidente são vítimas de incesto que fugiram de casa, que foram estupradas, que são aliciadas ainda crianças – crianças estupradas, sem lar, pobres, abandonadas. Nós temos que assumir a questão da pobreza: não num sentido liberal de preocuparmo-nos de coração, mas em um sentido concreto, no mundo real. Temos que assumir o que significa resistir para as mulheres que não tem nada, porque quando mulheres não tem nada é de fato nada: sem casa, sem comida, sem abrigo, frequentemente sem alfabetização. Nós temos que parar de banalizar as agressões e ofensas à mulher da forma como nossos sistemas políticos fazem. Como alguém que foi espancada e já era e continua sendo agora uma mulher politicamente comprometida, vou te contar a diferença entre ser torturada por causa de suas ideias políticas ou engajamento ou ser torturado porque sua raça ou sexo é a diferença entre ter algum tipo de dignidade ou não ter nenhuma. Há uma diferença.

Nós não podemos mudar o que está errado com nosso feminismo se nós estamos dispostas a aceitar a prostituição de mulheres. Prostituição é estupro em série: o estuprador muda, mas a mulher estuprada permanece a mesma; o dinheiro lava as mãos dos homens. Em alguns países, as mulheres são vendidas como escravas sexuais, muitas vezes enquanto crianças. Em outros países –como Canadá e Estados Unidos –prostitutas são criadas através do abuso sexual infantil, especialmente incesto, pela pobreza e falta de moradia. Enquanto existirem clientes, em economias de livre mercado prostitutas serão criadas; para criar o suprimento necessário (desejado) de prostitutas, crianças têm que ser estupradas, pobres, desabrigadas. Nós não podemos aceitar isso; nós não podemos aceitar a prostituição.

Nós temos que ser capazes de processar o estupro conjugal com sucesso: obter condenações. Conseguir condenações de estupros conjugais e a eliminar a prostituição desafiam dois fins do mesmo “continuum”. Os homens são donos das mulheres ou não? Se os homens podem comprar e vender as mulheres nas ruas, sim, eles são donos das mulheres. Se os homens têm o direito de estuprar mulheres no casamento –até mesmo como um direito implícito, porque o júri não os irá condenar –sim, então homens são donos das mulheres. Somos nós que temos que dizer –em palavras, em ações, em políticas sociais, em leis –não, os homens não são donos das mulheres. Para fazer isto, precisamos de disciplina política. Nós precisamos levar a sério as consequências do abuso sexual para nós, para as mulheres. Nós temos que compreender o que o abuso sexual fez conosco – porque é tão difícil para nós nos organizarmos? Nós temos que compreender que o abuso sexual quebrou a gente em milhões de pedaços, e nós levamos esses pedaços batendo e espatifando dentro de nós: nós somos rocha quebrada por dentro; caos; assustadas e inseguras quando não frias e entorpecidas. Nós somos heroínas em resistir ao sofrimento; mas até o agora covardes na reação.

Há um tráfico global das mulheres; enquanto mulheres estiverem sendo compradas e vendidas num tráfico escravo internacional, nós não somos livres. Há uma crise de pornografia nos Estados Unidos. As mulheres nos Estados Unidos vivem numa sociedade saturada de brutalidade sexual, material exploratório que diz: estupre ela, bata nela, a machuque, ela vai gostar, é divertido pra ela. Nós precisamos colocar as mulheres em primeiro lugar. Certamente a liberdade da mulher deve significar mais para nós do que a liberdade dos cafetões. Nós precisamos fazer qualquer coisa que vá interromper a colonização dos corpos femininos. Precisamos nos recusar a aceitar os dados. Nós precisamos nos perguntar de quais direitos políticos nós precisamos enquanto mulheres. Não presuma que no século XVIII pensadores políticos homens tenham respondido essa questão e não presuma que quando seu próprio Charter ¹ foi reescrito no século XX essa questão tenha sido respondida. A questão não foi respondida. De que leis nós precisamos? O que seria liberdade para nós? Quais princípios são necessários para nosso bem-estar? Por que as mulheres estão sendo vendidas nas esquinas e torturadas em seus lares em sociedades que alegam serem baseadas na liberdade e na justiça? Que ações devem ser tomadas? O que isso vai nos custar e por que nós estamos com tanto medo de pagar e as mulheres que alcançaram algo com o movimento das mulheres têm medo de que a resistência ou a rebelião política ou mesmo um inquérito político vá lhes custar o pouco que têm obtido? Porque nós ainda estamos fazendo acordos com os homens, uma por uma enquanto deveríamos exigir coletivamente o que precisamos? Eu vou pedir para que você se lembre que, enquanto uma mulher está sendo comprada e vendida em qualquer lugar do mundo, você não está livre, você não está segura. Você também tem um número; algum dia, sua vez chegará. Eu vou pedir pra você se lembrar da prostituída, da desabrigada, da espancada, da estuprada, da torturada, da assassinada, da estuprada e assassinada em seguida, da assassinada e estuprada em seguida; e eu vou pedir pra você se lembrar das fotografadas, aquelas que qualquer uma ou todas as coisas acima aconteceram e que foram fotografas, e agora as fotografias estão à venda em nossos países livres. Eu quero que você pense naquelas que foram feridas para a diversão, o entretenimento e a tal “expressão” de outros; aquelas que foram feridas pelo lucro, para o benefício financeiro dos cafetões e empresários. Eu quero que você se lembre do agressor e eu vou te pedir pra lembrar-se das vítimas: não apenas hoje, mas amanhã e no dia seguinte. Eu quero que você encontre uma maneira de incluí-los –os agressores e as vítimas –no que você faz, em como você pensa, em como você age, com o que você se preocupa, com o que a vida significa para você.

Agora, eu sei, nesta sala, algumas de vocês são as mulheres sobre as quais eu estava falando. Eu sei disso. As pessoas em volta de vocês podem não saber. Vou pedir para você fazer uso de cada coisa que você possa se lembrar sobre o que fizeram com você –como isso foi feito, onde, por quem, quando, e, se você souber, por quê –para começar a rasgar a dominação masculina em pedaços, para destroçá-la, vandalizá-la, desestabilizá-la, destruí-la, para intervir e foder com ela. Eu tenho que lhe pedir para resistir, não se conformar, para destruir o poder que os homens têm sobre as mulheres, recusar a aceitar isso, para abominá-lo e fazer seja lá o que for necessário não importa o que custe para você mudar isso.

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