Citação

Trecho do livro ‘O Segundo Sexo’ – Simone de Beauvoir

“Em todas as civilizações, e até em nossos dias, ela inspira horror ao homem: é o horror da sua própria contingência carnal que ele projeta nela. A jovem ainda impúbere não encerra nenhuma ameaça, não é objeto de nenhum tabu, e não possui nenhum caráter sagrado. Em muitas sociedades primitivas seu sexo é considerado inocente. Os jogos eróticos são permitidos desde a infância entre meninos e meninas. É a partir do dia que se torna suscetível de conceber que a mulher fica impura.

Descreveram-se, muitas vezes, os severos tabus que nas sociedades primitivas cercam a jovem, quando de sua primeira menstruação; mesmo no Egito, onde era tratada com deferências especiais, a mulher permanecia isolada durante o período das regras. Muitas vezes expunham-na no telhado de uma casa, relegavam-na numa cabana fora da aldeia, não se devia vê-la nem tocá-la: mas ainda, ela própria não devia se tocar com as mãos. Entre os povos que praticam habitualmente o espiolhamento dão-lhe um pauzinho para se coçar. Ela não deve tocar os alimentos com os dedos. Por vezes, é-lhe radicalmente proibido comer; em outros casos a mãe e a irmã são autorizadas a alimentá-la por intermédio de um instrumento. Mas todos os objetos que entram em contato com ela durante esse período devem ser queimados. Depois dessa primeira provação,  os tabus menstruais tornam-se menos severos, mas permanecem rigorosos. Lê-se em particular no Levítico: “A mulher que tiver um fluxo de sangue em sua carne permanecerá sete dias na sua impureza. Quem a tocar será impuro até a noite. Todo leito que dormir… todo objeto  sobre o que se sentar será impuro. Quem a tocar em seu leito deverá lavar as roupas e a si próprio com água e será impuro até a noite.” Este trecho é exatamente simétrico ao que trata da impureza produzida no homem pela gonorréia. E o sacrifício purificador é idêntico em ambos os casos. Uma vez purificada, deve-se contar sete dias e trazer duas pombas ou dois pombos de leite ao sacrificador que os oferecerá ao Criador. É de observar que nas sociedades matriarcais, as atitudes atribuídas à menstruação são ambivalentes. Por um lado, ela paralisa as atividades sociais,  destrói a força vital, faz murcharem as flores, caírem os frutos; mas tem também efeitos benfazejos: os menstruos são utilizados nos filtros de amor, nos remédios, em particular para cortes e equimoses. Ainda hoje, certos índios quando partem para lutar com monstros quiméricos que frequentam seus rios, colocam à frente do barco um tampão de fibras impregnado de sangue menstrual,  cujas emanações são nefastas aos inimigos sobrenaturais. As jovens de certas cidades gregas ofereciam em homenagem no templo de Astarté, um trapo manchado com seu primeiro sangue. Mas desde o advento do patriarcado só se atribuíram poderes nefastos ao estranho licor que escorre do sexo feminino. {Simone nesse momento apresenta vários exemplos de como o menstruo continua sendo mal visto, tanto na literatura quanto no dia a dia. Ela cita exemplos de situações onde a mulher era proibida de passar por perto de certos lugares/ trabalhar em fábricas/ fazer comidas, porque supostamente o menstruo faria apodrecer certas coisas} […]

Seria muito insuficiente assimilar tais repugnâncias às que suscita o sangue em qualquer circunstância. Sem dúvida, o sangue é em si um elemento sagrado, penetrado mais do que qualquer outro pelo mana misterioso que é ao mesmo tempo vida e morte. Mais os poderes maléficos do sangue menstrual são mais singulares. Ele encarna a essência da feminilidade. É por isso que põe em perigo a própria mulher cuja mana assim de materializa. Durante a inicialização dos Chago, exortam-se as mulheres a dissimularem cuidadosamente seu sangue menstrual. “Não o mostres à tua mãe, ela morreria. Não o mostres às tuas companheiras pode haver uma maldosa que se aposse do pano com que te enxugaste e teu casamento seria estéril. Não o mostre à uma mulher má que pegará o pano e botará em cima de sua cabana… e não poderá mais ter filhos. Não joguem o pano no atalho nem no mato. Uma pessoa ruim pode fazer coisas feias com ele. Enterra-o no chão. Dissimula o sangue aos olhos de teu pai, de teus irmãos e de tuas irmãs.  Deixá-lo ver é um pecado.” (C.f . Lévi- Strauss, Les Structures élémentaire de la Parenté). Entre os Aleutas, se o pai vê a filha quando das primeiras regras, ela pode ficar cega ou muda. Pensa-se que, durante esse período,  a mulher é possuída por um espírito e carregada de forças perigosas. Certos primitivos acreditam que o fluxo é provocado pela picada de uma cobra, pois a mulher tem com a serpente e o largato suspeitas afinidades: o fluxo participaria do veneno do animal rastejante. O Levítico compara o fluxo menstrual à gonorréia, o sexo feminino sangrento não é apenas uma ferida, é uma chaga suspeita. E Vigny associa as noções de mácula e de doença quando escreve: “A mulher, criança doente é doze vezes impura.” Fruto de perturbadoras alquimias interiores a hemorragia periódica da mulher acerta-se estranhamente ao ciclo da lua: a lua tem também caprichos perigosos. A mulher faz parte da temível engrenagem que comanda os movimentos do planeta e do sol, é presa das forças cósmicas que regulam o destino das estrelas, das marés e cujas irradiações inquietantes o homem tem de suportar. Mas é principalmente impressionante que a ação do sangue esteja ligado a idéias de creme que azeda, de maionese que não se faz conscistente, de fermentação,  de decomposição; diz-se também que é capaz de provocar a quebra de objetos frágeis, de rebentar as cordas dos violinos e das harpas; mas tem sobretudo influência nas substâncias orgânicas a meio caminho entre a matéria e a vida; e isso menos por ser sangue do que por emanar dos órgãos genitais. Sem lhe conhecer sequer a função exata, sabe-se que está ligada a germinação da vida. Ignorando a existência do ovário, os Antigos viam mesmo nos menstruos o complemento do esperma. Em verdade,  não é esse sangue que faz da mulher uma impura; antes, ele manifesta a impureza. Aparece no momento em que a mulher pode ser fecundada e quanto desaparece, ela se torna em geral estéril; jorra do ventre em que se elabora o feto. Através dele exprime-se o horror que o homem sente ante a fecundidade feminina.”

Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo, pág 186 a 190

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Ligação

Heterossexualidade compulsória e existência lésbica – Adrienne Rich

Resumo:

Em clássico artigo feminista, a autora propõe a idéia da heterossexualidade como uma instituição política que retira o poder das mulheres. Ela desafia o apagamento da existência lésbica no pensamento feminista bem como no entendimento geral das relações de gênero na sociedade. O artigo trata da identificação entre mulheres em termos de uma agência politicamente motivada. Critica a ideologia que supervaloriza a heterocentricidade, mesmo entre feministas. De acordo com sua crítica, Rich coloca-se a favor de um continuum lésbico, que abarcaria um grande escopo de variedades de experiências de identificação entre mulheres. A existência lésbica deveria ser reconhecida historicamente e empodera as vidas de todas as mulheres.

Link do escrito 

Material Feminista 

Citação

“Sermos mulheres juntas não era o suficiente. Éramos diferentes. Sermos garotas homo juntas não era suficiente. Éramos diferentes. Sermos negras juntas não era suficiente. Éramos diferentes. Sermos mulheres negras juntas não era suficiente. Éramos diferentes. Sermos sapatas negras juntas não era suficiente. Éramos diferentes.

Levou um tempo para percebermos que nosso lugar era não a segurança de uma diferença em particular, mas a própria casa da diferença.”

Audre Lorde

Patriarcado à mulheres: se eu quero a sua opinião, eu vou dá-la a você (Tradução)

Texto Original

Ele (ele é todo homem) me acusa de ter um argumento irracional e simplista, mas eu nem tentei argumentar. O que há com homens pensando que os “argumentos” das mulheres são errados quando mulheres não estão nem argumentando?

Argumentar com nossos opressores é inútil. Eles não vão entender. Nunca. E eles vão dizer sempre que eles ENTENDEM e que a razão pela qual eles não concordam é porque nosso argumento é equivocado. Mas eles estão errados. A razão pela qual eles não entendem é porque nosso argumento é baseado na REALIDADE FEMININA da qual eles não participam e nunca, nunca vão, porque eles nunca serão mulheres. Nunca. Nunca. É como explicar a televisão para homens da caverna sem mostra-los uma televisão. Há elementos na nossa realidade que são literalmente invisíveis a homens e sempre serão PORQUE eles são homens. Este não é um pensamento simplista e binário, isso é a realidade biológica, social e cultural. Felizmente, nós também não temos que convencer homens de nada para entendermos em nossas mentes sobre assuntos relacionados inteiramente a nós. Nós não devemos à homens explicações e certamente, nós não temos que referenciar todas nossas percepções através de homens para elas serem reais. Essa noção é misógina e colonizadora. Nós podemos analisar nossa própria realidade e homens não entendem uma palavra sobre isso. Eu não vejo = / = (diferente de) isso não existe. Nós vemos isso. Você não. E é por isso que chamamos isso de cegueira. E você vai sempre e sempre estar cego a realidade feminina, então não tente me dizer como é aqui. Eu estou completamente cansada de discutir feminismo, ou seja, realidade feminina com esse cara (ele é todo cara).

É mais divertido e vantajoso trocar ideias com mulheres, embora que ele ainda vá tentar parasitar algo (na verdade, tudo que ele puder até que estejamos mortas) da nossa energia batendo uma enquanto ele tenta intervir. Mesmo ignorando-o, nós temos que usar a nossa energia para continuar ignorando-o, porque ele constantemente nos atormenta por atenção.

Também eu quero adicionar que essa presunção que homens tem que quando mulheres nomeiam a sua realidade, na verdade estamos tentando argumentar com eles e presumem que não temos conceito de o que a nossa realidade é a menos que eles aprovem como reais. Como, embora, nós não podemos simplesmente exprimir “é assim” sem ter que receber a aprovação masculina da nossa situação. É por isso que eles pulam no argumento. A verdade é que nós não estamos argumentando. Nós estamos te dizendo. É assim. Nós não estamos te procurando para apurar isso para fazer ser real. Muito do problema desse paradigma é que mulheres vivem em um mundo onde a realidade dos homens é real, a realidade das mulheres não é real, e tudo que pensamos que pode ser real tem-se que passar primeiro por um homem para ter certeza de que ele veja isso também (leia: para que ele então possa assegurar-nos que estamos alucinando se acontecer de percebermos algo que possa comprometer toda a dominação dele sobre nós). Homens não fazem isso com mulheres. Eles não referenciam as percepções deles com as mulheres para terem certeza de que eles não são… espere… irracionais ou delirantes. Porque homens tem a cultura apoiando-os desde o nascimento dizendo que homens são racionais e mulheres não. Homens tem o patriarcado dizendo que homens são os decisores de tudo e que mulheres são abandonadas emocionais. Nós somos feitas para duvidarmos de nossas próprias percepções, mesmo quando sentimos nas nossas tripas o que é real e verdadeiro e todos sinais apontam para isso.

Mulheres que NÃO confirmam com homens que nossa realidade é real são registradas no radar masculino como nada mais que insanas, bruxas, precisando de lobotomia, histéricas, blá blá blá etc para sempre. Felizmente, uma vez que alcançamos esse ponto, essas tentativas feita por eles para continuar nomeando a realidade como ele acredita que é seu por direito cai no raso em mulheres que perceberam que isto é direito delas. Nós não pedimos validação masculina. Nós validamos nós mesmas e não nos importamos com o que homens pensam.

Imagine esse cenário:

Você vive numa cidade onde chove. Você viaja para outra cidade. Você diz a alguém que na sua cidade chove. A pessoa responde “eu não acho que este seja um bom argumento”. Você explica que você É de lá e que você VIU a chuva e que você na verdade não está argumentando, apenas dizendo para ele COMO É. Ele diz que isso também não é um bom argumento, porque não está chovendo na cidade dele. Você diz a ele que é porque sua cidade fica em outro lugar. Você explica como o clima pode ser diferente em duas cidades. Por alguma razão, você está espantada pela aparente ignorância dele, que você até começou a explicar condensação e a ciência da queda da chuva (ele parece sem noção, quanto mais eu vou ter que explicar para ele?). Logo você se percebe explicando a estrutura molecular da água, ao que ele responde que o clima é igual em todo lugar; ele sabe porque ele inventou isso e controla isso e é amigo do homem do tempo, ah, e também a sua cidade não está no mapa dele, então você é de lugar nenhum, sua trapalhona idiota; agora você não está apenas inventando histórias sobre chuva, você também está alegando que ela acontece em lugares que não existem, e na sua ilusão você ainda acredita que você é de lá! Prendam ela! Ela é doida! Nesse ponto sua boca começa a espumar. Você aponta que no mapa dele, a sua cidade está faltando. Você sabe que é real. Você esteve lá. E também, pelo amor de tudo que é sagrado CHOVE lá, também! Ele disse “olha, agora você está ficando zangada porque você não consegue argumentar sobre a existência da chuva, ou sobre essa cidade que você inventou, a qual não está no mapa.” Então você aponta que talvez a pessoa que fez o mapa nunca esteve lá. “IMPOSSÍVEL!” ele responde como se você estivesse acabado de dizer que porcos voam. “Porque?” você indaga. Você diz, “É totalmente possível. Na verdade, DEVE ser o caso, porque EU CONHEÇO essa cidade, eu NASCI lá, então qual a outra explicação poderia ter para ela estar faltando no seu mapa?”

Eu acredito que através de toda essa conversa, o gaslighting, o ciclo de funcionamento, o puxão de cabelo, o que nós estamos perdendo nisso é que: ele sabe da merda da cidade, porque ele a destruiu, a extinguiu e a colonizou. E ele sabe que chove lá porque ele controla o clima, como ele disse. Ou ao menos, ele pensa que controla. Garoto, ele tem uma onipotência sobre ele. E ele diz que nós estamos delirando? Espere um minuto… hmmmmm.

Não há nada para argumentar. Isto não é sobre argumentos. Isto é sobre dominação. Eles não estão tentando argumentar com nós com essas “discussões”. Eles estão tentando nos calar. Voltas e voltas que nós damos, horas depois fumigando, nos perguntando porque eles simplesmente NÃO ENTENDEM.

Eles entendem. É precisamente este o problema. O que eles não conseguem acreditar e provavelmente estão tão distraídos e entretidos para testemunhar é que você luta duramente. A maioria das mulheres concorda com eles na mesma hora, enterrando sua própria consciência e aceitando isso. Quando nós entendermos que o problema não é que eles não entenderam, que eles simplesmente precisam que nós expliquemos gentilmente para eles mais uma vez, mas na verdade, eles entenderam, e é intencionalmente que eles apagam e negam a nossa realidade, então nós poderemos nos desamarrar de todos os vínculos dos homens e descobrirmos quem nós somos. E se isso não é o suficiente para nos irritar, considere que eles SABEM que eles estão nos extinguindo e destruindo, mas eles NÃO SE IMPORTAM mesmo quando nós entramos em pânico e surtamos e gastamos uma interminável energia argumentando com eles sobre coisas que nós já SABEMOS que é verdade! Como convencer um homem que ele não é uma mulher apresentando-o as nuances da biologia. Ele sabe. Ele quer consumir toda a nossa existência e nos destruir. Isso é deliberar.

Todos eles sabem isso. Qualquer homem que diga o contrário também está fazendo aquelas coisas que eles todos são bons: mentir.

 

Porque pornografia importa para feministas – Andrea Dworkin

Pornografia é uma questão essencial porque a pornografia diz que as mulheres querem ser agredidas, forçadas e abusadas; pornografia diz que as mulheres querem ser estupradas, espancadas, sequestradas, desfiguradas; pornografia diz que as mulheres querem ser humilhadas, envergonhadas, difamadas; pornografia diz que a mulher diz Não mas quer dizer Sim – Sim para a violência, Sim para a dor.

Também: pornografia diz que as mulheres são coisas; pornografia diz que ser usadas como coisas preenche a natureza erótica das mulheres; pornografia diz que mulheres são coisas que homens usam.

Também: pornografia diz que mulheres são putas, vaginas, pornografia diz que os pornógrafos definem as mulheres; pornografia diz que homens definem as mulheres; pornografia diz que mulheres são o que os homens querem que as mulheres sejam.

Também: pornografia mostra as mulheres como partes de corpo, como genitais, fendas vaginais, mamilos, nádegas, lábios, feridas abertas, pedaços.

Também: pornografia usa mulheres reais.

Também: pornografia é uma indústria que compra e vende mulheres.

Também: a pornografia estabelece o estandarte para a sexualidade feminina, para os valores sexuais femininos, para o crescimento das meninas, para o crescimento dos meninos, estimulado pela propaganda, filmes, vídeos, artes visuais, arte fina e literatura, música com palavras.

Também: a aceitação da pornografia significa o declínio das éticas feministas e o abandono das políticas feministas; a aceitação da pornografia significa que as feministas abandonaram as mulheres.

Também: pornografia reforça os direitos dos homens sobre as mulheres por fazer o ambiente externo fora da casa mais perigoso, ameaçador, pornografia reforça o direito do marido sobre a mulher por fazer o ambiente doméstico mais perigoso, mais arriscado.

Também: pornografia torna a mulher em objetos e conveniências; pornografia perpetua o status de objeto das mulheres; pornografia perpetua as divisões de auto-derrota entre as mulheres por perpetuar o status objetal da mulher; pornografia perpetua abaixa auto-estima da mulher por perpetuar o status de objeto da mulher; pornografia perpetua a descrença da mulher pela mulher por perpetuar o status de objeto da mulher; pornografia perpetua a dessignificação e degradação da inteligência e criatividade da mulher por perpetuar o status de objeto da mulher.

Também: violência contra a mulher é usada na pornografia e pornografia encoraja e promove violência contra as mulheres como uma classe; Pornografia desumaniza a mulher usada na pornografia e pornografia contribui para e promove a desumanização de todas as mulheres; pornografia explora a mulher usada na pornografia e acelera e promove a exploração sexual e econômica da mulher como uma classe.

Também: pornografia é feita por homens que sancionam, usam, celebram e promovem violência contra mulher.

Também: pornografia explora crianças de ambos os sexos, especialmente garotas, e encoraja violência contra crianças, e faz violência às crianças.

Também: pornografia usa racismo e anti-semitismo para promover provocação sexual; pornografia promove hostilidade racial por promover a degradação racial como ´sexy´, pornografia romantiza os campos de concentração e de plantação, os nazistas e os proprietários de escravos ;pornografia explora os estereótipos de comportamentos raciais para promover excitação sexual; pornografia celebra obsessões sexuais racistas.

Também: pornografia nubla a consciência, a faz mais brutalizada para a crueldade, para a inflição de dor, para violência contra pessoas, para a humilhação e degradação de pessoas, para as mulheres e crianças abusadas.

Também: a pornografia nos deixa sem futuro; pornografia nos priva de esperança de dignidade; pornografia desenvolve a diminuição do nosso valor humano numa sociedade e nossos potenciais humanos de fato; pornografia esquece a auto-determinação sexual das mulheres e das crianças, pornografia nos usa e nos descarta fora; pornografia aniquila nossa chance de liberdade.

Tradução Veggie Grrrl / Link do post

As borboletas ou desmascarando as políticas do amor – Parte I (tradução)

Texto Original*

Homens mentem sobre tudo. Ou, em outras palavras, eles fazem as coisas mais cruéis e nojentas para nós, e chamam isso de outra coisa, chamam de amor.

Quando eu era bem jovem eu sempre me perguntava o que significava “se apaixonar”. Isso era posto em todo lugar como a melhor experiência para uma mulher, aquilo que você precisa experimentar para estar completa. Isso era retratado como um estado super especial que atinge você como um relâmpago e transcende você e muda o seu comportamento. É bem assustador quando você pensa nisso. Eu nunca me “apaixonei” por ninguém quando eu era jovem, e eu me perguntava sempre se eu era normal ou não. Eu dizia para as pessoas lamentando, “eu nunca me apaixonei”, e eles me diziam “ah, você vai ver, vai vim um dia quando você não estiver esperando”. Eu me sentia da mesma forma quando as pessoas me explicavam o que era deus e fé e aparentemente eu deveria me transcender por este grande sentimento durante os rituais ou algo do tipo, exceto que eu nunca senti nada e era completamente artificial e entorpecente no melhor dos casos, tendo que fingir, e me sentindo culpada por fingir, assim como nos relacionamentos.

Eu me lembro de um garoto se aproximando de mim quando eu tinha nove anos e ele queria sair comigo. Nós deveríamos andar de mãos dadas e isso era totalmente estranho e falso (qual era a diferença entre “estar com ele” e “não estar com ele”? a vulgaridade e artificialidade disso era humilhante), eu não sentia nada, exceto um desconforto por andar de mãos dadas só para mostrar para o mundo que eu pertencia a ele, o que eu não gostava porque eu pensava que era errado uma pessoa pertencer a outra, mas eu também me sentia culpada por não sentir aquele amor especial que eu deveria sentir, eu pensava que isso significava que eu não tinha coração.

De qualquer forma, depois de alguns estupros/ PIV**/ relacionamentos abusivos, enquanto eu ainda era adolescente, eu me “apaixonei”, ou assim eu pensei. Tudo que eu sabia era que aquilo era muito intenso, então eu presumi que aquilo tinha que SER amor! FINALMENTE!!

Agora, o que exatamente eu senti? Minhas respostas a primeiro ser “seduzida” (perseguida) e beijada (fisicamente invadida e mantida presa) por um homem – e ele querendo me ver de novo – incluíam:

  • Branco na mente
  • Coração disparado
  • Suor
  • Pensamentos obsessivos e invasivos sobre ele que me impendiam de me concentrar e experimentar outras coisas por total
  • Desperdiçar horas ou um bom tempo preparando o que eu devia dizer a ele antes que o visse
  • Nervoso
  • Insônia
  • Aquelas chamadas “borboletas” no estômago que são tensões estomacais
  • Rubor
  • Me checar no espelho e controlar a aparência do meu corpo mais obsessivamente do que eu normalmente fazia, e estar com mais medo que o usual de ser feia, não ser inteligente o bastante ou algo do tipo
  • Desesperadamente esperar por contato da parte dele. Um email, uma mensagem, uma ligação… checar meu telefone e email obsessivamente e meu coração ficar despedaçado quando não tinha nada
  • Um doloroso sentimento de perda, separação, vazio (isto é, se sentir vazia, sem existência sem a presença dele) e ser rasgada por dentro do peito. Uma sensação que se intensificaria na ausência dele ou se ele fosse sadicamente frio ou distante, ou depois do PIV ou invasão física
  • Um constante estado de ardente melancolia, variando a intensidade. Este é um estado no qual você é imobilizada entre um sentimento de que não há nada lá fora e um horror da sua própria solidão/ vazio (ou o que é feito você acreditar que é a solidão da alma) então eu vaguei melancolicamente para fora do meu corpo,  implorando silenciosamente para me pendurar nele (ou em outro alguém)
  • Achar coisas bonitas no homem onde não havia nada
Yeah. Nada disso aqui é amor. É apenas medo de ser abandonada, terror e ponto final. Ou o que chamamos de trauma-bonding***. Ainda em todo lugar, estas respostas muito normais à danos, negligência e prisões feitas por homens são descritas como amor, mesmo quando a mulher (diga-se em um romance “romântico”) morre por causa desse suposto amor. E isso não é uma projeção, em todo caso, abusos e ameaças de homens são reais, por causa do PIV, porque homens são nossos opressores e captores e nós tememos eles, por causa da invasão física compulsória que homens chamam de sexo, a negligência real, mentiras e manipulação etc.

Não preciso dizer que minha primeira experiência foi extremamente dolorosa. O cara tinha por volta de 13 anos a mais que eu, e eu ainda era menor de idade, e o meu “amor” seria mais forte que tudo, ele era muito fugaz, iria entrar em contato comigo somente quando ele precisava me foder (estuprar). Eu estava muito grata por ele prestar alguma atenção em mim para ter consciência desse comportamento abusivo, ou entender o que isso significava. Eu estava confusa porque ele só queria me ver esporadicamente, em vez de começar um relacionamento, o qual é a forma que esse amor supostamente deve ser expressado. Se ele gostava o bastante de mim para me “desejar”, porque ele não queria um relacionamento? Não saber se ele me “amava” ou não me deixava constantemente ansiosa. A distância emocional, a negligência e o constante esperar por ele fez a dor aguçar.

Passado um ano, eu finalmente percebi que ele me usou e não teve nenhum respeito por mim. Eu decidi desistir de esperar que ele se apaixonasse por mim (entrasse no prometido relacionamento). No instante que eu fiz isso, eu senti um maravilhoso sentimento de liberdade. Eu senti que todo o peso do mundo de repente desaparecesse. Eu não estava amarrada, ligada mais a ele. Eu era independente. Eu não precisava viver mais segundo ele, esperando e ansiando por ele. As ilusões de repente desapareceram e eu vi ele como um cara inútil. Eu disse a mim mesma: eu nunca mais vou ser tão ingênua com um cara. Eu tive má sorte, eu pensei, eu devia apenas ter escolhido um homem melhor, e ser mais cuidadosa.

O problema era que depois de passado cinco ou seis anos, esse modelo continuou se repetindo e repetindo e repetindo. Todo homem que eu trauma-bonded também estava somente interessado em me usar para PIV (estupro) ou não tinha nenhum interesse em mim. Eu pensei que tinha algo de errado comigo, talvez eu não fosse bonita o suficiente, magra o suficiente, peituda o suficiente, estivesse saindo o suficiente, madura, sedutora, seja o que for. Eu não entendia o que era que eu não tinha. Eu não entendia porque eu acumulava tantas falhas. Porque eles nunca ficavam? Porque eu era tão azarada no “amor”? Alternativamente, eu não iria ter trauma-bond, então eu ficaria completamente consciente que eu não queria PIV e invasão física (quando eu não tinha muita consciência disso com outros por causa do trauma-bonding) e isso seria mais humilhante. Eu estava ainda muito grata pela atenção para mandá-los embora, então isso seria doloroso, nojento, e eu me odiei pelo que eu percebi que era traição própria.

Quando eu estava “atraída”, eles não queriam, e quando eu não queria, eles queriam. Isso não fazia sentido.

Eu vi que existia um modelo e tentei coisas para evitar sentir tanta dor. Eu decidi parar de ter PIV com homens que eu não conhecia direito ou que não tivesse começado um relacionamento oficial. O objetivo era evitar ter PIV com homens que se sentiam atraídos por mim até que eu soubesse que eles não iriam me usar/abusar só por PIV e que queriam um sério, comprometido e igual relacionamento, baseado em descoberta mútua, amizade etc. Ao menos, se eu me “apaixonasse” por eles, eles não teriam me fodido, eu pensei. Bem, advinha, tudo que aconteceu foi que eu continuei tendo trauma-bond com homens, exceto que depois deles se sentirem “atraídos” por mim (me convidar para drinks, ou qualquer coisa), eles perderiam o interesse por mim porque eles não conseguiriam o que queriam e eles achariam outra mulher que fosse mais dócil cedo ou tarde. Isso era doloroso também. E não impediu de alguns homens me estuprarem de qualquer forma.

Porque isso tudo era confuso e doloroso, eu pensaria bastante sobre isso, e perguntava muito para outros, para ver como eram as outras experiências. As coisas que eu comecei a descobrir, pouco a pouco, foram:

1. Que a intensidade do trauma-bond poderia murchar após um tempo conhecendo o homem como amigo ou conhecido.

2. Que o “amor” em questão não tinha nada a ver com o caráter individual dos homens ou o fato de eu apreciá-los pelo o que eles eram, mas tinha tudo a ver com o que eles representavam para mim – usualmente uma figura autoritária, sendo muito mais velho que eu ou tendo um status mais alto. Isso na verdade me prevenia de vê-los como eles realmente eram (estupradores mentirosos sacos de merda). O mais distantes ou frios que eles eram, se eles decidiram me invadir fisicamente ou não, mais doloroso seria o “amor” (trauma-bonding)

3. Também, eu reconheci a mim mesma que esse sentimento “amor” era muito intenso para suportar e nunca me conduziu a lugar algum, exceto desolação. Isso não era natural e era uma prova de que esse relacionamento era doentio. Eu assumi que deveria ter um problema no modo que eu amava, que se isso era realmente amor não poderia ser tão doloroso e alienante. Então eu comecei a buscar porque isso acontecia comigo e buscar quebrar esse modelo de alguma forma. Eu comecei a prestar atenção em como isso funcionava e o que isso fez comigo.

4. Eu decidi parar de procurar estar em um “relacionamento amoroso” com um homem até que eu tivesse me ordenado, e também procurar homens no qual eu poderia ser igual em idade e status até para prevenir a trauma-bond. Eu disse a mim mesma: “você não vai sair com um homem até que você saiba que você pode “amar” sem sentir dor.” Se fosse para eu sentir o amor, isso teria que ser um sentimento de calma e serenidade, de totalidade e felicidade, e não deveria existir temor, medo da perda, ansiedade ou qualquer coisa do tipo que cerca o homem. Pelo contrário, isso significaria que isso não era amor, mas um trauma-bonding ou S/M*** e eu deveria me manter longe do cara, ou esperar até que isso murchasse e eu pudesse ter uma decisão informada. Sedução em si era errado, artificial e alienante, porque isso estava me ameaçando a ser algo para ser pertencido, então se fosse para ter uma relação física com um homem, teria que ser depois de um tempo de amizade e proximidade e que viesse naturalmente.

5. Logo após, eu percebi que constantemente e secretamente esperar que uma relação amorosa acontecesse onde quer que eu fosse era doloroso em si mesmo, eu acabaria sempre com um sentimento de solidão, insatisfação, como se algo especial não estivesse acontecendo – em um estado de expectativa para acontecer algo externo comigo em vez de egocentrismo.  Isso me construiu como inerentemente sozinha e vazia, como sendo metade de uma pessoa com a necessidade de ser preenchida por um homem (ou outra pessoa). Como inerentemente carente e incompleta. Como se eu não suportasse ficar comigo mesma, eu teria que desaparecer em um homem/ casal para existir – isso é extremamente ódio à mulher e aniquilador de si mesma. Esperar para depender dele e esperar por ele para receber amor, claro que isso nunca viria. Eu finalmente percebi a inversão proferida e a mentira de toda essa merda. Eu percebi que eu precisava desistir de todo desejo de estar em um relacionamento para então não me sentir constantemente alienada. Eu me lembro muito bem de fazer essa decisão e sentir um tamanho sentimento de liberdade e felicidade em estar comigo mesma depois de tudo. Parecia ser uma reconciliação.

Em seguida, as coisas se desdobraram bem rápido. Foi quando o feminismo seriamente se reclamou em mim, quando eu percebi que PIV, invasão física sexual de mulheres e controle dos nossos órgãos sexuais eram como os homens nos oprimiam e nos prejudicavam. Que PIV era inerentemente danoso, humilhante e que nós não eramos para ser penetradas. E foi onde eu percebi a estrutura geral da violência masculina e patriarcal. Meu mundo inteiro caiu.

Bem, adivinhe, todos esses repentinos homens não estavam interessados em mim de jeito nenhum. Porque eu sempre me afastei de qualquer tipo de “sedução” antes que eu conhecesse bem o cara, eles simplesmente se afastavam de mim logo, antes que de fato eu os conhecesse. Ha Ha. Isso abriu meus olhos. Me fez perceber que homens não estavam interessados em relacionamentos em igualdade com mulheres. Nenhum deles. Não existia “caras legais” ou exceções. Eles não estavam interessados em mim nem como amigos porque eles não conseguiam de mim o que eles queriam. Tudo que eles queriam era me usar como um buraco para PIV e como a propriedade deles, porque essa era minha função enquanto mulher na terra dos homens, e se eu não preenchesse essa função, eu estava fora do interesse deles.

E depois de estabelecer algumas regras finais de interação com homens, para me proteger da nojenta misoginia deles (completa abertura ao feminismo, sem o menor indício de misoginia, capaz de conversar sobre isso sem a menor defensiva ou me fazer sentir estranha de qualquer forma), homens sumiram da minha vida. Nenhum homem coube nos critérios, ainda que minhas regras não fossem radicais e fossem individualistas.

Eu percebi que qualquer que fosse o esforço individual que eu pusesse em uma relação com homens mesmo sem o PIV ou sem a “sedução”, sempre seria desigual com eles, porque eles são nossos opressores e captores, porque eles acabam com a nossa energia e conosco tentando mudá-los. Nunca haveria uma proteção completa do trauma-bonding com eles, ou medo da violência deles ou de ser impedida a ir ao final dos meus pensamentos. Não importa o que eles fazem individualmente para serem legais ou não, é o que eles são e representam enquanto classe masculina. Até hoje, se um homem é gentil comigo ou apenas sorri eu ainda sinto essa “atração” e gratidão que eu sentia antes e tento me livrar dela, que simplesmente significa que homens continuam sendo nossos captores e não há forma de escaparmos da síndrome de estocolmo enquanto eles nos seguram como prisioneiras. O qual é precisamente o porque que eu sei que tenho que me afastar deles máximo que eu puder.

Então sim, o fim do desmascaramento das mentiras dos homens sobre amor e relacionamentos foi o começo do separatismo dos homens, e o começo do feminismo radical.

*A tradução pode ter ficado um pouco tosca, então se você quiser enviar sugestões, eu aceito HAHA
**PIV: Penis in Vagina (Pênis na Vagina)
*** Trauma Bonding: “ligação traumática” é o uso indevido de medo, excitação, sentimentos sexuais e fisiologia sexual para enredar outra pessoa.
**** S/M: Sadomasoquismo

(Tradução Niña Mala)